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Rising (Polydor, 1976), Rainbow

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Por Sidney Falcão Há discos que parecem existir fora do tempo, como se tivessem sido talhados em pedra, erguidos em alguma montanha mítica para resistir às eras. Rising , do Rainbow, é um desses monumentos. Lançado em maio de 1976, é mais do que um simples segundo álbum de estúdio: é o momento em que Ritchie Blackmore, recém-liberto das amarras criativas do Deep Purple, encontra a síntese perfeita entre sua obsessão por riffs cortantes, mitologia medieval e uma ambição sinfônica que pavimentaria a estrada para o heavy metal dos anos seguintes.   A história começa no colapso do Purple. Em 1975, Blackmore já não tolerava as experimentações soul e funk que dominavam o grupo com a entrada de Glenn Hughes e David Coverdale. Sua saída foi inevitável — mas não silenciosa. Formando o Rainbow com músicos do Elf, banda de Ronnie James Dio, o guitarrista lançou Ritchie Blackmore’s Rainbow ainda em 1975. A estreia tinha lampejos, mas soava como um exercício de transição. Faltava coesão, fal...

Choque (EMI-Odeon, 1985), Kiko Zambianchi

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Por Sidney Falcão   Em meados dos anos 1980, o rock brasileiro parecia ter finalmente conquistado seu passaporte para a modernidade. O Rock in Rio de 1985, marco histórico da juventude urbana, colocou a cena nacional diante das câmeras do mundo e convenceu as gravadoras de que havia mercado para guitarras e sintetizadores cantando rock em português. Mas a vitrine do festival era, sobretudo, carioca. Barão Vermelho, Blitz, Paralamas do Sucesso, Lulu Santos: todos vinham da capital fluminense. O protesto dos próprios Paralamas pela ausência do Ultraje a Rigor na escalação já mostrava que o próximo capítulo do rock nacional precisaria abrir espaço para outras geografias. E é nesse ponto que São Paulo entra em cena — com Titãs, Ira!, Ultraje e, entre eles, um artista improvável, de timbre delicado e rosto de “bom rapaz”: Francisco José Zambianchi, ou simplesmente Kiko Zambianchi.   Oriundo de Ribeirão Preto, no interior paulista, Kiko trazia uma trajetória distinta da dos roqu...

Rocks (Columbia, 1976), Aerosmith

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Por Sidney Falcão   Em 1976, o Aerosmith já não era apenas uma promessa: havia se tornado uma das bandas mais populares dos Estados Unidos com Toys in the Attic (1975), disco que os tirou da condição de cult local para estrelas de arenas. Mas havia ainda uma necessidade urgente — provar que não eram um acidente de percurso, que poderiam manter a intensidade sem se perder no labirinto de drogas, egos e fama. Rocks nasce desse momento de afirmação: um álbum cru, feroz, que captura a essência do hard rock americano com brutalidade e sensualidade em doses equivalentes. Gravado em meio ao caos da turnê anterior, o disco foi registrado no Wherehouse, um estúdio improvisado em Waltham, Massachusetts. A banda queria algo que soasse mais “ao vivo”, menos polido que Toys in the Attic . Jack Douglas, o produtor que já os conhecia bem, entendeu a necessidade: deixou microfones captando vazamentos, não limpou arestas e preservou a energia crua da banda em combustão. Joe Perry e Brad Whitf...

Rastaman Vibration (Island Records / Tuff Gong, 1976), Bob Marley & The Wailers

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Por Sidney Falcão O ano era 1976. A Jamaica queimava em meio a facções políticas rivais, ruas divididas entre o Partido Nacional Popular (PNP) e o Partido Trabalhista Jamaicano (JLP - Jamaica Labour Party), enquanto os ecos de violência, pobreza e esperança se misturavam no calor das noites de Kingston. Nesse cenário de pólvora e fé, Bob Marley & The Wailers lançavam Rastaman Vibration , o disco que transformaria o cantor em embaixador global de um povo e de um gênero, e que também o colocaria na linha de fogo — literal e metaforicamente.   É nesse registro que Bob Marley (1947-1981) encontra seu equilíbrio mais delicado: a ponte entre a mensagem rastafári, carregada de profecia e resistência, e a sedução pop capaz de levar o reggae às paradas da Billboard . O álbum trazia hinos de indignação, apelos de igualdade e canções de dor urbana, mas também soava moderno, com arranjos enriquecidos por sintetizadores e guitarras mais incisivas, prontos para cativar o ouvido ocident...