Skank (Chaos/1993), Skank
No início dos anos 1990, o Brasil vivia um cenário musical curioso. As grandes gravadoras, fragilizadas pela crise econômica do país e pouco dispostas a arriscar em nomes novos, deixavam uma lacuna que os selos independentes tentavam ocupar com ousadia. Em Belo Horizonte, Minas Gerais, a cena era fértil: Sepultura já havia levado o metal mineiro para o mundo, e outros grupos experimentavam formatos distintos. Foi nesse caldo que surgiu o Skank, um quarteto que ousava propor algo inédito — transportar o calor do reggae e do ska jamaicanos para dentro da tradição pop brasileira, filtrando tudo por um espírito dançante, irreverente e ao mesmo tempo sofisticado. A estreia homônima do grupo, lançada de forma independente em 1992, não foi apenas um disco: foi um manifesto de fé no próprio som, um salto no escuro que acabaria redefinindo os rumos do pop nacional.
Antes da estreia em disco, é preciso voltar ao início da trajetória do Skank. Em 1983, Samuel Rosa (voz e guitarra) e Henrique Portugal (teclados) formaram a banda de reggae Pozo Alto do Reggae, ao lado dos irmãos Dinho Mourão (bateria) e Alexandre Mourão (baixo). O grupo permaneceu em atividade por cerca de oito anos, até que, em 1991, surgiu um convite para uma apresentação na casa de shows AeroAnta, em São Paulo. No entanto, pouco antes da viagem, os irmãos Mourão estavam fora de Belo Horizonte. Às pressas, o baixista Lelo Zaneti e o baterista Haroldo Ferretti foram chamados para substituir os dois.
Pouco antes do show, o quarteto decidiu mudar o nome da banda. A sugestão veio de um amigo, inspirado na canção “Easy Skanking”, de Bob Marley. O termo “skank” designa uma levada rítmica comum no ska, rocksteady e reggae, enquanto “skunk” é uma variedade da cannabis sativa. Assim, em 5 de junho de 1991, o grupo subiu ao palco do AeroAnta já como Skank, com dois novos integrantes e uma nova identidade.
A apresentação foi um sucesso, e o entrosamento instantâneo levou os quatro a decidirem seguir juntos. A partir daí, o Skank passou a circular pelo circuito alternativo de Belo Horizonte, mas também se apresentava em churrascarias e casas noturnas da capital mineira. Seu som, que unia reggae, ska, dancehall e música pop, começava a ganhar corpo e a projetar o caminho para a gravação do primeiro álbum.
Quando decidiram gravar seu primeiro álbum, o caminho escolhido foi tão ousado quanto simbólico: fazer tudo sozinhos, sem gravadora, e lançar direto em CD. Em 1992, isso equivalia a desafiar a lógica da indústria. Nem os músicos possuíam um aparelho de CD em casa, mas a aposta era clara: chamar atenção de rádios, jornalistas e quem mais estivesse disposto a ouvir.
O investimento de dez mil dólares resultou em uma tiragem inicial de três mil cópias. O lançamento não foi exatamente triunfal: no show de estreia, venderam apenas cerca de sessenta cópias, enquanto o quarto do empresário e produtor Fernando Furtado se enchia de pilhas encalhadas. Mas a história começou a virar rapidamente. As rádios mineiras abraçaram a novidade, algumas casas noturnas de outras capitais começaram a incluir o Skank em suas programações e, em apenas 45 dias, 1.200 cópias foram vendidas. O segredo de Belo Horizonte começava a romper fronteiras.
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| Banda Pozo Alto numa apresentação em Itabira, Minas Gerais, em 1989. Na imagem, dois futuros membros do Skank: o tecladista Henrique Portugal e o guitarrista e vocalista Samuel Rosa (ao centro). |
O álbum se abre com “Gentil Loucura”, parceria de Chico Amaral com Affonsinho, e já anuncia o clima: metais saltitantes, ritmo acelerado e uma alegria quase infecciosa, que apresentava de imediato o cartão de visitas do quarteto. “Gentil Loucura” era uma promessa de que o Skank vinha para resgatar o prazer da dança no pop brasileiro, sem medo do rótulo “leve”. Na sequência, “In(Dig)Nação” surge com outro peso: escrita para um trabalho do videoartista Eder Santos, acabou ganhando as ruas como hino das manifestações pelo impeachment de Fernando Collor, ocorrido em 1992. A fusão entre discurso político e levada reggae criou um momento raro em que a música pop brasileira dialogava diretamente com a história em curso, consolidando a canção como uma das mais emblemáticas do repertório inicial da banda mineira.
“Salto no Asfalto”, composta por Samuel e Fernando Furtado, traz um clima mais urbano, uma batida que parece condensar o corre-corre das cidades e a melodia que insiste em permanecer solar, quase como uma contradição. Já “Macaco Prego” acentua o lado irônico e brincalhão da banda, misturando crítica e humor em doses equilibradas, confirmando que o Skank não se levava a sério demais — e talvez aí residisse sua força.
A quinto faixa é uma das ousadias do disco: “Tanto (I Want You)”, versão de Chico Amaral para Bob Dylan. Transformar o folk ácido do menestrel norte-americano em reggae pop brasileiro poderia soar desastroso, mas a faixa se tornou um dos momentos mais icônicos da estreia. É aqui que Samuel Rosa demonstra sua habilidade em transitar entre a reverência ao original e a liberdade de recriá-lo, imprimindo identidade própria.
Em “O Homem Que Sabia Demais”, parceria de Samuel com Tavinho Paes e Fernando Furtado, o Skank mostra sua capacidade de criar hits de largo alcance. A canção, que mistura atmosfera misteriosa e ritmo envolvente, ganhou projeção nacional ao integrar a trilha da novela Olho no Olho (1993), da Rede Globo. De repente, aquele grupo mineiro independente invadia a sala de estar de milhões de brasileiros.
A sequência com “Let Me Try Again” reafirma a vocação do Skank para reinterpretar repertórios improváveis. Imortalizada na voz de Frank Sinatra no começo dos anos 1970, a canção ganha contornos de reggae elegante, quase como uma piscadela ao público que ainda tentava decifrar o alcance do quarteto. “Baixada News” e “Réu e Rei” reforçam a mistura de lirismo pop e crítica social, apresentando uma banda capaz de variar os temas sem perder unidade estética.
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| Skank em 1991. Da esquerda para a direita: Samuel Rosa, Henrique Portugal (atrás), Haroldo Ferretti e Lelo Zaneti. |
O impacto do disco não demorou a extrapolar Belo Horizonte. As vendas cresciam, os shows atraíam públicos de três a cinco mil pessoas e a imprensa começava a perceber o fenômeno. Em 1993, a Sony Music, em plena reformulação de sua equipe artística, decidiu lançar o selo Chaos e escolheu o Skank como sua primeira aposta. O álbum foi remixado no estúdio carioca Nas Nuvens por Paulo Junqueiro, a capa foi mantida e chegou às lojas em todo o Brasil. O salto foi imediato: das 3 mil cópias iniciais no lançamento independente, o disco passou a 250 mil unidades vendidas após o relançamento, um número impressionante para uma banda que, poucos meses antes, parecia restrita a bares mineiros.
A cobertura da imprensa consolidou a transformação. Revistas como a Bizz destacavam o frescor do som, ao mesmo tempo pop e crítico, romântico e festivo. O discurso era claro: o Brasil estava prestes a dançar ao som de uma banda que se tornava overnight sensation, mas com consistência artística para ir além do hype. E o público confirmava, comprando discos, lotando shows e transformando “In(Dig)Nação” em símbolo político e “O Homem Que Sabia Demais” em trilha sonora televisiva.
O que torna esse primeiro álbum tão relevante para a carreira do Skank não é apenas o sucesso comercial ou a entrada triunfal no mainstream, mas o fato de que ele já continha em embrião tudo o que viria a definir a trajetória da banda. A fusão entre reggae e pop, o uso criativo de metais, a parceria com Chico Amaral, a disposição de dialogar com repertórios alheios, a ironia no trato com temas cotidianos e a capacidade de transitar entre crítica social e romantismo estavam todos ali, no disco independente de 1992.
O legado é ainda mais nítido quando se olha para o passo seguinte. Se Calango (1994) consolidaria a “Skankmania”, com hits que venderiam mais de um milhão de cópias, foi o álbum de estreia que abriu a porta, pavimentou o caminho e mostrou às gravadoras que havia espaço para uma música pop dançante, brasileira e inteligente nos anos 1990. Ao escolher gravar em CD, o Skank antecipou uma tendência; ao apostar em versões de Bob Dylan e Jorge Ben, mostrou ousadia estética; ao transformar canções em hinos de rua e em hits televisivos, provou que sabia dialogar com diferentes esferas do público.
Hoje, ouvir esse primeiro álbum é revisitar um momento de transição: o Brasil deixava para trás a ressaca do rock dos anos 1980 e buscava novas linguagens para se expressar. O Skank ofereceu uma resposta possível, misturando festa e reflexão, pista de dança e engajamento político, reggae jamaicano e futebol brasileiro. Um cartão de visitas que não apenas apresentou uma banda promissora, mas abriu um capítulo inteiro da música nacional.
Faixas
Todas as faixas escritas e compostas por Samuel Rosa e Chico Amaral, exceto onde indicado.
1."Gentil Loucura" (Affonsinho / Chico Amaral)
2."In(Dig)Nação"
3."Salto no Asfalto" (Samuel Rosa / Fernando Furtado)
4."Macaco Prego"
5."Tanto" (I Want You) (Bob Dylan, versão Chico Amaral)
6."O Homem Que Sabia Demais" (Samuel Rosa / Tavinho Paes / Fernando Furtado)
7."Let Me Try Again" (Caravelli / M Jourdan / Paul Anka / Sammy Cahn)
8."Baixada News"
9."Réu e Rei"
10."Cadê o Pênalti?" (Jorge Ben Jor)
11."Caju Dub" ("Salto no Asfalto", versão instrumental) (Samuel Rosa / Fernando Furtado)
Skank: Samuel Rosa (vocal e guitarra), Henrique Portugal (teclados), Lelo Zaneti (baixo) e Haroldo Ferretti (bateria)
Referências:
Revista Bizz – edição 88, novembro/1992, Editora Azul, São Paulo, Brasil.
Revista Bizz – edição 92, março/1993, Editora Azul, São Paulo, Brasil.
musicainstantanea.com.br
skank.com.br
wikipedia.org
"Salto no Asfalto"
"Macaco Prego"
"Tanto"
"O Homem Que Sabia Demais"
"Let Me Try Again"
"Baixada News"
"Réu e Rei"
"Cadê o Pênalti?"



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