Tribalistas (Phonomotor Records / Universal Music, 2017), Tribalistas
Por Sidney Falcão
Quinze anos é um tempo longo demais para a música popular. Quando Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown lançaram o primeiro Tribalistas, em 2002, não havia redes sociais como as conhecemos hoje, nem a instantaneidade do streaming. O disco surgiu como uma revelação silenciosa — sem entrevistas, sem promoção tradicional — e mesmo assim se transformou num fenômeno avassalador. “Já Sei Namorar” e “Velha Infância” viraram hinos geracionais, ecoando da rádio às rodas de violão, enquanto o álbum alcançava vendas milionárias e conquistava prêmios internacionais.
A força daquele encontro se tornou, paradoxalmente, uma espécie de prisão dourada. O trio, envolto em raras aparições públicas, deixou o mito crescer por conta própria. Havia rumores, especulações, encontros ocasionais em shows ou cerimônias como a das Olimpíadas de Londres em 2012, mas nada de concreto. Até que, em 2017, uma live transmitida simultaneamente nas redes sociais dos três artistas quebrou o silêncio: os Tribalistas estavam de volta. E não era apenas uma reunião nostálgica. O anúncio vinha acompanhado de quatro músicas inéditas — “Aliança”, “Diáspora”, “Um Só” e “Fora da Memória” — que imediatamente ocuparam as primeiras posições no iTunes, sinal de que a expectativa estava à altura da espera.
O álbum, lançado em 25 de agosto de 2017, chegou não apenas
em formato físico, mas também com um DVD de bastidores e um especial exibido na
TV Globo. Tudo planejado para marcar um retorno midiático, agora em tempos
digitais, mas preservando a aura de intimidade criativa que sempre foi o selo
do grupo. A pergunta, porém, era inevitável: seria possível recriar a alquimia
de 2002 sem cair na mera repetição?
O segundo Tribalistas nasceu de encontros realizados em Salvador em 2016, quando Marisa, Arnaldo e Brown se trancaram para compor cerca de vinte canções. O que resultou no disco foram dez faixas escolhidas desse arsenal, registradas com a colaboração de Pedro Baby e Pretinho da Serrinha, parceiros já frequentes da cena carioca.
Se o primeiro álbum exalava inocência, leveza pop e uma organicidade quase lúdica, este de 2017 assumia outro tom: mais politizado, mais reflexivo, em alguns momentos mais sombrios. Em um Brasil polarizado e mergulhado em crises, cantar “somos comunistas / e capitalistas / somos anarquistas / somos o patrão” (Um Só) soava como um gesto deliberado de insistir no humanismo em meio ao ruído. Para parte da crítica, o discurso soava simplista ou datado; para outros, era justamente sua força — afirmar o afeto, a comunhão e a paz quando o mundo parecia cindido.
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| Os Tribalistas: Carlinhos Brown, Marisa Monte e Arnaldo Antunes. |
“Diáspora” abre o álbum estabelecendo de imediato o clima político-social do disco. Um batuque austero, quase ritualístico, conduzido por Brown, serve de base para um canto sobre deslocamentos, fronteiras e o drama dos refugiados. Lançada no mesmo dia em que Chico Buarque apresentou As Caravanas, inevitavelmente gerou comparações. Mas, enquanto Chico mergulhava na densidade literária, os Tribalistas preferiram o coro repetitivo, quase infantil, para dar voz à coletividade. O resultado é hipnótico, embora alguns achem simplista.
Em “Um Só”, o trio resgata o espírito das canções-manifesto. A letra, construída em enumerações e contradições, propõe uma síntese utópica das diferenças. Musicalmente, remete ao primeiro disco: violões marcados, vozes entrelaçadas, percussão econômica. É também um dos momentos mais criticados por parte da imprensa, que viu na canção um slogan vazio. Ainda assim, ao vivo, ganhou força como canto coletivo.
Atmosférica e delicada, “Fora da Memória” remete à obra solo de Marisa, especialmente ao álbum Infinito Particular. Os arranjos etéreos, apoiados em teclados e cordas sutis, criam um clima contemplativo. É o primeiro respiro do álbum, um momento de lirismo mais íntimo que contrasta com a abertura política.
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| Arnaldo, Marisa e Brown em sessão de gravação do segundo álbum dos Tribalistas, em 2017. |
A fusão rítmica é a chave em “Baião do Mundo”. Brown assume a frente com um baião percussivo expandido, enquanto Marisa e Arnaldo intercalam versos sobre diversidade cultural. A intenção é celebrar o encontro de sonoridades, mas a crítica apontou certa previsibilidade, lembrando experimentos já feitos por Brown nos anos 1990.
“Feliz e Saudável” é uma canção em tom confessional, que brinca com o desejo de simplicidade. A estrutura é pop, direta, com refrão repetitivo. Funciona mais como ponte no álbum do que como destaque, mas evidencia o espírito leve do trio.
“Trabalivre” talvez seja a faixa mais incisivamente política.
O título já sugere a crítica: a tensão entre trabalho e liberdade.
Musicalmente, mantém a simplicidade pop com percussões discretas. Não é uma
canção explosiva, mas cumpre papel como comentário social, reforçando o ethos
“paz e amor engajado” do disco.
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| Detalhe de uma das páginas do encarte do segundo disco dos Tribalhistas. |
“Ânima” é uma das canções mais sutis e bem construídas do álbum. A voz de Marisa guia a melodia etérea, acompanhada por arranjos suaves que flertam com a música eletrônica leve. O videoclipe reforçou o caráter onírico, tornando-a um dos momentos artísticos mais inspirados do trabalho.
O fecho do disco surpreende pelo tom infantil e lúdico. Com participação da cantora portuguesa Carminho, a canção “Os Peixinhos” funciona quase como uma cantiga de roda contemporânea. Para alguns críticos, um gesto de regressão pueril; para outros, uma piscadela à inocência que sempre atravessou o projeto. É, de qualquer forma, uma saída inesperada, que dissolve a seriedade das faixas anteriores em ludicidade.
A crítica especializada foi implacável em alguns casos. Alexandre Lucchese, do jornal Zero Hora, falou de um álbum “sem estranhamento e sem euforia”, enquanto Marco Aurélio Canônico, do jornal Folha de S. Paulo, considerou o trabalho “menos criativo, menos inspirado, menos necessário”. Helder Maldonado, do site R7, disse que as músicas “se arrastam” e soam herméticas, pouco inspiradas.
Por outro lado, houve vozes dissonantes. Adriana Del Ré, do jornal O Estado de S. Paulo, elogiou a manutenção do DNA tribalista, vendo nisso um alento em tempos de desencanto. E o público, que lotou arenas e estádios na turnê, parecia não se importar com a tibieza crítica: os Tribalistas voltavam a ser fenômeno de massas, capazes de transformar um show no Allianz Parque em DVD e especial de TV, capazes de encerrar o Lollapalooza como headliners — a primeira vez que artistas brasileiros alcançaram tal feito.
Essa dissonância talvez seja a chave para compreender o segundo álbum. Ele não pretendia revolucionar, mas sim reafirmar um lugar de afeto na música brasileira. Em um momento em que a MPB se via desafiada pela explosão do sertanejo universitário e do funk, os Tribalistas insistiam em um espaço de delicadeza, coletividade e, acima de tudo, paz.
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| Apresentação dos Tribalistas no Festival Lollapalooza, em 2019. |
Mais que isso, trouxe à tona o debate sobre como lidar com o peso do próprio mito. Repetir a fórmula seria preguiça? Ou uma forma de preservar a identidade? O disco talvez oscile entre ambos os polos. Há momentos em que parece se apoiar demais no passado, mas também há lampejos de reinvenção e uma coragem silenciosa de cantar mensagens humanistas em tempos cínicos.
O hiato anunciado em 2019 reforça a natureza episódica do grupo: os Tribalistas não são uma banda no sentido tradicional, mas uma reunião rara, quase ritual, de três forças criativas que, juntas, encontram uma voz coletiva singular. O álbum de 2017, com todos os seus limites, cumpre a função de manter esse elo vivo e de relembrar que, em meio ao barulho do mundo, ainda é possível cantar a comunhão.
O segundo Tribalistas não é um disco que muda a
história da MPB como o primeiro. Mas é um documento precioso de seu tempo, um
gesto de reencontro que mistura nostalgia, engajamento e ternura. Um álbum que
existe menos para reinventar e mais para reafirmar: que a beleza pode ser
simples, que o afeto pode ser político e que, às vezes, a música serve não para
incendiar, mas para acolher.
Faixas
1."Diáspora" (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown,
Marisa Monte)
2."Um Só" (Antunes, Brown, Monte, Brás Antunes)
3."Fora da Memória" (Antunes, Brown, Monte, Pedro
Baby, Pretinho da Serrinha)
4."Aliança" (Antunes, Brown, Monte, Pedro Baby,
Pretinho da Serrinha)
5."Trabalivre" (Antunes, Brown, Monte, Carminho)
6."Baião do Mundo" (Arnaldo Antunes, Carlinhos
Brown, Marisa Monte)
7."Ânima" (Antunes, Brown, Monte, Cezar Mendes)
8."Feliz e Saudável" (Arnaldo Antunes, Carlinhos
Brown, Marisa Monte)
9."Lutar e Vencer" (Arnaldo Antunes, Carlinhos
Brown, Marisa Monte)
10."Os Peixinhos" (com participação de Carminho)
(Antunes, Brown, Monte, Carminho)
Referências:
medium.com
musicainstantanea.com.br
wikipedia.org





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