“Gol de Quem?” (Plug/BMG-Ariola, 1995), Pato Fu
Por Sidney Falcão
A década de
1990 viu surgir uma nova geração de bandas do pop rock mineiro que iria ganhar
visibilidade no cenário musical brasileiro. Bandas como Skank, Jota Quest, Virna
Lisi, Tianastácia entre outras, partiam de Minas Gerais para se tornarem presenças
frequentes nos programas de TV, nas paradas de sucesso de rádio e em ginásios e
arenas de todo o Brasil. E daquela geração de bandas mineiras que começava a
ganhar projeção nacional estava Pato Fu, que em pouco tempo, se tornariam uma
das mais destacadas daquela geração.
A banda
surgiu como um trio em 1992, na cidade de Belo Horizonte, em Minas Gerais, a
partir de um outro conjunto, Sustados por 1 Gesto, da qual faziam parte John
Ulhoa (vocais, guitarra solo, violão e programações eletrônicas) e Ricardo Koctus
(baixo e vocais de apoio). Os dois se juntaram a Fernanda Takai (vocal, violão
e guitarra-base), que havia feito parte da banda Fernanda & 3 do Povo. O
trio formado foi batizado de Pato Fu, nome inspirado numa tirinha em quadrinhos
de Garfield, do cartunista americano Jim Davis, na qual o personagem dizia lutar
uma arte marcial chamada “gato fu”. Baseados nisso, os três músicos mineiros apenas
trocaram “gato” por “pato”, e o nome da banda estava criado.
Em 1993, o
Pato Fu lançou o seu primeiro álbum de estúdio, Rotomusic de
Liquidificapum, através do selo independente mineiro Cogumelo Records. O
álbum de estreia não teve bom desempenho comercial, mas a sonoridade pop da
banda aliada ao experimentalismo, mais o fato se um trio formado por dois
rapazes e uma garota, chamaram a atenção da imprensa musical, que logo fez
inevitáveis comparações com os Mutantes, da fase em que era também um trio,
formado por Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias.
A gravadora
BMG se interessou pelo Pato Fu e contratou o trio mineiro em 1994. No final daquele
ano, o Pato Fu gravou no estúdio CIA. Dos Técnicos, no Rio de Janeiro, o seu
segundo álbum de estúdio, tendo à frente da produção Carlos Savalla, produtor
que já havia trabalhado com Legião Urbana e Paralamas do Sucesso.
Pato Fu por volta de 1992. Da esquerda para a direita: Ricardo Koctus, John Ulhoa e Fernanda Takai. |
Intitulado Gol de Quem?, o segundo álbum de estúdio do Pato Fu foi lançado em 1° de fevereiro de 1995, através do selo Plug, um selo pertencente à gravadora BMG dedicada lançar discos de novas bandas do pop rock brasileiro. O curioso título do disco, segundo John Ulhoa, era uma expressão popular, provavelmente usada em Minas Gerais na época, que era usada por alguém que não entendeu o que o outro falou. Daí, a pessoa dizia “gol de quem?”, o que equivaleria a “como?”, “o quê?”. A capa do disco traz um par de anjos querubins extraídos da pintura Madona Sistina, do pintor renascentista Rafael Sanzio (1483-1520), em 1512.
Gol de
Quem? dá
prosseguimento ao som pop rock experimentalista cheio de irreverência do disco
anterior, Rotomusic de Liquidificapum. Em Gol de Quem?
a influência musical dos Mutantes também se faz presente assim como no álbum anterior. O segundo álbum de estúdio do Pato Fu tem
desde pop rocks radiofônicos até canções com experimentos malucos eletrônicos,
passando pela seresta e psicodelia pop. Além de canções autorais, o Pato Fu fez
regravações de músicas de outros artistas como Beatles, Anita Ward e até Nelson
Gonçalves (1919-1998).
O álbum começa
com a faixa instrumental “And Now”, uma música experimental, cheia de efeitos
sonoros, sons de vidros de quebrando repetidamente e sons pesados de guitarras.
Há até uma citação à canção “A Whiter Shade Of Pale”, da banda inglesa Procol
Harum. Em seguida vem “Mamãe Ama É O Meu Revólver”, um pop de título surreal,
de refrão “grudento” e que se tornou uma das músicas mais conhecidas do disco. Em
“Vida Imbecil”, os membros do Pato Fu cantam com sotaque caipira que o mundo
que Deus fez “é tão perfeitim”, mas lembra que “existe fome,
violência, estupidez e hogerizas nucleares”. Na sequência, o Pato Fu engata
um um pop rock rápido e veloz que é a faixa-título, seguido depois pela faixa
“Sertões”, onde a banda mineira funde rock e embolada nordestina, com direito a
uma citação dos versos de “Luar do Sertão”, um clássico do cancioneiro
brasileiro.
“Onofle”
traz uma letra toda em inglês, possui várias alternâncias malucas de andamento,
ora leves, ora pesadas. Segundo John Ulhoa, a música era uma sátira às bandas
de “teen metal” que estavam em moda em Belo Horizonte no começo dos anos 1990.
O título curioso teria sido inspirado numa história-em-quadrinhos do Cebolinha,
da Turma da Mônica, onde o personagem criava uma suposta lagartixa de estimação
chamada Onofle (na verdade, “Onofre”, já que Cebolinha troca o “R” pelo “L” na
fala). Porém, o animal cresce e só depois Cebolinha se dá conta que o que ele
pensava ser uma lagartixa era na verdade um filhote de jacaré.
“Sobre O
Tempo” é a principal faixa de Gol de Quem?, e um dos maiores
sucessos da carreira do Pato Fu. A música é o que se pode chamar de pop
perfeito, é agradável, acessível, e não à toa ganhou as rádios de todo o
Brasil. Na canção, o eu lírico trava um diálogo com o tempo como se este fosse
uma pessoa, um amigo íntimo.
Os querubins da capa de Gol de Quem? foram extraídos da pintura "Madona Sistina",do pintor italiano Rafael Sanzio (1483-1520), de 1512. |
O Pato Fu faz uma releitura interessante de “A Volta do Boêmio”, grande sucesso de Nelson Gonçalves, de 1967. A canção abre num ritmo pop eletrônico sombrio, com John Ulhoa cantando com uma voz lenta e soturna. Mais adiante, a música assume um ritmo de seresta tradicional, com John ou quem quer que seja, imitando de maneira caricata o jeito de cantar de Nelson Gonçalves. Na reta final da canção, a música transcorre num ritmo de batida eletrônica com o violão de seresta, promovendo o encontro entre o passado brejeiro da música brasileira com a sonoridade pop contemporânea.
“Qualquer
Bobagem” foi regravada originalmente pelos Mutantes em 1969. Diferente da
versão original que possui um ritmo mais arrastado e pouco radiofônico, a
versão do Pato Fu é mais dinâmica, um pop mais palatável. Os sons que parecem
ser de naipe de metais durante o refrão, remetem aos Beatles da fase
psicodélica.
Saindo de
uma releitura de uma canção da era psicodélica, o Pato Fu parte para uma
releitura de um clássico da disco music dos anos 1970, “Ring My Bell”. A música
fez um enorme sucesso na voz da cantora Anita Ward, em 1979. Com o Pato Fu,
“Ring My Bell” virou uma canção pop com percussão eletrônica programada. Ao
final da música, há uma citação a outro sucesso da disco music, “Dance A Little
Bit Closer”, sucesso da cantora espanhola Charo, de 1977. “Ok, All Right” é uma
faixa curta, pouco mais de um minuto que não faria falta se tivesse ficado de fora
do disco.
“Vida de
Operário” foi gravada pela banda Patife Band em 1987, e depois pela banda punk
paulista Excomungados, em 1990. O Pato Fu regravou seguindo a ideia da versão
da Patife Band, em ritmo de música caipira. A letra fala sobre a exploração da
mão de obra operária, que trabalha muito em troca de um salário de fome. “Spoc”,
outra música conhecida do começo da carreira do Pato Fu, é um pop rock com
letra metade em português e outra metade em francês.
O segundo
álbum do Pato Fu termina com mais uma regravação, desta vez de um sucesso dos
Beatles, “Ob-la-di-ob-la-da”. Se a versão original já não agradou muita gente
por aí, a versão do Pato Fu não é diferente: é muito idiotizada e completamente
dispensável. Assim como “Ok, All Right”, não faria falta se fosse excluída do
álbum.
Graças ao
sucesso de “Sobre o Tempo” e “Qualquer Bobagem” nas programações de rádio do
Brasil, o álbum Gol de Quem? vendeu mais de 40 mil cópias e deu
visibilidade ao Pato Fu no cenário musical brasileiro. O então trio mineiro
deixou de ser apenas uma “banda engraçadinha de músicas esquisitas” para ser
uma das bandas mais destacadas da nova geração do rock brasileiro que
despontava em meados dos anos 1990. Em agosto de 1995, o Pato Fu conquistou o
prêmio Video Music Awards, da MTV Brasil, na categoria “Banda
Revelação”, desbancando favoritos como Chico Science & Nação Zumbi e Planet
Hemp.
No fim de
1995, já na reta final da turnê de Gol de Quem?, o Pato Fu vira
um quarteto com a entrada do baterista Xande Tamietti. A banda mineira chegava
naquela que talvez foi a sua formação mais famosa, que chegaria ao ápice da
carreira com os álbuns Televisão de Cachorro (1998) e Isopor
(1999).
Faixas
- "And Now"(John Ulhoa) faixa instrumental
- "Mamãe Ama É o Meu Revólver" (Rubinho Troll)
- " Vida Imbecil " (John Ulhoa)
- "Gol de Quem?” (Ricardo Koctus - John Ulhoa)
- " Sertões " (Ricardo Koctus)
- "Onoflo" (John Ulhoa)
- "Sobre o Tempo " (John Ulhoa)
- "A Volta do Boêmio " (Adelino Moreira)
- "Qualquer Bobagem" (Os Mutantes - Tom Zé)
- "Ring My Bell" (Frederic Knight)
- "OK, tudo bem!" (John Ulhoa)
- "Vida de Operário " (Falcão)
- "Spoc" (John Ulhoa)
- " Ob-la-di-ob-la-da " (Lennon–McCartney)
Pato Fu: Fernanda Takai (vocal principal ,
violão e arranjos), John Ulhoa (guitarra solo , vocais ; programação ( Roland
MC50 ), violão) e Ricardo Koctus (baixo e vocais).
"And Now"
"Mamãe Ama É o Meu Revólver"
(videoclipe original)
" Vida Imbecil”
"Gol de Quem?”
" Sertões”
"Onofle"
"Sobre o Tempo” (videoclipe original)
"A Volta do Boêmio”
"Qualquer Bobagem”
(videoclipe original)
"Ring My Bell"
"OK! All Right"
"Vida de Operário”
"Spoc"
“Ob-la-di-ob-la-da”
Comentários
Postar um comentário