“Saúde” (Som Livre, 1981), Rita Lee
Por Sidney Falcão
A passagem
dos anos 1970 para os anos 1980 não poderia ter sido melhor para Rita Lee. Ela
foi alçada a estrela pop da música brasileira por conta do sucesso fenomenal
dos seus autointitulados álbuns de 1979 e de 1980, popularmente conhecidos
respectivamente como Mania de Você e Lança Perfume. Rita
emplacava anualmente uma fileira de hits nas paradas de rádio, vendia
discos aos milhares, lotava estádios e arenas, e ainda tinha suas canções
embalando as trilhas de novelas da TV Globo.
O público
queria mais e mais Rita Lee. Mal havia concluído a turnê do álbum Rita
Lee (Lança Perfume), a cantora paulista, acompanhada do seu marido e
parceiro musical, Roberto de Carvalho, já estava entrando em estúdio por volta
de setembro de 1981 para gravar um novo álbum, intitulado Saúde.
O prestígio
de Rita Lee estava tão em alta dentro da Som Livre que a gravadora decidiu
construir um moderno estúdio de gravação de 24 canais (um luxo para a época) em
São Paulo, especialmente para cantora gravar Saúde. Tudo isso
apenas para Rita, que morava em São Paulo, não precisar se deslocar para o Rio
de Janeiro, sede da Som Livre e onde se localizava os estúdios da companhia.
Agora, por causa de Rita, a gravadora tinha uma filial na capital paulista. E
convenhamos, Rita Lee era a grande estrela da Som Livre, e dava retorno
financeiro à gravadora com as ótimas vendagem de seus discos. Rita e Roberto
produziram o novo disco e contaram com o produtor Max Pierre na direção de
produção. A mixagem do material gravado ocorreu em Nova York.
E foi
durante as gravações do álbum Saúde que Rita Lee teve uma grata
surpresa: descobriu que estava grávida do terceiro filho. No entanto, seu
estado de gravidez não impedia que ela se dedicasse às gravações do novo disco.
Por outro, agora na condição de gestante, era necessário Rita cuidar da saúde
com muita atenção. E esse talvez teria sido o motivo para ela compor a canção
“Saúde”, e batizar o álbum com esse título.
Nono álbum
solo de estúdio de Rita Lee, Saúde dá prosseguimento à parceria
vitoriosa da cantora com o seu marido Roberto de Carvalho, bem como à
orientação musical inclinada para o pop, iniciada com o álbum Rita Lee
(1979). No álbum Saúde, nota-se uma influência da new wave, muito
por conta do uso de sintetizadores e o emprego da bateria eletrônica, recurso
que foi bastante pela criticado pela imprensa musical da época, que acusou Rita
de tirar o emprego de bateristas humanos. Mal sabiam os críticos musicais
naquele momento que esse instrumento seria utilizado pelos mais diversos
artistas da música brasileira ao longo dos anos 1980, de artistas da MPB como
Gonzaguinha até os bandas de rock como Titãs. Rita Lee deu apenas o “ponta pé”
inicial. Ou seria o toque inicial?
O álbum abre
com a faixa-título, uma música pop agradável, comercial, dançante, que começa
com uma longa introdução instrumental cheia de teclados e é acompanhado em
seguida por um riff de guitarra bem destacado. Na letra, Rita está pouco
preocupada com a opinião alheia sobre o que ela deve ou não fazer na vida dela.
Para ela, o que interessa é ter mais saúde, e que enquanto estiver “viva e
cheia de graça, talvez ainda faça um monte de gente feliz!”. “Tatibitati” é
uma canção pop “bobinha”, como a própria Rita se referiu. Com um certo teor autobiográfico,
a canção é sobre uma garota que descobre o amor e o sexo.
“Mutante” é
uma linda balada romântica que pode ter várias interpretações. Pode se referir
a alguém que após um fim de um relacionamento (namoro ou casamento) cheio de
decepções, decide dar a volta por cima e mostrar o seu valor. Mas ao mesmo
tempo, a letra parece ser um recado aos ex-colegas de Mutantes pela forma como
ela deixou a banda (praticamente expulsa) por discordar do rumo que estavam
tomando, e as conquistas que ela alcançou na carreira solo. Como disse Rita na
sua autobiografia ao comentar sobre “Mutante”: “Depois de tanto tempo, eis
que me reconheci como a verdadeira mutante, aquela coisa minha de não ser fixa
no rock de uma nota só, de sair do conforto ilusório para viver na fragilidade
da dúvida”.
“Tititi
(Galinhagem)” tem uma levada “stoneana” que remete à Rita Lee da fase
Tutti-Frutti. A letra parece um recado àquele tipo de fã inconveniente e chato.
![]() |
Rita Lee e Roberto de Carvalho em 1981. |
O lado B do
álbum começa com “Banho de Espuma”, inspirada na própria relação conjugal de
Rita e Roberto, num prazeroso e erótico banho de espuma que o casal costumava
tomar. Antes de ser gravada, a música tinha como título original “Afrodite”,
mas foi vetada pelos censores da ditadura militar por causa das expressões
“bolinando” e “em qualquer posição”. Rita mudou o título da música e trocou o
“bolinando” por “esfregando”, e “em qualquer posição” por “com toda
disposição”. Após as mudanças, a música foi liberada para gravação.
Em seguida
vem a ótima “Atlântida”, considerada a faixa preferida de Rita Lee no álbum.
Com uma batida pop dançante e uma base instrumental muito bem construída,
“Atlântida” traz na sua letra a antiga lenda grega do reino que foi engolido
pelo oceano.
As duas
últimas faixas são o ponto fraco do álbum Saúde. “Favorita” é a
única faixa cantada por Roberto de Carvalho, e a mais fraca do disco. Completamente
dispensável, não faria falta se tivesse ficado de fora do disco. “Mother
Nature” é uma versão em inglês de “Mamãe Natureza”, originalmente gravada em
português por Rita Lee com o Tutti-Frutti para o disco Atrás do Porto Tem
Uma Cidade (1974). A sensação que se tem é que essa versão foi um
“tapa-buraco”, apenas para completar o disco, assim como a faixa anterior.
Saúde teve um bom desempenho comercial.
“Banho de Espuma”, “Atlântida”, “Mutante”, “Tatibitati” e a faixa-título
tocaram bastante nas programações de rádio, contribuindo para que o álbum
alcançasse a marca de 400 mil cópias vendidas.
Duas músicas
de Saúde tiveram algumas regravações de outros artistas ao longo
dos anos. “Tititi (Galinhagem)” foi regravada em 1985 pela banda Metrô para o
tema de abertura da novela Ti Ti Ti, da TV Globo. Em 2000, quando a
Globo fez uma nova versão da novela Ti Ti Ti, Rita Lee regravou “Ti Ti
Ti” para a abertura.
A outra
música que teve outras regravações foi “Mutante”. Em 1994, a cantora Patrícia
Marx regravou “Mutante”. Oito anos depois, em 2002, Daniela Mercury fez uma
nova versão de “Mutante”, e que virou tema de abertura da novela Desejos de
Mulher, da TV Globo. Preta Gil gravou “Mutante” para incluir na trilha
sonora da novela Caminhos do Coração, da TV Record.
Faixas
Todas as músicas são de autoria de Rita Lee e Roberto de Carvalho, com exceção de "Mother Nature", composta por Rita Lee.
Lado 1
1."Saúde"
"2.Tatibitati"
3."Mutante"
4."Tititi (Galinhagem)"
Lado 2
5."Banho de Espuma"
6."Atlântida"
7."Favorita"
8."Mother Nature (Mamãe Natureza)"
Ficha
Técnica
Ariovaldo:
percussão
Gel: bateria
Alfredo
Lynn: bateria
Picolé:
bateria
Lee
Marcucci: baixo
Jamil
Joanes: baixo
Lincoln
Olivetti: teclados
Wander
Taffo: guitarra
Robson
Jorge: guitarra
Leo
Gandelman: saxofone
Zé Carlos:
saxofone
Oberdan:
saxofone
Serginho do
Trombone: trombone
Márcio
Montarroyos: trompete
Bidinho:
trompete
Lúcia
Turnbull: vocal em 4, 5 e 8 e arranjo de metais em 5.
Referências:
Rita Lee:
uma autobiografia – Rita Lee, 2016, Globo Livros, São Paulo, Brasil.
wikipedia.org
Ouvi muito no meu gravador,uma fita-cassete-pirata,rs.
ResponderExcluir''Atlântida'' foi regravada,com sucesso,pela Ná Ozzetti.
ResponderExcluir