Roberto Carlos (CBS,1969), Roberto Carlos
No fim dos anos 1960, enquanto o Brasil girava em torno de incertezas políticas, censura e efervescência cultural, Roberto Carlos encostava o carro na beira da praia — não para tomar sol, mas para encontrar o silêncio. Com os olhos postos no horizonte e um cachimbo entre os dedos, ele se preparava para dar um passo que mudaria para sempre sua música, sua imagem e sua voz interior. O álbum Roberto Carlos, lançado em dezembro de 1969, não é só o nono disco de estúdio de sua carreira. É o seu primeiro mergulho real na maturidade artística, uma travessia do espelhado mundo iê-iê-iê da Jovem Guarda para um oceano mais introspectivo, sofisticado e dolorosamente humano.
Conhecido como "o disco da praia" por causa da imagem de Roberto Carlos na capa, sentado na areia, o álbum mostra o cantor buscando um ponto de equilíbrio entre o pop romântico que o consagrou e a sofisticação harmônica e lírica da MPB. Ele chega lá por meio de uma ponte construída com arranjos orquestrais, flertes com o soul e até mesmo brincadeiras com a valsa e o samba-rock. Aqui, Roberto Carlos se permite ser contraditório: ora é o homem apaixonado que implora por um coração, ora é o amante ferido que cospe raiva em versos curtos e definitivos.
O álbum foi gravado entre julho e outubro de 1969, nos estúdios da CBS, sob a produção de Evandro Ribeiro, e contou com um sistema de três canais que permitia experimentações ainda tímidas, mas importantes. O resultado é uma obra coesa e elegante, ainda que múltipla — não um grito, mas uma conversa, dessas que começam com um sussurro na beira do mar. Neste disco, temos também a primeira gravação de uma composição de Tim Maia (1942-1998) por Roberto, a presença constante de Erasmo Carlos (1941-2022) como coautor e a estreia de Roberto em uma faixa instrumental. Seria um álbum de transição? Sim. Mas também de afirmação. Trata-se do trabalho de um homem que já não precisa mais gritar para ser ouvido.
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| Roberto Carlos em uma das fotos da sessão fotográfica para a capa do disco. |
"Nada Vai Me Convencer" rompe o lirismo das faixas anteriores com uma batida soul marcada por guitarra repetitiva e órgão Farfisa. A letra, agressiva, anuncia uma ruptura definitiva: "já cansei de ser escravo de você". Trata-se de uma das incursões mais ousadas do disco, com um Roberto mais ríspido e direto, em contraste com sua imagem habitual.
Em "Do Outro Lado da Cidade", a leveza volta à tona. A melodia simpática e o ritmo que emula o samba-rock à la Jorge Ben formam o pano de fundo para a narrativa de um reencontro que nunca acontece. A canção é uma crônica urbana melancólica, onde o assovio e os riffs de guitarra emprestam à faixa um sabor cinematográfico.
"Quero Ter Você Perto de Mim" traz um início a cappella surpreendente, com Roberto exibindo afinação impecável. A faixa remete às músicas dançantes para se ouvir colado, e a simplicidade da letra só reforça seu apelo emocional. Em seguida, "O Diamante Cor-de-Rosa" aparece como a única instrumental da carreira de Roberto até aquele momento. Composição feita para o filme homônimo estrelado por ele, Wanderléa e Erasmo, a faixa mostra o cantor tocando gaita em meio a uma delicada construção orquestral. Uma pequena joia lúdica.
"Não Vou Ficar" é uma explosão funk-soul composta
por Tim Maia, que havia retornado dos EUA poucos anos antes. Tim dirigiu a
gravação na base da imitação vocal dos instrumentos, já que não sabia escrever
partituras. O resultado é uma das faixas mais pulsantes do disco, com metais poderosos,
baixo marcante e um Roberto completamente confortável nesse novo território
sonoro. A versão original de Tim, lançada apenas em 1971, não tem o mesmo
frescor da gravação de Roberto.
"Sua Estupidez" é uma canção que, apesar da melodia suave, carrega uma carga emocional explosiva. O narrador acusa a parceira de ter se deixado levar por fofocas e a ameaça com a solidão. É uma das canções mais duras da discografia de Roberto e, por isso mesmo, uma das mais marcantes. Nem a interpretação delicada de Gal Costa, dois anos depois, conseguiria suavizar sua contundência.
A valsa "Oh! Meu Imenso Amor" é um respiro leve e bem-humorado. Roberto canta com voz caricata, em homenagem aos cantores das décadas de 1920 e 1930. A letra, contudo, fala de abandono, em uma combinação curiosa entre forma e conteúdo. A ironia não apaga o sentimento de perda — apenas o reconfigura.
"Não Adianta" e "Nada Tenho a Perder" encerram o disco trazendo de volta resquícios da Jovem Guarda, mas com outra abordagem. A primeira é um rock melódico sobre um relacionamento fadado ao fracasso, mas que persiste por teimosia. A segunda é uma balada resignada, em que o narrador reconhece que, mesmo amando, precisa partir. A instrumentação suave e o tom melancólico dão o tom de fechamento perfeito ao álbum.
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| Detalhe da contracapa do disco Roberto Carlos, de 1969. |
Do ponto de vista artístico, o álbum marcou o início de uma nova fase estética e lírica que se consolidaria nos anos 1970, quando o cantor se tornaria definitivamente o “Rei” da música brasileira. É nesse disco que Roberto Carlos prova que pode dialogar com Tim Maia, com a MPB orquestrada, com o soul e com o samba-rock — sem deixar de ser ele mesmo. O disco inaugura o período mais sofisticado e introspectivo de sua discografia, que culminaria em obras-primas como "Detalhes" e "Proposta".
Não há pose e não há sorriso na imagem em que Roberto está
sozinho na areia na capa do disco, vestido como quem acabou de sair de um
jantar. É o retrato de um homem que olha para dentro, talvez pela primeira vez.
O álbum Roberto Carlos de 1969 é um trabalho de travessia, onde o
pop encontra o soul, a dor encontra a orquestra e o romantismo encontra o
desencanto. Um disco que não grita — mas que permanece ecoando por décadas nas
curvas da nossa própria estrada.
Faixas
Lado 1
- “As Flores do Jardim de Nossa Casa” (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
- “Aceito Seu Coração” (Puruca)
- “Nada Vai Me Convencer” (Paulo César Barros)
- “Do Outro Lado Da Cidade” (Helena Dos Santos
- “Quero Ter Você Perto De Mim” (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos)
- “O Diamante Cor-De-Rosa” (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos)
Lado 2
- “Não Vou Ficar” (Tim Maia)
- “As Curvas Da Estrada Do Santos” (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos)
- "Sua Estupidez” (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos)
- “Oh! Meu Imenso Amor” (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos)
- “Não Adianta” (Edson Ribeiro)
- “Nada Tenho A Perder” (Getúlio Cortes)
Referências:
consultoriadorock.com
medium.com
wikipedia.org




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