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Lulu (RCA, 1986), Lulu Santos

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Por Sidney Falcão Em 1986, o rock brasileiro, que já vinha se expandindo desde o início da década, alcançava sua maturidade com os discos Cabeça Dinossauro (Titãs), Selvagem? (Paralamas do Sucesso) e Dois (Legião Urbana) — três sucessos de público e crítica, cujas faixas eram bastante executadas nas rádios, na televisão e no imaginário coletivo de uma juventude que queria se ver refletida na música. No meio dessa constelação, Lulu Santos chegava ao seu quinto álbum de estúdio — simplesmente intitulado Lulu . Um título direto, sem rodeios, como se dissesse: “aqui estou eu, inteiro”. A escolha não era gratuita. Lulu vinha de um tropeço com Normal (1985), um álbum que, apesar de bons momentos, foi um fracasso comercial, marcando sua saída da gravadora WEA. Não demorou muito e o rock star carioca assinou contrato com a RCA, trazendo consigo uma bagagem de dúvidas e, ao mesmo tempo, de certezas. Duvidava do rumo que seu pop sofisticado poderia tomar em um mercado cada vez mais comp...

Presence (Swan Song Records, 1976), Led Zeppelin

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Por Sidney Falcão   No verão europeu de 1975, o destino parecia ter decidido testar os limites do Led Zeppelin. Robert Plant e sua família sofreram um grave acidente de carro em Rodes, na Grécia, no começo de agosto daquele ano, deixando o vocalista com o tornozelo seriamente lesionado e sua esposa Maureen à beira da morte. Para uma banda no auge do poder comercial e criativo, isso significava a suspensão da turnê planejada, e o isolamento forçado impôs uma pressão inédita sobre todos os integrantes. Entre hospitais e casas de recuperação em Jersey e Malibu, Plant escreveu letras de forma compulsiva, como quem transforma dor em matéria-prima sonora. Jimmy Page, por sua vez, assumiu o controle da produção com uma intensidade obsessiva, moldando Presence em apenas dezoito dias de gravação intensiva no Musicland Studios, em Munique, antes que os Rolling Stones ocupassem o estúdio para Black and Blue .   O resultado é um álbum abrupto, concentrado, quase brutal em sua economi...

Curiosity (Atlantic Records, 1986), Regina

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Por Sidney Falcão   Há artistas que chegam ao grande público como um relâmpago — súbitos, intensos, aparentemente surgidos do nada. Outros, no entanto, carregam consigo uma trajetória subterrânea, feita de pequenos palcos, salas abafadas de ensaio e gravações improvisadas, cuja densidade raramente é percebida à primeira audição. Regina, pertence, sem dúvida, a esta segunda categoria. Seu álbum Curiosity , lançado em 1986, não é o ponto de partida de sua história, mas o momento em que uma longa gestação criativa encontra, por fim, uma forma audível — ainda que não plenamente compreendida.   Nascida no Brooklyn, em Nova York, em 1961, Regina Marie Cuttita cresceu sob o signo da mistura. Em sua formação musical, conviviam o romantismo coreografado dos grupos femininos dos anos 1960 e a energia elétrica do rock clássico. The Supremes e The Ronettes dividiam espaço com Elvis Presley, The Beatles e Bruce Springsteen — uma constelação aparentemente dispersa, mas que, no imaginári...

Atrás dos Olhos (Excelente/Abril Music, 1998), Capital Inicial

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Por Sidney Falcão   Em 1998, o Capital Inicial atravessava um momento decisivo de sua trajetória. Depois de anos de mudanças na formação, do afastamento do vocalista Dinho Ouro Preto para a carreira solo e de lançamentos pouco marcantes, a banda sentiu a necessidade de reencontrar suas raízes e reafirmar seu papel no rock brasileiro. O álbum Atrás dos Olhos , sétimo de estúdio da banda brasiliense, surgiu como resposta a essa inquietação: um trabalho que misturava energia juvenil, maturidade composicional e um olhar atento para a modernidade sonora do final dos anos 1990. Gravado em Nashville, sob a produção experiente de David Z — conhecido por trabalhos com Prince (1958-2016), Fine Young Cannibals e lendas do blues como Buddy Guy —, o disco se tornou um marco na carreira do Capital, tanto comercial quanto artisticamente.   A reunião da formação original — Dinho Ouro Preto (vocais), Fê Lemos (bateria e violões), Flávio Lemos (baixo) e Loro Jones (guitarra elétrica) — trou...

Destroyer (Casablanca Records, 1976), Kiss

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Por Sidney Falcão   Há álbuns que não apenas marcam uma banda, mas definem a sua sobrevivência. Em março de 1976, o Kiss lançou Destroyer , quarto trabalho de estúdio e a obra que separou o grupo de ser apenas um fenômeno de palco para se tornar, de fato, um gigante da indústria fonográfica. Não foi um caminho sem tropeços: a crítica o desprezou, parte dos fãs torceu o nariz, e a própria banda entrou em choque com seu produtor. Mas é justamente desse atrito que nasce a força deste disco — um artefato sonoro que funde espetáculo e disciplina, grandiloquência e crueza, ingenuidade e ambição.   Até 1975, o Kiss vivia de sua reputação incendiária ao vivo. Os três primeiros álbuns ( Kiss e Hotter than Hell , ambos de 1974, e Dressed to Kill , de 1975) não venderam como o esperado, e foi só com Alive! — o registro ao vivo que capturou a eletricidade da banda no palco — que o grupo se transformou em sensação nacional. O sucesso foi tamanho que salvou a Casablanca Records, seu ...