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Entradas e Bandeiras (Som Livre, 1976), Rita Lee & Tutti Frutti

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Por Sidney Falcão   Entre o impacto avassalador de Fruto Proibido (1975) e a virada pop/funk de Babilônia (1978), Rita Lee atravessou 1976 como quem caminha sobre um terreno instável: grávida, perseguida pela ditadura, cansada de turnês intermináveis e ainda assim determinada a não ceder um milímetro de sua liberdade criativa. Entradas e Bandeiras , lançado em julho daquele ano pela Som Livre, não foi apenas mais um álbum de continuidade — foi o testemunho de uma artista que, mesmo acuada, insistia em cantar alto, transformar as cicatrizes do tempo em canções e manter viva a fagulha roqueira de sua parceria com a Tutti Frutti.   O disco nasceu no Estúdio Eldorado, em São Paulo, sob produção de Wagner Baldinato, em meio a tensões internas e ao desgaste físico da própria Rita. A Tutti Frutti já não era a mesma formação estável do início: Sérgio Della Monica entrava na bateria substituindo Franklin Paolillo, e as idas e vindas de músicos refletiam a atmosfera de um grupo em...

10 discos essenciais: Alceu Valença

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Por Sidney Falcão Sob o sol alto do agreste pernambucano, entre o cheiro da terra quente e o canto dos violeiros de feira, nasceu naquele 1º de julho de 1946 um menino de olhar luminoso e ouvido inquieto: Alceu Paiva Valença. Filho de São Bento do Una, cresceu entre aboios, versos de cordel e sanfonas que pareciam conversar com o vento. Era um Brasil arcaico, de narrativas orais e ritmo de feira, onde os poetas anônimos faziam da cantoria um ato de resistência. Dessa paisagem de cores secas e imaginação fértil nasceria um artista destinado a reencantar o Nordeste com a força elétrica do seu próprio som. A música entrou na vida de Alceu antes mesmo que ele soubesse nomeá-la. Em casa, o avô, Orestes Alves Valença, era poeta e violeiro — um dos primeiros a lhe mostrar que a palavra podia dançar. Nas feiras, escutava Jackson do Pandeiro(1919-1982), Luiz Gonzaga (1912-1989) e Marinês (1934-2007), ecos fundadores de uma tradição que o moldaria. Quando, aos dez anos, mudou-se para o Recif...

Grand Prix (Creation / DGC, 1995), Teenage Fanclub

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Por Sidney Falcão O Teenage Fanclub sempre foi uma banda fora de tempo. Enquanto em 1991 o mundo se rendia ao barulho sujo do grunge, os escoceses ousaram lançar Bandwagonesque , um álbum tão luminoso em sua devoção ao power pop que acabou coroado pela revista Spin como o melhor do ano — à frente de Nevermind , do Nirvana, e de Loveless , do My Bloody Valentine. Quatro anos depois, quando a febre do Britpop transformava o Reino Unido numa disputa de egos entre Oasis e Blur, eles voltaram a se colocar na contramão: em julho de 1995, Grand Prix surgiu como um disco de luz, melodias cristalinas e harmonias vocais que evocavam Byrds, Big Star, Beatles e até um quê pastoral dos Beach Boys.   O título, irônico, parecia dizer tudo. Nenhum dos integrantes sabia dirigir um carro, tampouco tinham fascinação por corridas de Fórmula 1. Mas a capa — um bólido de corrida isolado sobre fundo branco — condensava bem a ideia de força, velocidade e clareza que o álbum transmitia. Por trás daqu...

Danado de Bom (RCA,1984), Luiz Gonzaga

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Por Sidney Falcão Nos primeiros anos da década de 1980, Luiz Gonzaga parecia condenado a viver apenas da memória. O artista que, nos anos 1940 e 1950, havia monopolizado as prensas da RCA e era capaz de transformar a sanfona em emblema nacional, via-se reduzido a um circuito regional, tocando quase sempre para plateias nordestinas. O mercado fonográfico estava saturado de pop internacional, a MPB urbana dominava o gosto das gravadoras, e até os forrós de raiz cediam espaço a arranjos diluídos e guitarras envernizadas que soavam estranhas ao velho baião. A situação era dramática: há quatro anos Gonzaga dava prejuízo à RCA, e seu nome figurava na lista de artistas prestes a serem dispensados. Foi nesse momento que surgiu a figura de Oséas Lopes, ex-Trio Mossoró, então produtor da gravadora. Lopes acreditava que Gonzaga ainda tinha uma voz poderosa a oferecer, mas que precisava ser resgatada em sua pureza, sem os disfarces de modernização. Assumindo a produção do novo disco, prometeu ...