“Close To The Edge” (Atlantic Records,1972), Yes
Por Sidney Falcão
Foi através
do sucesso comercial do seu quarto álbum de estúdio, Fragile, em
1971, que a banda Yes conquistou popularidade nos Estados Unidos, onde o álbum chegou
ao 4° lugar da parada da Billboard 200. A faixa mais famosa de Fragile,
“Roundabout”, ganhou uma versão curta editada pela gravadora Atlantic e foi lançada
em single no mercado americano em janeiro de 1972, alcançando o posto de 10°
lugar da Cash Box Top 100 e 13° lugar da Billboard Hot 100. Fragile
consolidou o Yes no mercado fonográfico americano e europeu. A banda britânica
estava em franca ascensão no segmento do rock progressivo.
Em fevereiro
de 1972, o Yes começou a gravar o próximo álbum, ainda com a turnê do álbum Fragile
em curso e que só chegaria ao fim de março daquele ano. A produção do novo disco ficou
a cargo do produtor Eddy Offord, que foi engenheiro de som no álbum Time
And A Word (1970), e produtor dos álbuns The Yes Album
(1971) e Fragile (1971). O Yes participou da co-produção do novo álbum.
As gravações ocorreram entre agosto e setembro de 1971, no Advision Studios, em
Londres, Inglaterra, os mesmos estúdios em Fragile foi gravado.
Logo após a
conclusão das gravações do novo álbum, o baterista Bill Bruford anunciou em 19
de julho de 1972 que estava deixando o Yes. A notícia surpreendeu a todos,
ainda mais pelo fato da banda ter alcançado prestígio no tão cobiçado mercado
musical americano. Bruford deixou o Yes e juntou-se à banda King Crimson. Para
ocupar o posto que era de Bruford foi chamado às pressas Alan White
(1949-2022), ex-baterista da Plastic Ono Band, de John Lennon e Yoko Ono. Já de
cara, White teve um grande desafio que foi ensaiar em pouquíssimo tempo o
repertório do Yes, pois, em 30 de julho estava marcado o começo da turnê do
novo álbum, que por sua vez, no entanto, só seria lançado em setembro.
Intitulado Close
To The Edge, o quinto álbum de estúdio do Yes foi lançado em 13 de
setembro de 1972, e é o título de uma de suas faixas. Tematicamente, o álbum
foi inspirado no romance Siddhartha, livro do escritor alemão Herman
Hesse (1877-1962) lançado em 1922, e que trata sobre um jovem filho de um
brâmane bem nascido, que abdica dos bens materiais para fazer uma peregrinação
espiritual em busca da felicidade.
Close
To The Edge é
composto apenas de três longas faixas, sendo a faixa-título a mais longa do
álbum, com pouco mais de dezoito minutos de duração, e que ocupa todo o lado 1
da versão LP do disco. Duas das três faixas, a faixa-título e “And You And I”,
são divididas cada uma em quatro movimentos, como uma sinfonia. Se
Fragile, o álbum anterior, é marcado pelo individualismo, Close
To The Edge é marcado num sentido oposto, pela coesão, pela
coletividade entre os membros da banda.
O ecletismo
musical também é outro ponto a ser destacado em Close To The Edge.
Do jazz ao órgão com inspiração barroca, passando pelo rock, pelo balanço com
inspiração funk, o orientalismo da cítara, os teclados futuristas e as
harmonizações vocais angelicais são elementos que compõem a estrutura musical
de Close To The Edge.
A grande
novidade de Close To The Edge na época de seu lançamento foi a
capa. Criação do artista gráfico Roger Dean, autor da capa do álbum anterior, a
capa de Close To The Edge trouxe a primeira a aparição da logo do
Yes, que também foi uma criação de Dean. A capa em si, é muito simples: um
fundo em degradê com tons de cores que vão do preto ao verde.
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Formação do Yes em 1972, da esquerda para a direita: Jon Anderson, Steve Howe, Chris Squire, Rick Wakeman e Bill Bruford. |
O álbum
começa com sons de natureza, como sons de água corrente e cantos de pássaros
que dão início à faixa-título e seus dezoito minutos de duração divididos em
quatro movimentos, intitulados “The Solid Time of Change”, “Total Mass Retain”,
“I Get Up, I Get Down” e “Seasons of Man”. A longa faixa dividida em quatro
movimentos, percorre por andamentos rítmicos e arranjos variados. Nesta faixa,
Rick Wakeman tocou um órgão de tubos da Igreja de St. Giles-Without
Cripplegate, uma igreja anglicana localizada em Londres, cuja gravação foi
feita no local, devido ao tamanho do instrumento e seus enormes tubos.
“And You And I” não é tão longa como a faixa-título, mas tem uma duração de pouco mais de dez minutos e é também dividida em quatro movimentos: “Cord of Life”, “Eclipse”, “The Preacher, The Teacher” e “The Apocalypse”, cada uma com suas particularidades rítmicas e de arranjos. A folk music dá o tom desta faixa, trazendo na abertura o violão de Steve Howe acompanhado do tilintar pontual de sinos. Embora a folk music dê a orientação da faixa, o que poderia sugerir um maior protagonismo dos violões, há no entanto uma presença acentuada do sintetizadores de Rick Wakeman que criam toda uma atmosfera sonora, além do baixo de Squire, da guitarra de Howe e da bateria de Bruford que criam toda uma alternância rítmica variada nos movimentos que compõem a estrutura da faixa.
Close
To The Edge
termina com “Siberian Khatru”, a faixa mais “curta” do álbum, e também a menos
complexa em termos de arranjos. Em comparação com as outras duas faixas anteriores,
é a que tem uma inclinação mais pop, muito por conta da levada rítmica
inspirada no funk. Com uma duração de cerca de oito minutos, a faixa é boa
parte dominada por um ritmo rápido, mas tendo um ou outro trecho mais lento e
“etéreo” proporcionado pelos sintetizadores de Wakeman. Segundo Ian Anderson, a
expressão “khatru” significa “como você quiser” traduzido de um dialeto árabe
do Iêmen, mas que na época ele não tinha ideia do que a palavra significava até
pedir que alguém procurasse o seu significado. Em entrevista, Anderson afirmou
que a letra da música trata sobre a “unidade de diferentes culturas”.
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Arte na parte interna da capa dupla de Close To The Edge, de autoria do ilustrador inglês Roger Dean, que também fez a capa do álbum e criou o logotipo do Yes. |
A recepção
por parte da imprensa ao álbum Close To The Edge foi positiva. O
jornalista Ian McDonald (1948-2003), em seu artigo para o New Music Express
afirmou que com o novo álbum, o Yes “não estava apenas perto do limite, eles
passaram disso”. A revista americana Cash Box considerou
Close To The Edge uma “obra-prima de gravação”.
O público
também reagiu bem a Close To The Edge. Na parada da Billboard
200, nos Estados Unidos, o quinto álbum do Yes chegou ao posto de 3° lugar,
e chegou à marca de 500 mil cópias vendidas, proporcionando ao Yes um disco de
ouro. Enquanto, isso, no Reino Unido, o álbum chegou ao 4° lugar na parada de
álbuns. Já na Holanda, o Close To The Edge alcançou o 1° lugar na
para de álbuns daquele país. Em 1998, o Yes foi contemplado com um disco de
platina após Close To The Edge ter vendido 1 milhão de cópias nos
Estados Unidos.
A turnê de Close
To The Edge, iniciada no final de julho de 1972, poucos meses antes do
próprio álbum ser lançado, foi uma das mais bem sucedidas da carreira da banda
britânica. Foi a primeira turnê de Alan White como baterista do Yes. A turnê
passou pelos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Japão e Austrália, e foi
concluída em 22 de abril de 1973 com um show no West Palm Beach Auditorium, em
West Beach, na Flórida, nos Estados Unidos.
Durante essa
turnê, alguns shows foram gravados e filmados cujo material registrado resultou
no álbum triplo gravado ao vivo Yessongs, lançado em maio de
1973. O registro filmado foi de um show do Yes no London Rainbow Theatre,
ocorrido em dezembro de 1972. Somente em 12 de março de 1975 que o filme
estreou nas telas de cinema.
Close
To The Edge tornou-se
um dos álbuns mais representativos do rock progressivo e consolidou o Yes como
uma das bandas mais importantes do estilo. O sucesso do álbum levou a Atlantic
Records a renovar o contrato do Yes para mais cinco anos.
Depois do registro triplo ao vivo Yessongs, a banda britânica contemplou o seu público em dezembro de 1973 com o ambicioso Tales From Topographic Oceans, que apesar do formato duplo, trazia apenas quatro faixas, cada uma ocupando todo um lado de cada disco e durando em média “quilométricos” 20 minutos. O Yes havia chegado ao estágio de excesso de preciosismo e exagero. Tal postura se marcaria o começo da derrocada do rock progressivo, que se agravaria com a ascensão do punk e da disco music a partir de meados da década de 1970.
Faixas
Lado 1
1.“Close To
The Edge” (Jon Anderson/Steve Howe)
I. "The
Solid Time of Change"
II.
"Total Mass Retain"
III. "I
Get Up, I Get Down"
IV.
"Seasons of Man"
Lado 2
2. “And You And
I” (Jon Anderson/Steve Howe/Bill Bruford/Chris Squire)
I.
"Cord of Life"
II. "Eclipse"
III.
"The Preacher, the Teacher"
IV.
"The Apocalypse"
3. “Siberian
Khatru” (Jon Anderson/Steve Howe/Rick Wakeman)
Yes: Jon Anderson (vocais), Steve Howe (guitarra
elétrica, violões, cítara elétrica, vocais de apoio), Chris Squire (baixo, vocais
de apoio), Rick Wakeman (teclados) e Bill Bruford (bateria e percussão).
Referências:
yesworld.com
wikipedia.org
Ouça na íntegra o álbum
Close To The Edge
Esse é o disco do Yes que considero como o mais "superestimado" na discografia deles, e não o "melhor" como muitos até hoje afirmam - ainda tá muito longe disso, mesmo depois de 50 anos de seu lançamento. Mas, cá entre nós, seria sim Close to the Edge o "melhor" álbum da discografia do grupo se não fosse por dois pequenos problemas: primeiro e mais importante, a saída do baterista Bill Bruford após as gravações do mesmo, devido á sua discordância a respeito do caminho musical que o Yes começou a trilhar a partir deste álbum (olha aí o destino mostrando sua crueldade no seio da banda); segundo, é o fato de ter apenas três músicas (sendo a primeira ocupando o lado A inteiro do LP), o que para mim não é o suficiente para se fazer um trabalho desse nível. Para falar francamente, o Yes já fez (pro meu gosto) coisa bem melhor antes e depois de Close to the Edge. Mas, enfim... Parabéns ao nosso álbum cinquentão deste mês de setembro!
ResponderExcluirEmbora "Close To The Edge" tenha a sua importância na história do rock, confesso que gosto mais do "The Yes Album". Acho que se por um lado, "Close To The Edge" consagrou a banda que vinha em ascensão, por outro, já começa aqui a dar os sinais da megalomania que iria marcar a banda.
ExcluirPelo que eu sei, o disco que consagrou o Yes foi o Fragile, que veio antes de CTTE e que foi em 2021 resenhado aqui no site. Mas, como eu disse, CTTE seria sim o melhor disco da banda se não fosse pelos dois problemas citados acima, principalmente se Bruford não tivesse posto tudo a perder com sua saída após as gravações e antes de sua turnê promocional. O baterista era muito contraditório nesse tempo!
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