Entradas e Bandeiras (Som Livre, 1976), Rita Lee & Tutti Frutti
Entre o impacto avassalador de Fruto Proibido (1975) e a virada pop/funk de Babilônia (1978), Rita Lee atravessou 1976 como quem caminha sobre um terreno instável: grávida, perseguida pela ditadura, cansada de turnês intermináveis e ainda assim determinada a não ceder um milímetro de sua liberdade criativa. Entradas e Bandeiras, lançado em julho daquele ano pela Som Livre, não foi apenas mais um álbum de continuidade — foi o testemunho de uma artista que, mesmo acuada, insistia em cantar alto, transformar as cicatrizes do tempo em canções e manter viva a fagulha roqueira de sua parceria com a Tutti Frutti.
O disco nasceu no Estúdio Eldorado, em São Paulo, sob produção de Wagner Baldinato, em meio a tensões internas e ao desgaste físico da própria Rita. A Tutti Frutti já não era a mesma formação estável do início: Sérgio Della Monica entrava na bateria substituindo Franklin Paolillo, e as idas e vindas de músicos refletiam a atmosfera de um grupo em constante ebulição. A certa altura, Rita chegou a ser internada por stress, e a mixagem final do disco saiu sem sua presença, gerando atritos e resultando num som que, segundo críticos da época, soava “pasteurizado” em comparação com a energia crua que a banda entregava nos palcos.
Ainda assim, havia uma centelha ali. O disco vendeu cerca de 90 mil cópias, um número respeitável para o rock brasileiro em plena década de 1970, embora distante do estouro de Fruto Proibido. Foi recebido com frieza pela imprensa, mas trouxe algumas das canções mais reveladoras de Rita Lee — obras que, com o tempo, deixariam de ser vistas como secundárias para se tornar parte essencial da tapeçaria de sua carreira.
Falar de Entradas e Bandeiras é falar também de um Brasil sob censura e repressão. No auge da ditadura militar, Rita Lee foi presa em sua casa, grávida de Beto Lee, sob acusação de porte de maconha. A prisão não tinha apenas caráter policial: era um recado direto à juventude, uma tentativa de transformar a cantora em exemplo negativo. Para os generais, nada era mais perigoso do que uma mulher independente, irreverente, livre e com microfone na mão.
A fotografia de capa, feita no Parque do Ibirapuera, parece simples à primeira vista: Rita com um papagaio no ombro, colar exuberante no pescoço. Mas há histórias escondidas na imagem. O colar era emprestado da joalheria H. Stern e chegou ao ensaio escoltado por um segurança que não arredou pé até o fim da sessão — uma metáfora perfeita para aquele momento em que a liberdade artística da cantora estava sob vigilância constante.
A capa sintetiza a persona de Rita: ao mesmo tempo natural e glamourosa, debochada e sofisticada, guardando em cada detalhe o espírito de uma artista que transformava as próprias entradas e bandeiras — vitórias e derrotas, exposições e escudos — em espetáculo.
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| Rita Lee durante entrevista no Teatro Aquarius, em São Paulo, na qual fala sobre o show da turnê do álbum Entradas e Bandeiras, em 1976. |
Já “Lady Babel” troca a urgência pelo drama encenado. Rita encarna uma personagem perdida entre signos e metáforas, construindo uma espécie de fábula urbana que fala de ascensão e queda, de incompreensão e fama. Não é a faixa que o público levou para casa, mas é a que mostra o quanto Rita era capaz de transitar entre o lirismo e a caricatura, misturando rock com crônica, chanson com sátira. Um teatro disfarçado de canção, onde a própria voz é máscara.
O coração do disco, no entanto, pulsa em “Coisas da Vida”. Esquecem-se guitarras, esquecem-se malícias: é Rita sozinha ao piano, tocando no instrumento da mãe, como se a música fosse um gesto íntimo que atravessa gerações. É uma canção sobre perdas e escolhas, mas também sobre a coragem de se expor sem filtro, um instante raro em sua discografia em que a persona dá lugar à mulher. Críticos a resgataram depois como um dos pontos altos de sua obra, justamente por esse caráter de confissão delicada, um espelho onde o público se enxerga.
Quando surge “Bruxa Amarela”, o álbum muda de pele. Esta parceria de Raul Seixas e Paulo Coelho traz uma carga mística ao disco, reforçada por arranjos que cheiram a psicodelia tardia, com sinos tubulares e uma levada que flerta com o folk e o country. A letra mistura cotidiano e símbolos, como quem tenta decifrar enigmas ocultos nas coisas mais banais. É Rita atravessada pelo espírito de Raulzito, mas ainda filtrada por sua própria teatralidade: uma bruxa que provoca riso e arrepio ao mesmo tempo.
Em seguida, “Departamento de Criação” devolve a Tutti Frutti ao seu habitat: a crítica social travestida de ironia elétrica. Rita debocha da dependência da crítica, desafia a mesmice e transforma a falta de imaginação em matéria-prima de rebeldia. A banda responde em alta rotação, guitarras e baixo correndo lado a lado, bateria abrindo caminho como se a canção fosse manifesto de sobrevivência artística num mercado que insistia em engaiolar.
“Superstafa” mantém o motor ligado, mas agora com um peso mais próximo do hard rock setentista. Guitarras mais ásperas, teclados insinuantes e uma batida que pede o corpo inteiro. Rita canta os pequenos infortúnios do cotidiano com ironia, transformando tropeços em combustível criativo. O humor e a acidez andam juntos, como se a canção fosse um rascunho de blues urbano atravessado por guitarras elétricas.
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| Pôster do álbum Entradas e Bandeiras. |
“Posso Contar Comigo” exibe a Tutti Frutti como uma usina de rock cru. O baixo de Lee Marcucci e as guitarras de Carlini atravessam a faixa com fúria, ainda que a produção da época tenha achatado um pouco da potência. Rita canta a solidão como escolha, não como condenação, encontrando força no gesto de ser companhia de si mesma. A música vibra como trilha de estrada, libertária e firme.
Por fim, “Troca-Toca” fecha o álbum com groove e malícia. Rita retoma sua verve erótica, desafiando a moral conservadora com humor debochado. É uma celebração da liberdade do corpo, do desejo que se assume sem pudor, da arte como lugar de metamorfose. Uma canção que brinca com segredos e papéis trocados, como quem diz que a vida só vale quando se reinventa.
Entradas e Bandeiras se despede, assim, como um disco que não tem a coesão redonda de Fruto Proibido, mas carrega em cada faixa a chama da reinvenção. Rita Lee & Tutti Frutti aparecem aqui como artistas que, entre lirismo e deboche, entre piano e distorção, entre política e erotismo, encontraram um jeito singular de traduzir o Brasil dos anos 1970: inquieto, teatral, e sempre à beira do riso e do abismo.
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| Integrantes da banda Tutti Frutti. Em cima: Sérgio Della Mônica, Gilberto Nardo e Paulo Maurício. Embaixo: Rubens Nardo, Lee Marcucci e Luís Carlini. |
Comercialmente, o público respondeu timidamente: 90 mil cópias vendidas mantiveram Rita em patamar alto num mercado ainda desconfiado do rock em português, porém muito distante das 200 mil cópias de Fruto Proibido, marca alcançada no final de 1976. A prisão da cantora, amplamente noticiada, acabou transformando Entradas e Bandeiras em símbolo de resistência, mesmo que indiretamente.
Com o passar dos anos, a visão mudou. Relançamentos em vinil trouxeram de volta elogios a “Coisas da Vida” e a redescoberta de “Corista de Rock” como registro vibrante de palco. Hoje, o disco é visto não mais como peça secundária, mas como elo fundamental da trajetória que consolidaria Rita como rainha do rock brasileiro.
Se por uma lado Entradas e Bandeiras não tem a exuberância incontestável de Fruto Proibido nem a virada pop de Babilônia, o álbum carrega em si a beleza dos álbuns que nascem da tensão: entre liberdade e repressão, palco e prisão, maternidade e rock and roll.
Revisitado hoje, Entradas e Bandeiras revela camadas sutis: a Rita introspectiva do
piano em “Coisas da Vida”, a Rita debochada em “Troca-Toca”, a Rita resistente
em “Com a Boca no Mundo”, a Rita visionária que, mesmo vigiada de perto, seguia
criando. Após tantas décadas desde o seu lançamento, ouvir Entradas e
Bandeiras é enxergar Rita Lee em pleno voo, ainda que em céu
turbulento. Um álbum que não grita tanto quanto o anterior, mas sussurra
verdades que só o tempo foi capaz de amplificar.
Faixas
Lado 1
1."Corista de Rock" (Luis Sérgio Carlini / Rita
Lee)
2."Lady Babel" Lee Marcucci / Luís Sérgio Carlini /
Rita Lee)
3."Coisas da Vida" (Rita Lee)
4."Bruxa Amarela" (Paulo Coelho / Raul Seixas)
5."Departamento de Criação" (Lee Marcucci / Luís
Sérgio Carlini / Rita Lee)
Lado 2
6."Superstafa" (Lee Marcucci / Luís Sérgio Carlini
/ Paulo Coelho)
7."Com a Boca no Mundo (Tico-tico)" (Lee Marcucci /
Luís Sérgio Carlini / Rita Lee)
8."Posso Contar Comigo" (Lee Marcucci / Luís Sérgio Carlini / Paulo
Coelho)
9."Troca-toca" (Rita Lee)
Ficha técnica
Rita Lee (violão acústico, flautas do xingu, piano base em
"Coisas da Vida")
Tutti Frutti:
Luís Sérgio Carlini – (guitarras ritmo, solo, slide,
havaiana, talk box, craviola, gaita, percussão)
Lee Marcucci – (baixo, percussão)
Paulo Maurício – (teclados, sintetizador (cordas e metais),
vocais)
Sergio Della Monica – (bateria, percussão, tubular bells)
Rubens Nardo – (vocais, percussão)
Gilberto Nardo – (vocais, percussão)
Referências:
clicrbs.com.br
musicainstantanea.com.br
terra.com.br
wikipedia.org




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