“Closer” (Factory, 1980), Joy Division
Quando ainda
estava na turnê do seu aclamado álbum de estreia, Unknown Pleasure, em
1979, a banda Joy Division já tocava nas suas apresentações algumas músicas que
fariam parte do segundo álbum, Closer, que só seria lançado no ano
seguinte. As canções eram “Atrocity Exhibition”, “Passover”, “Colony” e “Twenty
Four Hours”, as quatro contando muito com a presença da guitarra de Bernard
Sumner, refletindo a influência da crueza musical de Unknown Pleasure.
No entanto,
essa crueza perderia espaço ou pelo menos o protagonismo na sonoridade do Joy
Division, a partir do começo de 1980, quando a banda adotou os sintetizadores.
O produtor Martin Hannett - o mesmo que havia produzido o álbum de estreia do
quarteto inglês – estimulou o guitarrista Bernard Sumner a usar sintetizadores,
como o Transcedent 2000 e o ARP Omni 2. Além disso, incentivou o baterista
Stephen Morris a fazer uso dos efeitos eletrônicos da bateria eletrônica.
“Isolation”, “Heart And Soul”, “The Eternal” e “Decades”, foram compostas após
o Joy Division ter adotado os sintetizadores. Com a adoção dos sintetizadores,
o grupo alemão Kraftwerk e o cantor David Bowie (na fase do álbum Low,
de1977), se tornaram importantes referências para o Joy Division.
A frieza da
sonoridade eletrônica agregada ao som cru e angustiante que a banda já
praticava, se tornaram a moldura perfeita para as letras melancólicas e
enigmáticas do vocalista e letrista Ian Curtis. Esse casamento sonoro consolidaria
o estilo próprio da Joy Division em fazer música, e que se tornaria uma grande
influência no cenário pós punk que estava vigente naquele momento, bem como
influenciaria gerações de bandas e artistas que viriam futuramente.
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O guitarrista e tecladista da Joy Division, Bernnard Sumner, observa o produtor Martin Hannet manipulando os sinterizadores Transcendent 2000 e ARP Omni 2 no estúdio de gravação. |
Sob produção
de Martin Hannett, as gravações de Closer ocorreram entre 18 e 30 março
de 1980, no Britannia Row Studios, em Londres, Inglaterra. Na época, o
Britannia Row Studios pertencia ao Pink Floyd, os mesmos estúdios onde o grupo
gravou os álbuns Animals (1977) e partes de The Wall 1979).
Apesar da
boa avaliação do público e da crítica ao álbum de estreia e da projeção que a
Joy Division começava a conquistar na mídia, nos bastidores, as coisas não iam
nada bem. Os problemas não eram com a banda em si, mas com Ian Curtis. Desde a
segunda metade de 1979, a vida de Ian Curtis atravessa por uma verdadeira
“montanha russa” de conflitos pessoais que acabaram interferindo na banda.
Problemas que iam desde saúde mental à crise conjugal.
Na época da
turnê de Unknow Pleasure, Ian Curtis teve as suas primeiras convulsões
em pleno palco. Exames médicos detectaram que Ian Curtis era portador de
epilepsia, e desde então o artista passou a tomar medicamentos cada vez mais
pesados, o que com o tempo, acabou afetando o seu estado emocional, tornando-o
uma pessoa mais reservada do que já era, mais deprimida, e em alguns momentos,
mais ríspida. O resultado disso, é que Curtis procurava uma fuga através do
álcool, do cigarro e de remédios. As convulsões afetaram a confiança de Curtis
em subir ao palco como também as finanças da banda: não foram poucos os shows
cancelados por causa do agravamento da saúde mental do vocalista.
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Ian Curtis, vocalista da Joy Division: portador de epilepsia, sofria convulsões em pleno palco nos shows da banda. |
Ao mesmo
tempo, o casamento de Ian Curtis com Deborah Curtis começava a ruir, apesar do
nascimento da filha do casal, Natalie. O seu romance extraconjugal com a
jornalista belga, Annik Honoré, gerou uma grande crise no casamento do
vocalista, que culminou no pedido de divórcio por parte de Deborah. Curtis por
sua vez, carregava na alma o peso da culpa por amar outra mulher e trair a
esposa com quem tinha uma filha pequena.
Como se isso
não bastasse, Ian Curtis ainda vivenciava outro tormento: a possibilidade de
sucesso da Joy Division. A primeira turnê americana da Joy Division estava
agendada para maio, possibilitando ao quarteto inglês uma grande visibilidade. O
que para os seus companheiros foi motivo de comemoração e de sonhar com voos
mais altos profissionalmente, para Curtis tornou-se um pesadelo. O vocalista,
que já andava angustiado com o seu problema de saúde nos shows pela Europa,
temia ter convulsões nos shows da turnê americana e envolver não só a si, mas
toda a banda num grande constrangimento, e desta vez, do outro lado do
Atlântico. Por causa dos seus problemas pessoais, ele chegou manifestar o
desejo de deixar a banda, e mudar-se para a Holanda e lá abrir uma livraria.
Num ato de
desespero por não aguentar o sentimento de culpa por trair a esposa, a
depressão e a epilepsia, Ian Curtis pôs fim à própria vida ao enforcar-se na
cozinha de sua casa com uma corda de varal, no dia 15 de maio de 1980, um
domingo, véspera da viagem para os Estados Unidos para a primeira turnê do Joy
Division naquele país. Pouco antes de dar fim à própria vida, Ian Curtis havia
ouvido o álbum The Idiot, de Iggy Pop.
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Joy Division se apresentando na Universidade de Birmingham, em 2 de maio de 1980. Foi a última apresentação ao vivo da banda, duas semanas antes de Ian Curtis suicidar-se. |
Ian Curtis
havia tentado o suicídio em abril de 1980, ao ingerir vários comprimidos do
medicamento para a sua doença, mas conseguiu escapar. Na segunda tentativa,
Curtis conseguiu o que desejava.
Closer foi lançado em 18 de julho de 1980,
exatamente dois meses depois da trágica morte de Ian Curtis. Como infeliz
coincidência, a capa do álbum é a fotografia da tumba da família Appiani, no Cimitero
Monumentale di Staglieno, em Gênova, na Itália. A fotografia para a capa, feita
pelo fotógrafo Bernard Pierre Wolff, em 1978, já havia sido aprovada por todos
membros da banda, inclusive pelo próprio Ian Curtis. O projeto gráfico é de
Martin Atkins e Peter Saville. Originalmente, não havia qualquer referência nas
versões LP de qual era o lado A e B. A edição brasileira de Closer
incluiu “Love Will Tears Us Apart”, o maior sucesso da banda que fora lançada
apenas em single, um mês antes do lançamento de Closer.
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Tumba da Família Appiani, no Cimitero Monumentale di Staglieno, em Gênova, na Itália, serviu de capa para o álbum Closer. |
O segundo e
último álbum da Joy Division começa ao som de uma bateria em ritmo marcial e
repetitivo, acompanhado por ruídos e sons sujos de guitarra, que dão início à
faixa “Atrocity Exhibition”, música inspirada num livro homônimo de J.G.Ballard
(1930-2009), escritor inglês de quem Ian Curtis era fã. O interessante nesta
música é que o baixista Peter Hook é quem toca guitarra e o guitarrista e
tecladista Bernard Sumner é quem toca o baixo.
A faixa
seguinte, “Isolation”, possui um ritmo mais acelerado e dançante, e é um prenúncio
do caminho musical que será tomado pelos membros da banda após o fim da Joy
Division. Na letra de “Isolation”, Curtis é bastante confessional em relação ao
estado emocional que passava, afirmando que se vergonha das coisas que tem
feito, e da pessoa que havia se tornado, provavelmente uma alusão ao sentimento
de culpa pelo adultério que cometia. “Isolation” possui uma linha de baixo
marcante e pulsante característico de Peter Hook, e teclados produzindo um som
estridentes na reta final da música, e uma bateria eletrônica contagiante.
Curiosamente, não há guitarra nesta faixa.
“Passover” é
mais uma canção confessional de Ian Curtis presente em Closer, e nas suas
entrelinhas, parece fazer referência ao do seu casamento com Deborah Curtis: “This is the crises I knew had to come /
Destroying the balance / I'd kep”. (“Esta
é a crise que eu sabia que viria / Destruindo o equilíbrio / que eu mantinha”).
Assim como “Atrocity
Exhibition”, “Colony” é outra canção do álbum que possui referência literária.
O título é uma alusão a Na Colônia Penal,
novela escrita por Franz Kafka (1883-1924), em 1914, mas publicada em 1919. O riff pesado e agressivo de guitarra e a
bateria inquieta embalam o canto agressivo de Ian Curtis, que canta os versos
sobre desespero e solidão numa colônia penal, que na canção poderia ser uma
metáfora para a vida conjugal de Curtis ou à sua doença.
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Franz Kafka, autor de Na Colônia Penal, obra literária que inspirou a música "Colony", da Joy Division. |
Com uma
bateria num ritmo robótico executado por Stephen Morris, “A Means To An End”
possui musicalmente uma inclinação pop. É “A Means To An End” quem fecha o que
pode ser considerado o lado A de Closer. A música parece uma canção
de despedida, em que Curtis demonstra ter perdido a confiança em alguém. Os
versos dão indícios de que Curtis se refere a um relacionamento que se
desgastou, chegou ao fim, nesse caso o seu casamento com Deborah Curtis. Ainda
assim, Curtis parece guardar algum sentimento bom que viveu com a esposa: “We fought for good - stood side by side /
Our friendship never died”. (“Nós
lutamos para o bem - ficamos lado a lado / Nossa amizade nunca morreu”).
Uma curiosidade é que “Cedo”, da Legião Urbana, poderia ter sido inspirada “A
Means To An End”.
“Heart And
Soul” dá início ao que pode ser considerado o lado B de Closer. Ian Curtis
parece cantar dentro de uma caverna. Em alguns versos, Curtis se mostra
enigmático e ao mesmo tempo bastante claro no que diz: “The past is now part of my future / The present is well out of hand” (“O passado é agora parte do meu futuro / O
presente está bem fora de controle”).
Em “Twenty
Four Hours”, Curtis se mostra desesperançoso com o futuro: “Just for one moment I thought I'd found my way” (“Só por um instante pensei que encontraria
meu caminho”). Ao final da canção, demonstra um desespero revelador: “Gotta find my destiny, before it gets too
late”. (“Tenho que achar meu destino
antes que seja tarde demais”).
A faixa
seguinte, “The Eternal”, é talvez a canção com o arranjo melhor elaborado do
álbum, e é provavelmente a faixa mais triste. Os sintetizadores criam os
efeitos de chiado, bem como é responsável por todo o clima etéreo, melancólico
e funesto da canção. A morte se faz presente não apenas na base instrumental,
mas também sutilmente nos versos: “Procession
moves on, the shouting is over / Praise to the glory of loved ones now gone”.
(“Procissão continua, a gritaria acabou /
Louvar para a glória dos amados que agora já foram”).
O ritmo
prossegue lento e melancólico com “Decades”, faixa que provavelmente é a que
encerra Closer. Nesta faixa, os sintetizadores executados por Sumner
também desempenham um papel importante, criando toda uma atmosfera musical
claustrofóbica que casa muito bem com a letra escrita por Curtis, na qual ele
enxerga um futuro sem esperança, sem rumo.
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Joy Division, da esquerda para a direita: Peter Hook, Ian Curtis, Stephen Morris e Bernard Sumner. |
Ao ouvir Closer
e analisar as letras de algumas de suas canções, chama atenção como os seus
companheiros de banda não perceberam as pistas deixadas por Curtis nos versos,
o desespero que o vocalista estava sofrendo e as possibilidades de suicídio. Closer
é na prática, uma espécie de “carta de despedida” em forma de um disco de
canções. Os colegas de banda só vieram perceber as mensagens nas entrelinhas
dos versos tempos depois da morte de Ian Curtis.
Embora as
canções verbalizassem o desabafo do vocalista, elas eram ao mesmo tempo um
grito de socorro. Talvez Curtis se sentisse incapaz emocionalmente de pedir ajuda
aos companheiros da maneira convencional, e o fez através de canções. Os
companheiros por sua vez, não conseguiram decodificar os versos que expressavam
a despedida daquele jovem artista que partiu desta vida apenas 23 anos de
idade.
Com a morte
de Ian Curtis, a Joy Division chegou ao fim como banda. Dois meses após a morte
de Curtis, os membros restantes da antiga banda voltaram a ensaiar juntos para
um novo projeto, o New Order. Apesar de ter durado tão pouco tempo e de não ter
alcançado o nível de popularidade da banda que a sucederia, a Joy Division
influenciou gerações de bandas e artistas que vieram após o seu fim, como
Smashing Pumpkins, Radiohead, Interpol, Franz Ferdinand e The Killers. No
Brasil, a Legião Urbana teve bastante influência da Joy Division, e o seu
vocalista, Renato Russo, o mais fiel discípulo de Ian Curtis no rock
brasileiro.
Faixas
Todas as
faixas são de autoria de Ian Curtis, Peter Hook, Stephen Morris e Bernard
Sumner.
Lado 1
- "Atrocity Exhibition"
- "Isolation"
- "Passover"
- "Colony"
- "A Means To An End"
Lado B
- "Heart And Soul"
- "Twenty Four Hours"
- "The Eternal"
- "Decades"
Joy Division: Ian Curtis (vocal, guitarra e escaleta), Bernard Sumner (guitarra, baixo e sintetizadores), Peter Hook (baixo, violão e baixo de seis cordas) e Stephen Morris (bateria, bateria eletrônica e percussão)
Referências:
Revista Bizz –
julho/1987 – Edição 24
“Folha de S. Paulo” - São Paulo, quinta-feira, 18 de maio de 1995
Uncut - The Ultimate Music Guide: Joy Division/New Order – Novembro/2019
Unknown Pleasure: Inside Joy Division – Peter Hook, 2012, Editora Simon & Schuster,
Reino Unido.
Filme: Control – A História de Ian Curtis, direção: Anton Corbijn, Momentum
Pictures/ The Weinstein, 2007.
"Atrocity
Exhibition"
"Isolation"
"Passover"
"Colony"
"A
Means To An End"
"Heart
And Soul"
"Twenty
Four Hours"
"The
Eternal"
"Decades"
"Love Will Tears Us Apart"
(videoclipe oficial)
(videoclipe oficial)
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