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10 discos essenciais: Alceu Valença

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Por Sidney Falcão Sob o sol alto do agreste pernambucano, entre o cheiro da terra quente e o canto dos violeiros de feira, nasceu naquele 1º de julho de 1946 um menino de olhar luminoso e ouvido inquieto: Alceu Paiva Valença. Filho de São Bento do Una, cresceu entre aboios, versos de cordel e sanfonas que pareciam conversar com o vento. Era um Brasil arcaico, de narrativas orais e ritmo de feira, onde os poetas anônimos faziam da cantoria um ato de resistência. Dessa paisagem de cores secas e imaginação fértil nasceria um artista destinado a reencantar o Nordeste com a força elétrica do seu próprio som. A música entrou na vida de Alceu antes mesmo que ele soubesse nomeá-la. Em casa, o avô, Orestes Alves Valença, era poeta e violeiro — um dos primeiros a lhe mostrar que a palavra podia dançar. Nas feiras, escutava Jackson do Pandeiro(1919-1982), Luiz Gonzaga (1912-1989) e Marinês (1934-2007), ecos fundadores de uma tradição que o moldaria. Quando, aos dez anos, mudou-se para o Recif...

Tribalistas (Phonomotor Records / Universal Music, 2017), Tribalistas

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Por Sidney Falcão   Quinze anos é um tempo longo demais para a música popular. Quando Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown lançaram o primeiro Tribalistas , em 2002, não havia redes sociais como as conhecemos hoje, nem a instantaneidade do streaming. O disco surgiu como uma revelação silenciosa — sem entrevistas, sem promoção tradicional — e mesmo assim se transformou num fenômeno avassalador. “Já Sei Namorar” e “Velha Infância” viraram hinos geracionais, ecoando da rádio às rodas de violão, enquanto o álbum alcançava vendas milionárias e conquistava prêmios internacionais.   A força daquele encontro se tornou, paradoxalmente, uma espécie de prisão dourada. O trio, envolto em raras aparições públicas, deixou o mito crescer por conta própria. Havia rumores, especulações, encontros ocasionais em shows ou cerimônias como a das Olimpíadas de Londres em 2012, mas nada de concreto. Até que, em 2017, uma live transmitida simultaneamente nas redes sociais dos três artis...

Chega de Saudade (Odeon, 1959), João Gilberto

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Por Sidney Falcão Nascido em 1931 em Juazeiro, Bahia, filho de um comerciante próspero e apaixonado por rádio, João Gilberto cresceu ouvindo música em casa, fascinado pelas vozes de Orlando Silva e Duke Ellington. Aos sete anos já apontava erros no organista da igreja. Aos 14, ganhou um violão, formou grupo vocal, mudou-se para Salvador e mergulhou de vez na música. Tentou a sorte no Rio, integrou o conjunto vocal Garotos da Lua, gravou discos de 78 rpm que fracassaram, viveu de pequenos bicos e jingles. Em 1955 isolou-se em Diamantina, Minas Gerais, onde, no eco de um banheiro, descobriu a batida constante no violão que permitiria à voz cantar fora do tempo, suave, quase sussurrada. Foi nessa solidão que compôs “Bim Bom”. Em 1957 voltou ao Rio de Janeiro com essa descoberta, impressionando jovens músicos como Menescal, Ronaldo Bôscoli e Chico Pereira, que o apresentou a Tom Jobim. Era o embrião do encontro que levaria ao disco Chega de Saudade .   Foi no fim da década de 1950 ...

Roberto Carlos (CBS,1969), Roberto Carlos

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Por Sidney Falcão No fim dos anos 1960, enquanto o Brasil girava em torno de incertezas políticas, censura e efervescência cultural, Roberto Carlos encostava o carro na beira da praia — não para tomar sol, mas para encontrar o silêncio. Com os olhos postos no horizonte e um cachimbo entre os dedos, ele se preparava para dar um passo que mudaria para sempre sua música, sua imagem e sua voz interior. O álbum Roberto Carlos , lançado em dezembro de 1969, não é só o nono disco de estúdio de sua carreira. É o seu primeiro mergulho real na maturidade artística, uma travessia do espelhado mundo iê-iê-iê da Jovem Guarda para um oceano mais introspectivo, sofisticado e dolorosamente humano.   Conhecido como "o disco da praia" por causa da imagem de Roberto Carlos na capa, sentado na areia, o álbum mostra o cantor buscando um ponto de equilíbrio entre o pop romântico que o consagrou e a sofisticação harmônica e lírica da MPB. Ele chega lá por meio de uma ponte construída com arran...