10 discos essenciais – New Wave of British Heavy Metal (N.W.O.B.H.M.)
Por Sidney Falcão
No apagar das luzes dos anos 1970, quando o rock britânico parecia cansado de si mesmo, estagnado entre supergrupos esgotados e a arrogância progressiva, algo começou a ferver nos cantos esquecidos do Reino Unido. Não era uma nova tendência aprovada pela crítica. Nem um revival com apoio de gravadoras. Era o grito cru de uma juventude com amplificadores no talo, paixão no olhar e um estoque infinito de riffs prontos para explodir as portas dos pubs. Assim nasceu a New Wave of British Heavy Metal — ou, para os íntimos, a NWOBHM.
O nome pode soar como uma sigla burocrática, mas o que ela representa é tudo menos previsível: uma rebelião sonora que sacudiu as fundações do rock britânico, misturando o peso do Sabbath com a fúria do punk, e pavimentando a estrada para tudo o que o metal se tornaria dali em diante.
Essa revolução começou como todas as boas revoluções: nos subterrâneos. No boca a boca, nas fitas cassete copiadas à mão, nos selos independentes, nos programas noturnos da BBC. O Friday Rock Show, apresentado por Tommy Vance, virou missa semanal para os devotos. As coletâneas Metal for Muthas eram evangelho. E, entre um show lotado em pub de esquina e um EP prensado na garagem, o país inteiro parecia descobrir uma nova banda por semana.
Iron Maiden, Saxon, Def Leppard, Motörhead. Os quatro cavaleiros do novo apocalipse britânico. Cada um a seu modo, cada um empunhando uma visão distinta do metal: o Maiden com suas epopeias históricas e duelos de guitarras, o Saxon trazendo o orgulho da classe trabalhadora em rodas de aço, o Leppard mirando o mercado americano com melodias grudentas e produção de arena, e o Motörhead, esse eterno forasteiro, unindo punks e headbangers sob a bandeira do caos acelerado.
Mas a NWOBHM nunca foi só sobre os grandes nomes. Seu coração batia nos porões de bandas como Diamond Head, Angel Witch, Tygers of Pan Tang, Raven e Holocaust, que talvez não tenham lotado estádios, mas deixaram sementes que germinariam no thrash metal de Metallica, Megadeth e Slayer.
A estética era simples: jeans justos, couro gasto, capas desenhadas por amigos artistas, e um som que soava como se a eletricidade fosse um estado emocional. Era música feita com pressa, com tesão, com pouco dinheiro e nenhuma permissão. E talvez por isso mesmo tenha sido tão autêntica. Enquanto o punk queria destruir o passado, a NWOBHM queria reescrevê-lo com mais distorção e menos enrolação.
O festival Monsters of Rock de 1980, em Donington, foi a coroação dessa era. Pela primeira vez, o heavy metal tinha um trono próprio, um público dedicado e uma cena que respirava como um organismo coletivo. Mas como todo bom incêndio, a NWOBHM também teve seu crepúsculo. Por volta de 1983, o movimento começou a se dissolver — não por falta de qualidade, mas porque seus filhos mais talentosos haviam conquistado voos maiores e o mercado já farejava novas direções.
O que ficou? Uma herança incalculável. O DNA do metal moderno está todo ali: a agressividade que antecipou o thrash, a melodia que inspiraria o power, a atitude que moldaria o black. A NWOBHM foi a última grande rebelião espontânea do rock britânico — e talvez, sua mais subestimada.
Abaixo, confira dez álbuns essenciais que ajudam a entender a NWOBHM.
Iron Maiden (EMI, 1980), Iron Maiden. O álbum de estreia homônimo do Iron Maiden, lançado em 1980, se destaca como uma obra seminal na New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM). O disco mostra a energia bruta da banda e a fusão inovadora da agressividade do punk com a complexidade do heavy metal. As principais faixas incluem "Prowler", com seu ritmo galopante e vocais corajosos, e "Phantom of the Opera", uma composição complexa que prenuncia as tendências progressivas da banda. A instrumental "Transylvania" destaca sua proeza musical, enquanto "Running Free" se tornou um hino de rebelião juvenil. Apesar das críticas à produção, o som não refinado do álbum captura a essência da época, impulsionando o Iron Maiden para os holofotes do heavy metal e preparando o terreno para sua ilustre carreira.
British Steel (CBS, 1980), Judas Priest. Forjado na bigorna incandescente do metal britânico, British Steel foi o grito de guerra que elevou o Judas Priest de titãs underground a semideuses do heavy metal. Em 1980, enquanto o mundo lamentava a morte de John Bonham (Led Zeppelin) e Bon Scott (AC/DC), Rob Halford e sua trupe cravavam na história hinos como “Breaking the Law” e “Living After Midnight” — curtos, certeiros, acessíveis, mas com a lâmina afiada. A entrada do baterista Dave Holland (1948-2018) deu solidez às bases, enquanto os riffs gêmeos de Tipton e Downing cortavam o ar feito navalha. Gravado numa mansão de Ringo Starr, com talheres, garrafas e tacos de sinuca virando instrumentos, o disco virou um marco. Era o metal abraçando o rádio sem perder a espinha de aço. British Steel é mais que um álbum: é o som da rebelião industrializada, do couro preto marchando em uníssono, braços erguidos, punhos cerrados. Metal gods, indeed!
Wheels of Steel (Carrere Records, 1980), Saxon. Segundo álbum de estúdio do Saxon, Wheels of Steel é o disco que colocou a banda inglesa no mapa do heavy metal e acendeu de vez o rastilho da New Wave of British Heavy Metal. Com riffs que cortam como lâmina e o vozeirão inconfundível de Biff Byford, o álbum atinge seu clímax em faixas como “747 (Strangers in the Night)” — inspirada num blecaute real nos céus de Nova York — e na faixa-título, um hino motorizado que rodou até em GTA. Há ecos de Ted Nugent, Sabbath e até de estrada molhada no vinil, mas o que predomina aqui é urgência. Não é exagero dizer que Wheels of Steel é pedra angular do metal britânico: direto, ruidoso, carismático. O jornalista Martin Popoff o cravou como “disco em missão”; missão cumprida. Se há um manifesto do trabalhador headbanger, ele começa com esse ronco de motor.
On Through the Night (Vertigo Records, 1980), Def Leppard. Antes da MTV, das baladas açucaradas e do laquê, o Def Leppard era outra fera. On Through the Night é a prova viva: NWOBHM puro, sem maquiagem. Um disco juvenil, direto, urgente — daqueles que cheiram a porão de ensaio e cerveja barata. Começa com a explosiva “Rock Brigade” e termina em grande estilo com “Overture”, quase uma ópera de riffs e desespero. No meio, há faixas velozes como “Wasted” e “Rocks Off”, que flertam com o speed metal e mostram que esses garotos sabiam exatamente o que queriam: barulho, melodia e paixão. A produção é limpa, mas sem frescura; cada instrumento brilha, e a voz clara de Joe Elliott guia tudo com garra. Esquecido por muitos — até pela própria banda — On Through the Night é o diamante sujo de Sheffield. O nascimento de uma lenda, ainda sem pose.
Ace of Spades (Bronze Records, 1980), Motörhead. Ace of Spades é o Motörhead cuspindo gasolina e tocando o terror numa velocidade que desafia limites. Lançado em 1980, é mais que um disco — é um ataque frontal, com riffs como motosserras e Lemmy cuspindo versos como se a vida fosse uma aposta perdida. A faixa-título virou hino, mas o disco inteiro sangra honestidade: de “Love Me Like a Reptile” a “(We Are) The Road Crew”, onde Lemmy homenageia os guerreiros anônimos da estrada. Com Vic Maile na produção, o som ficou mais preciso, mas sem perder a sujeira gloriosa que define o trio. “The Hammer” fecha o disco como um soco na mandíbula. Punk, metal, rock — chame do que quiser. Ace of Spades é a trilha sonora da rebeldia sem freio. Um clássico absoluto, sujo, barulhento e orgulhosamente incorreto. A essência do Motörhead em estado puro e letal.
Lightning to the Nations (Happy Face, 1980), Diamond Head. Quando o Diamond Head percebeu que os grandes selos estavam mais indecisos que fã de prog em loja de punk, resolveu meter as caras e lançar o próprio disco. Sem grana, mas com gana, gravaram Lightning to the Nations em sete dias, num estúdio tão morto quanto o interesse das gravadoras. A capa? Papelão cru, sem nome, sem faixa. A ideia era simples: gravar barato, vender em show, causar barulho. E causaram. Com riffs galopantes, guitarras em harmonia e ataque cru, o disco virou manual de instrução para o thrash metal americano. O Metallica engoliu aquilo com farinha e devolveu na forma de versões. "Am I Evil?", "The Prince", "Helpless"... tudo foi parar no Garage Inc.. Hoje, o disco é relíquia, culto, bíblia para quem acredita que o metal nasceu mesmo foi no porão da teimosia inglesa.
Angel Witch (Bronze Records, 1980), Angel Witch. Lançado em 1980, no epicentro da explosão NWOBHM, o debut Angel Witch é aquele disco que parece vir com manual incluso: riffs como lâminas, refrãos que grudam na mente como chiclete velho de fliperama e um vocal que mistura Ian Gillan com demônio de pub londrino. Kevin Heybourne comanda a coisa toda com a guitarra à frente, como um general possuído pelo espírito do hard rock setentista, mas sem firulas nem viagem progressiva. Aqui, não tem "Phantom of the Opera", nem "Living After Midnight" — só heavy metal puro, direto, melódico e marcante. A faixa-título é um hino. "White Witch" galopa como cavalo do apocalipse. "Angel of Death" antecipa o peso do que viria com o thrash. E tudo isso com o pé fincado nos anos 1970, mas o olhar já na fornalha dos 1980. Simples, certeiro e essencial.
Wild Cat (MCA Records, 1980), Tygers of Pan Tang. Wild Cat é NWOBHM suado, bêbado, rasgado. Não é um álbum: é uma porrada numa porta de ferro num sábado à noite. Quatro moleques jogando tudo que sabem na parede e vendo o que gruda. Jess Cox canta como se tivesse saído direto de uma briga de bar — errando nota com estilo, entre Di’Anno e Phil Mogg. O baixo certeiro de Rocky e os riffs venenosos de Rob Weir empurram tudo pra frente, tirando a banda do clichê e jogando no campo da invenção. “Slave to Freedom” é boogie hard com pose de Priest. “Suzie Smiled” é couro e coturno. E “Insanity”? Um hino sombrio, doente, sensacional — tipo cair de costas num abismo e amar a queda. Riff-refrão em gancho chicote, climas esquisitos, peso bem dosado. É metal de garagem mirando o épico. E acerta. Que disco!
Rock Until You Drop (Neat Records, 1981), Raven. Não seria um exagero afirmar que Rock Until You Drop é uma granada de três pinos explodindo direto na cara do ouvinte. Estreia da banda e da Neat Records, é como se o trio tivesse domado a tempestade NWOBHM na base da gritaria e da marreta, triturando quem estivesse no caminho — Saxon, Samson, Saracen... até o Loudness sai de fininho. John Gallagher berra como se tomasse choque na garganta, enquanto Mark soca riffs que desafiam as leis da física sonora. “Over the Top” e “For the Future” são hinos de guerra. “Hard Ride” é o cartão de visitas radiofônico, e “Hell Patrol” parece coisa do capeta metido a atleta. Nada de ocultismo cabeçudo — aqui é tudo sobre energia e diversão suada. Raven talvez nunca tenha lotado jukebox de boteco, mas mandava ver com um fervor que deixaria muito medalhão sem fôlego. Punk, metal e adrenalina num só soco britânico.
Welcome to Hell (Neat Records, 1981), Venom. O disco começa como um soco na cara e termina como uma oferenda sacrílega. Welcome to Hell, estreia do trio inglês Venom, é uma missa negra embalada por riffs tortos, microfonia descontrolada e uma bateria que mais parece um bombardeio de trincheira. Gravado às pressas num estúdio barato em Wallsend, o álbum cheira a enxofre, cerveja morna e fita cassete embolorada. Cronos, Abaddon e Mantas não queriam agradar: queriam destruir. E conseguiram. De “In League with Satan” a “Witching Hour”, o disco funde punk, metal e delírio satânico numa estética que redefiniu os limites do barulho. O resultado? Um marco grotesco que gerou filhos bastardos como o thrash, o death e o black metal. Mal gravado, mal tocado e maldito. Mas essencial. Porque o inferno, aqui, não é metáfora: é endereço sonoro. E o convite está feito.
Referências:
metal-archives.com
defleppard.com
loudersound.com
masterclass.com
wikipedia.org










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