“Disraeli Gears” (Reaction Records, 1967), Cream
Por Sidney Falcão
O ano de
1967 foi bastante corrido em termos de lançamentos de álbuns de rock psicodélico.
A maioria dos álbuns que se tornaram clássicos do gênero foram lançados naquele
ano: Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (Beatles), The
Piper At The Gates Of Dawn (Pink Floyd), Surrealistic Pillow
(Jefferson Airplane), Are You Experienced (The Jimi Hendrix
Experience) e Forever Changes (Love) são alguns exemplos. E foi
nesse contexto que Disraeli Gears, segundo álbum de estúdio do
Cream, foi lançado em maio de 1967. O álbum traz o power trio britânico numa
experiência que funde blues e psicodelia, somada ao peso e distorção da
guitarra elétrica.
Mas essa
experiência do Cream com a psicodelia era algo novo para a banda. O trio
formado pelo vocalista e baixista Jack Bruce (1943-2014), pelo guitarrista e
vocalista Eric Clapton e pelo baterista Ginger Baker (1939-2019) surgiu em
1966, em Londres, Reino Unido, como uma banda que buscava resgatar velhos
clássicos do blues dentro de uma leitura mais contemporânea e com um aceno pop.
Antes de
montarem o Cream, os três músicos tiveram passagens em bandas de prestígio no
Reino Unido. Clapton havia tocado nos Yardbirds e na banda John Mayall’s
Bluesbreakers, enquanto que Bruce e Baker tocaram juntos (e trocaram ofensas
também) na Graham Bond Organization. Enquanto Clapton trazia para a nova banda
a veia blues herdada do John Mayall’s Bluesbreakers, Bruce e Baker traziam na
bagagem as referências de jazz e rhythm and blues do Graham Bond Organization.
Por causa do
currículo que tinham, Clapton sugeriu um nome para a nova banda, The Cream (“A
Nata”) por julgar que aquele trio de músicos eram o máximo no que faziam. Não
demorou muito, e a nome da banda foi resumido a apenas Cream. E por ser formado
por músicos oriundos de bandas famosas à época no cenário musical britânico, o
Cream é considerado o primeiro supergrupo da história do rock.
Em pouco
tempo, o Cream já era a grande sensação nos palcos britânicos, se apresentando
sempre para plateias lotadas. No palco, o Cream fazia apresentações
impactantes, tocando um som pesado para a época e que era uma mistura bem
azeitada de blues, rock, jazz e algumas pitadas de pop. As apresentações do Cream
ficaram marcadas pelas longas improvisações que poderiam durar quase trinta
minutos, deixando o público totalmente hipnotizado.
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Cream em 1966, da esquerda para a direita: Ginger Baker, Eric Clapton e Jack Bruce. |
O primeiro álbum do Cream, Fresh Cream, foi lançado em dezembro de 1966. Além de gravar suas próprias canções, o Cream fez releituras de clássicos do blues como “Spoonful” ( de Willie Dixon) e “Four Until Late” (de Robert Johnson). “I'm So Glad”, um blues de Skip James (1902-1969) originalmente gravado por ele em 1931, ganhou uma versão bastante pessoal do Cream que acabou virando um dos maiores sucessos da banda.
Se no Reino
Unido o Cream já havia conquistado alguma visibilidade, nos Estados Unidos, a
banda ainda era desconhecida. Em março de 1967, o Cream fez a sua primeira
apresentação em solo americano, no RKO Theatre, em Nova York, mas não causou
nenhuma repercussão. Mas a passagem por lá serviu para a banda agendar datas
para gravar o seu segundo álbum nos estúdios da Atlantic Records, em Nova York.
As gravações ocorreram entre 11 e 15 de maio de 1967, e contou com Felix
Pappalardi (1939-1983) como produtor.
Para a
criação da capa do álbum, o trio convidou o australiano Martin Sharp (1942-2013),
artista plástico e designer gráfico que era também amigo dos integrantes do
Cream. Sharp buscou traduzir visualmente a sonoridade do álbum, baseada numa
fusão de blues e psicodelia. Para compor a arte, Sharp fez colagens de fotos,
recortes de revistas, fez desenhos, aplicou tintas de cores berrantes e e
traçou contornos escuros bem definidos nas figuras, cujo resultado foi uma arte
visual vibrante.
Intitulado Disraeli
Gears, o novo álbum do Cream foi lançado em 2 de novembro de 1967. O
título tem uma história curiosa. Foi baseado numa brincadeira com um roadie da
banda que havia pronunciado errado um termo em francês referente a uma parte da
bicicleta. Ao invés de dizer “derailleur gears” (“derailleur” é “desviador” em
francês, e “gears” é, engrenagens em inglês), e pronunciou “disraeli gears”. A
pronuncia errada do roadie foi motivo de piada na banda que decidiu usá-la como
título do novo álbum.
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O artista plástico e designer gráfico Martin Sharp, criador da capa do álbum Disraeli Gears. |
Em Disraeli
Gears, o Cream mesclou o blues-rock e as referências jazzísticas do
primeiro álbum com elementos sonoros de psicodelia trazidos para este segundo
trabalho, como pode ser conferido em faixas como “Tales Of Brave Ulysses”,
“SWLABR”, “World Of Pain” e “Dance The Night Away”. Mas a essência blueseira da
banda se mostra preservada nas faixas “Outside Woman Blues” e “Take It Back”. Diferente
do álbum anterior e dos álbuns posteriores, não há em Disraeli Gears faixas
longas e cheias de improvisos arrastados. Disraeli Gears contém
faixas curtas e com apelo radiofônico.
Se no álbum
de estreia Jack Bruce canta em oito das dez faixas, em Disraeli Gears
a divisão é um pouco mais democrática: das onze faixas, Bruce canta sozinho em quatro,
divide os vocais com Eric Clapton em três; Clapton canta sozinho em duas,
Ginger Baker canta em uma, e Bruce, Clapton e Ginger Baker cantam juntos em
apenas uma.
Disraeli
Gears começa com
“Strange Brew” que traz Eric Clapton nos vocais principais e executando seus
solos de guitarra inconfundíveis. A princípio, a música se chamava “Lawdy Mama”,
que após algumas alterações na letra e na linha melódica feitas pelo produtor
Felix Pappalardi e por sua esposa Gail Collins, a música foi rebatizada para
“Strange Brew”.
“Sunshine Of
Your Love” é um dos maiores sucesso da carreira do Cream, e é uma parceria de
Jack Bruce, Eric Clapton e o poeta inglês Pete Brown. O fantástico riff
de baixo que abre a música foi criado por Bruce após assistir a um show de Jimi
Hendrix, em Londres. A letra fala da declaração de amor de um homem a uma
mulher por quem esperou a vida toda. A faixa seguinte, “World of Pain”, foi
composta pelo produtor Felix Pappalardi e sua esposa Gail Collins, e versa
sobre alguém que tem uma visão pessimista do mundo. A canção é um rock balada melódico,
cheio de guitarra com efeitos wah-wah, e que traz Jack Bruce e Eric Clapton
dividindo os vocais.
“Dance The
Night Away” abre com guitarras melódicas bem ao estilo folk-rock. Clapton e
Bruce capricham nas harmonizações vocais, enquanto que Baker soca a sua bateria
sem pena. Fechando o lado A do álbum, “Blue Condition” surpreende ao trazer
Ginger Baker cantando. Baker, que é também autor da música, canta de forma
lenta, “arrastada”, como se estivesse quase embriagado. Destaque fica também
para Jack Bruce tocando um piano bem ao estilo de piano de pub inglês.
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O guitarrista Eric Clapton e o produtor Felix Pappalardi no estúdio, em abril de 1967, durante uma das sessões de gravação do álbum Disraeli Gears. |
O lado 2 do disco começa com “Tales Of Brave Ulysses”, cuja letra foi inspirada na “Odisseia”, poema épico do poeta grego Homero (928 a.C./898 a.C). Clapton compôs a música em parceria com Martin Sharp, o artista plástico que fez a capa do disco Disraeli Gears. Para elaborar a linha melódica desta música, Eric Clapton teve como referência a canção “Summer In The City”, canção da banda Lovin’ Spoonful, de 1966. E foi a base melódica da canção que ele musicou a letra de Sharp. Na reta, final Clapton faz incríveis solos de guitarras carregados de efeitos wah-wah.
“SWLABR” tem
um título estranhíssimo, é um acrônimo de “She Walks Like
a Bearded Rainbow” (algo como “Ela anda como um arco-íris barbudo”).
Com um riff de guitarra fantástico na introdução e uma linha de baixo pulsante
e uma bateria pesada, “SWLABR” trata através dos seus versos, escritos por Pete
Brown, sobre uma relação amorosa confusa e mal sucedida.
"We're
Going Wrong" é uma canção lenta, possui um ritmo de bateria tenso,
percussivo, e rápido, contrastando com o baixo e uma guitarra que seguem num
sentido oposto. Originalmente gravada por Blind Joe Reynolds (1900 ou 1904 –
1968), em 1929, como um blues tradicional, “Outside Woman Blues” foi resgatada
pelo Cream quase quarenta anos depois, e ganhou uma orientação mais voltada
para o blues-rock, com direito a um baixo robusto, uma bateria pesada, e
guitarras alterando riffs e solos.
O blues rock
“Take It Back” é uma das melhores faixas do álbum. Mostra que além de cantar
bem e ser um baixista talentosíssimo, Jack Bruce tinha habilidade em tocar
gaita. É uma canção antiguerra, e fala de um jovem que se recusa a ir para a
Guerra do Vietnã após receber uma carta de convocação.
A
tragicômica “Mother's Lament” encerra Disraeli Gears, com Jack
Bruce, Eric Clapton e Ginger Baker cantando juntos como se estivessem
completamente bêbados num bar, tendo o próprio Bruce ao piano. Os versos desta
canção contam uma história maluca de uma mãe muito pobre que dá banho no seu
bebê que era bem magrinho. Enquanto a mãe foi pegar o sabonete, a criança cai
no ralo do banheiro. Quando retorna, a mãe não encontra o bebê, e ela chora
desesperadamente perguntando onde estaria o seu filho. Os anjos respondem que o
bebê desceu pelo ralo, e que de tão magrinho, ela deveria ter dado banho nele
num jarro. Eles a “tranquilizam” dizendo para ela que a seu bebê agora não
precisaria mais tomar banho porque ele está perfeitamente feliz brincando com
os anjos, que não está perdido, apenas partiu antes da hora.
Disraeli
Gears abriu as
portas do mercado americano para o Cream, embora a banda já tivesse feito
algumas apresentações em Nova York, em maio de 1967, seis meses antes do
lançamento do disco. Nos Estados Unidos, Disraeli Gears vendeu
mais de 1 milhão de cópias. O álbum alcançou o 1° lugar na parada da Suécia,
Finlândia e Austrália, 4° lugar na parada Billboard 200, nos Estados
Unidos, e 5° lugar na parada de álbuns do Reino Unido. O single de “Sunshine Of
Your Love” chegou ao 5° lugar na Billboard Hot 100 e 6° lugar na Cash
Box, nos Estados Unidos, onde alcançou a marca de 1 milhão de cópias
vendidas.
Depois de Disraeli Gears, o trio lançou no ano seguinte o álbum duplo Wheels of Fire, um disco gravado estúdio e outro gravado ao vivo. Apesar do sucesso alcançado, o clima dentro do Cream estava tenso. O conflito de egos dentro da banda, especialmente as brigas entre Jack Bruce e Ginger Baker, foram desestabilizando banda e tornando a convivência insustentável. Não foi à toa que a banda iniciou em outubro de 1968, nos Estados Unidos, uma turnê de despedida que se encerrou no final de novembro daquele ano no Reino Unido, fazendo o último show em Londres. Após concluir a turnê, a banda anunciou o fim das atividades. Em fevereiro de 1969, foi lançado Goodbye, álbum de despedida do Cream gravado em outubro de 1968.
Faixas
Lado 2
1."Strange Brew" (Eric Clapton- Felix Pappalardi - Gail
Collins)
2."Sunshine of Your Love" (Jack Bruce – Clapton - Pete
Brown)
3."World of Pain" (Pappalardi – Collins)
4."Dance the Night Away" (Bruce – Brown)
5."Blue Condition" (Ginger Baker)
Lado 2
6."Tales of Brave Ulysses" (Clapton - Martin Sharp)
7."SWLABR" (Bruce – Brown)
8."We're Going Wrong" (Bruce)
9."Outside Woman Blues" (Arthur Reynolds; arranjos:
Clapton)
10."Take It Back" (Bruce – Brown)
11"Mother's Lament" (domínio
público; arranjos: Bruce – Clapton - Baker)
Cream: Jack Bruce (baixo, piano, vocais e gaita), Eric Clapton (guitarra solo, guitarra rítmica, violão de 12 cordas e vocais) e Ginger Baker (bateria, percussão e vocais).
Referências:
Revista Bizz – dezembro/1994 – Edição 113,
Editora Azul, São Paulo, Brasil.
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