Chega de Saudade (Odeon, 1959), João Gilberto


Por Sidney Falcão

Nascido em 1931 em Juazeiro, Bahia, filho de um comerciante próspero e apaixonado por rádio, João Gilberto cresceu ouvindo música em casa, fascinado pelas vozes de Orlando Silva e Duke Ellington. Aos sete anos já apontava erros no organista da igreja. Aos 14, ganhou um violão, formou grupo vocal, mudou-se para Salvador e mergulhou de vez na música. Tentou a sorte no Rio, integrou o conjunto vocal Garotos da Lua, gravou discos de 78 rpm que fracassaram, viveu de pequenos bicos e jingles. Em 1955 isolou-se em Diamantina, Minas Gerais, onde, no eco de um banheiro, descobriu a batida constante no violão que permitiria à voz cantar fora do tempo, suave, quase sussurrada. Foi nessa solidão que compôs “Bim Bom”. Em 1957 voltou ao Rio de Janeiro com essa descoberta, impressionando jovens músicos como Menescal, Ronaldo Bôscoli e Chico Pereira, que o apresentou a Tom Jobim. Era o embrião do encontro que levaria ao disco Chega de Saudade. 

Foi no fim da década de 1950 que o Brasil ouviu, pela primeira vez, um homem cantar baixo como se estivesse sozinho numa varanda de azulejos, dedilhando um violão que soava como a batida de um coração contemplativo. Era João Gilberto e era um LP chamado Chega de Saudade. Não vinha do rádio nem dos salões, mas de um silêncio introvertido que ainda não tinha nome. Até então se chamava samba-canção, jazz disfarçado, insinuado, um experimentalismo quase clandestino praticado por uns poucos iniciados. Mas aquele álbum de doze faixas encadeadas como o roteiro de um romance transformou isso numa linguagem definitiva. Não é exagero dizer: ali nascia, oficialmente, a bossa nova — ainda que a imprensa só entendesse isso bem depois, e que parte do público, numa primeira audição, achasse estranho, tímido, minimalista demais. Mas, como relataram Zuza Homem de Mello e Nelson Motta, bastava ouvir duas, três vezes, para aquela cadência entrar na cabeça como epifania. Era pouco volume e muita precisão. João não gritava, ele murmurava — e quem quisesse ouvir que chegasse mais perto. 

A história daquele disco se confunde com a obstinação de um homem que acreditava nas mínimas vírgulas do som. As gravações foram tensas. João exigia dois microfones — um para o violão, outro para a voz — e interrompia a orquestra sempre que sentia que algo soava estridente. Brigou com técnicos, com músicos, com o próprio Tom, dizendo que ele era preguiçoso. O resultado é um disco que parece sussurrar direto no ouvido. Não há bateria agressiva. O baterista Milton Banana toca com escova e aro, sem estridência. Os sopros entram como respiração e após algum silêncio. Ao mesmo tempo, o repertório soa impecável: Jobim/Vinicius, Ary Barroso, Carlos Lyra, Caymmi, além do próprio João com suas músicas autorais. Publicado em março de 1959, o LP vende mais do que a gravadora esperava e causa espanto em muitos: como pode um disco tão delicado ser tão moderno? A Odeon percebe, só depois, que tinha nas mãos algo histórico. 

O jovem João Gilberto no final dos anos 1950: enxergando o futuro da
música brasileira na linha do horizonte?

Chega de Saudade é um conjunto de pequenas confissões embaladas em cordas de náilon e espaços vazios. A faixa título abre como uma oração melancólica: “Vai minha tristeza e diz a ela...”. O arranjo é discreto, mas o violão de João apresenta ao mundo sua batida sincopada, já completamente madura. A música, já conhecida na voz de Elizeth Cardoso, de repente renasce como uma canção íntima, mais devagar do que o habitual, com silêncios que parecem fazer parte da melodia. Logo em seguida, "Lobo Bobo" flerta com a malícia cotidiana de um samba ligeiro. João canta como quem sorri de canto de boca, brincando com o ritmo. A terceira, "Brigas, Nunca Mais", é Jobim e Vinícius em estado de graça, e João a transforma quase em uma confissão doméstica, com leveza e sofisticação. "Hô-bá-lá-lá", de sua autoria, é um manifesto de simplicidade — letra mínima, estrutura leve, algo quase infantil, como uma amostra de que ele poderia reinventar tudo a partir do quase nada. "Saudade Fez um Samba" e "Maria Ninguém" completam o lado A com o clima já estabelecido: o violão como narrador constante, a voz como suspiro. 

O lado B começa com "Desafinado", que se tornaria símbolo da bossa nova. A letra é quase uma carta de defesa que diz: “se você insiste em classificar meu comportamento de antimusical, saiba que isso é bossa nova”. João canta com ironia leve, mas também com convicção. Rosa Morena, de Caymmi, surge como reverência ao samba mais tradicional, mas filtrado por aquele novo jeito de tocar. "Morena Boca de Ouro", de Ary Barroso, recebe um arranjo que tira dela o dramatismo e a conduz para o universo confidencial de João. Depois vem Bim Bom, o seu verdadeiro cartão de visitas: repetição hipnótica, letra mínima (quase apenas uma onomatopeia), mas a batida entre as cordas já contém tudo que viria a definir o estilo. "Aos Pés da Cruz e É Luxo Só" fecham o disco numa atmosfera de saudade e elegância religiosa, como se João estivesse encerrando uma missa mínima onde cada acorde fosse uma bênção secular. 

O impacto comercial foi surpreendente. Em meio a um mercado dominado por cantores de voz potente – Cauby Peixoto, Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Dolores Duran –, Chega de Saudade conquistou um público mais jovem, universitário, ligado às noites de Copacabana e Ipanema. O LP esteve em catálogo por 31 anos, algo raríssimo. As revistas da época começaram a chamar João Gilberto de “excêntrico”, “Chet Baker brasileiro”, “perfeccionista neurótico”. Mas ninguém conseguiu ignorar a força daquele disco. Em pouco tempo, outros artistas começam a seguir a fórmula: Sylvia Telles, Carlos Lyra, Nara Leão. O álbum não explodiu imediatamente nas rádios populares, mas tornou-se febre em salas de apartamento e rodas de músicos. Era o disco que todos queriam ouvir para aprender como se tocava aquela batida. Chega de Saudade vendeu, ao longo dos anos, centenas de milhares de cópias — e foi entrando para as listas de discos fundamentais da música mundial. 

Quando João Gilberto desponta com o álbum Chega de Saudade e o seu canto baixo, 
o modelo padrão de cantor no Brasil era o de cantores com vozes potentes como
Cauby Peixoto e Nelson Gonçalves. 

Na carreira de João Gilberto, Chega de Saudade vai além de um álbum de estreia: é a fundação do seu mito. Antes disso ele era apenas mais um violonista talentoso, tocando na noite, compondo jingles, às vezes dormindo no sofá dos amigos. Depois disso, virou entidade. Poderia sumir por anos, gravar discos esparsos, ser recluso ao extremo – ninguém mais o trataria como um músico comum. Tudo que viesse depois seria comparado com aquele álbum inicial, inclusive os dois que completariam a tríade na Odeon: O Amor, o Sorriso e a Flor (1960) e João Gilberto (1961). Os três discos formam a espinha dorsal da bossa nova. 

O legado é impressionante: Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Milton Nascimento, todos afirmam que só puderam cantar do seu jeito graças à porta aberta por João. E o mundo logo perceberia isso: Stan Getz, Charlie Byrd, Dizzy Gillespie se aproximam, gravam, absorvem. A bossa nova se torna exportação de luxo do Brasil antes mesmo do futebol conquistar o tri. E tudo começa com este álbum de 1959, que parece delicado demais para carregar tanto peso histórico — mas carrega. 

Hoje, ouvir Chega de Saudade ainda causa aquela impressão de descoberta. Nada soa datado. As pausas, o silêncio, o violão transparente, a voz contida — tudo continua moderno. Talvez porque João não quis inventar algo chamativo: ele apenas escutou, com atenção quase zen, o que poderia acontecer quando se tira o excesso e se deixa só o essencial. Há discos que pertencem ao seu tempo. E há discos que criam um novo tempo. Chega de Saudade é um relógio que começou a contar outro tipo de hora. Um álbum que, com doze faixas breves e sussurradas, ergueu um monumento de leveza — justamente num país barulhento, exagerado, melodramático. João inventou o minimalismo solar, a melancolia fresca, a intimidade cosmopolita. Como se dissesse: o Brasil também pode ser silêncio e disciplina, elegância e introspecção. 

Ao final deste LP, o ouvinte não sente que ouviu uma sequência de canções, mas que foi convidado a entrar num quarto branco, onde a luz da manhã ainda hesita. Nada parece urgente, tudo parece exato. E quem escuta, pela primeira vez, sente talvez a mesma sensação descrita por Zuza Homem de Mello: para, encosta o carro, e fica tentando entender o que é aquilo. Mesmo que não entenda de imediato, sabe que algo mudou. Chega de Saudade é a história de quando a tristeza virou batida, o silêncio virou estética, e o Brasil, de repente, descobriu que podia cantar até o vazio de forma exata — como um segredo compartilhado entre voz, violão e espaço.

Faixas

Lado A

1."Chega de Saudade" (Antônio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes)

2."Lobo Bobo" (Carlos Lyra / Ronaldo Bôscoli)

3."Brigas, Nunca Mais" (Antônio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes)

4."Hô-bá-lá-lá" (João Gilberto)

5."Saudade Fez um Samba" (Carlos Lyra / Ronaldo Bôscoli)

6."Maria Ninguém" (Carlos Lyra)

 

Lado B

1."Desafinado" (Newton Mendonça / Antonio Carlos Jobim)

2."Rosa Morena" (Dorival Caymmi)

3."Morena Boca de Ouro" (Ary Barroso)

4."Bim Bom" (João Gilberto)

5."Aos Pés da Cruz" (Marino Pinto / Zé da Zilda)

6."É Luxo Só" (Ary Barroso / Luiz Peixoto)

 

Referências:

g1.globo.com

globodamusica.wordpress.com

wikipedia.org 


"Chega de Saudade"

"Lobo Bobo"

"Brigas, Nunca Mais"

"Hô-bá-lá-lá"

"Saudade Fez um Samba"

"Maria Ninguém"

"Desafinado"

"Rosa Morena"

"Morena Boca de Ouro"

“Bim Bom"

“Aos Pés da Cruz"

"É Luxo Só"

Comentários