Danado de Bom (RCA,1984), Luiz Gonzaga


Por Sidney Falcão

Nos primeiros anos da década de 1980, Luiz Gonzaga parecia condenado a viver apenas da memória. O artista que, nos anos 1940 e 1950, havia monopolizado as prensas da RCA e era capaz de transformar a sanfona em emblema nacional, via-se reduzido a um circuito regional, tocando quase sempre para plateias nordestinas. O mercado fonográfico estava saturado de pop internacional, a MPB urbana dominava o gosto das gravadoras, e até os forrós de raiz cediam espaço a arranjos diluídos e guitarras envernizadas que soavam estranhas ao velho baião.

A situação era dramática: há quatro anos Gonzaga dava prejuízo à RCA, e seu nome figurava na lista de artistas prestes a serem dispensados. Foi nesse momento que surgiu a figura de Oséas Lopes, ex-Trio Mossoró, então produtor da gravadora. Lopes acreditava que Gonzaga ainda tinha uma voz poderosa a oferecer, mas que precisava ser resgatada em sua pureza, sem os disfarces de modernização. Assumindo a produção do novo disco, prometeu aos executivos da gravadora que o sanfoneiro poderia voltar a vender bem se fosse ouvido em sua essência.

Essa essência, segundo Onildo Almeida, amigo e compositor pernambucano, estava justamente em abandonar a maquiagem sonora e retornar ao que fazia de Gonzaga único: a força do matuto, do chapéu de couro, da sanfona como guia. Foi nesse clima de urgência e fé que nasceu Danado de Bom, lançado em 1984. Um álbum que, além de devolver Gonzaga ao centro do debate cultural brasileiro, lhe trouxe algo inédito: o primeiro Disco de Ouro de sua carreira.

Se Danado de Bom tem uma espinha dorsal, ela atende pelo nome de João Silva. O compositor de Arcoverde, estado de Pernambuco, filho de casa de taipa, autodidata, já vinha colaborando com Gonzaga desde os anos 1960, mas foi aqui que suas composições se tornaram centrais. Das treze faixas do disco, quatro eram suas — e coincidentemente, as mais executadas no rádio.

Silva entendia como poucos o ritmo, a cadência e a linguagem popular que Gonzaga queria recuperar. Era um compositor de feira e de festa, alguém que transformava a fala coloquial em refrão coletivo. “Pagode Russo”, que havia sido lançado como instrumental em 1947, renasceu com letra matuta, brincando com as palavras e o riso do povo. “Danado de Bom” virou quase um slogan, uma declaração de vitalidade. “São João Sem Futrica” e “Sanfoninha Choradeira” completavam o arsenal, reafirmando que o forró ainda tinha chão, sanfona e coração para atravessar gerações.

Em um movimento astuto, Luiz Gonzaga abriu o álbum Danado de Bom com "Pagode Russo". Embora a melodia já fosse conhecida desde os anos 1940, a nova letra de João Silva a transformou em um hino de festa, com a sanfona de Gonzaga servindo não apenas como instrumento, mas como a gargalhada e o som dos pés batendo no chão. Essa canção define o tom do disco: uma celebração da vida e da música que sempre esteve presente em sua obra.

Compositor João Silva, autor de "Pagode Russo", "Danado de Bom",
"Sanfoninha Choradeira" e "São João Sem Futrica". 

Na sequência, em "Respeita Januário", ele faz um pot-pourri com três de seus sucessos: a própria "Respeita Januário", "Riacho do Navio" e "Forró no Escuro", com a participação de Raimundo Fagner. A presença do músico cearense dá um frescor a essas músicas clássicas, reforçando a conexão entre mestre e discípulo e mostrando a longevidade da música do “Rei do Baião”.

A faixa-título, "Danado de Bom", é a alma do disco. É Gonzaga rindo de sua própria jornada, de sua resistência. O refrão, que se espalhou pelo país, celebra sua volta triunfal aos holofotes, com uma participação especial de Elba Ramalho na introdução, unindo gerações em um só som.

A emoção atinge o auge em "Pense N'eu", o dueto com seu filho, Gonzaguinha. A música, que já era uma canção de afeto, se torna um símbolo de reconciliação e esperança nas vozes de pai e filho. A letra, com seus versos de mudança, reflete o contexto político da época, com a luta por eleições diretas no Brasil. Essa faixa é um lembrete de que, por trás da grandiosidade artística, existia uma relação humana, complexa e amorosa.

Em "Nessa Estrada da Vida", Gonzaga retorna ao tema do homem simples e sua jornada, com a sanfona funcionando como uma companheira fiel que ecoa as realidades da vida. Em seguida, "Regresso do Rei" é uma ode ao retorno ao sertão, uma celebração das raízes e da resistência nordestina. A canção é um testemunho da memória afetiva e da importância de Gonzaga como o verdadeiro rei do baião.

A parceria com Elba Ramalho retorna em "Sanfoninha Choradeira", uma canção que une a voz do veterano à da juventude. A melodia é pura ternura, com a sanfona "chorando" de alegria e saudade, revelando segredos do coração em um dueto cheio de paixão e desejo. A alegria continua com "Casamento de Rosa", um clássico forró que reafirma a tradição do Rei do Baião e celebra a festa sertaneja em toda a sua riqueza.

O álbum segue com a celebração junina de "Aproveita Gente" e "São João Sem Futrica", que exaltam a dança e a festa comunitária do sertão, mostrando a autenticidade das celebrações do interior em contraposição às urbanas. O disco então toma um rumo mais reflexivo com "Terra, Vida E Esperança", uma faixa sobre a dureza do sertão, a seca e a fome, mas que também traz a fé na chuva e na fartura.

Na reta final do disco, o clássico "Adeus, Iracema" ganha uma nova vida com a participação de Dominguinhos e Gonzaguinha. A jangada, a saudade e a poética despedida da terra natal transformam a música em um momento de passagem, de continuidade.

Por fim, o álbum Danado de Bom se encerra com a homenagem pessoal de "Lula, Meu Filho", uma canção carregada de afeto e simplicidade, um lembrete de que, por trás do ícone, havia um pai que incentivava seu filho a não se esquecer de suas raízes. O disco é uma joia atemporal, que combina a vitalidade e a inovação de um artista que, em 1984, mostrou que o rei ainda estava no trono.

Filho e pai: Gonzaguinha faz dueto com Luiz Gonzaga na
emocionante "Adeus, Iracema".

O lançamento de Danado de Bom foi recebido com surpresa. A crítica, que havia relegado Gonzaga a um folclore distante, reconheceu nele a força de um artista que sabia se reinventar sem trair sua raiz. A imprensa destacou o retorno vigoroso do forró tradicional e a importância das parcerias com João Silva, Elba Ramalho, Fagner, Dominguinhos e Gonzaguinha, que davam ao álbum o caráter de encontro de gerações.

Comercialmente, foi um estouro. O álbum Danado de Bom vendeu 100 mil cópias em menos de três meses de lançamento, dando a Luiz Gonzaga o seu primeiro Disco de Ouro. Mas as vendas foram além: ultrapassou a marca de 600 mil e, em pouco tempo, o álbum chegou a vender pouco mais de 1,3 milhão de cópias, algo inédito na longa trajetória de Gonzaga. As vendas extraordinárias do disco foram puxadas pelos sucessos radiofônicos das faixas “Pagode Russo”, “Sanfoninha Choradeira”, “Pensa N’Eu”, o pot-pourri com Fagner e a faixa-título.

O sucesso comercial de Danado de Bom levou Luiz Gonzaga a receber o Prêmio Shell, até então entregue apenas a nomes como Pixinguinha, Dorival Caymmi e Tom Jobim, e ganhou o Nipper de Ouro, homenagem internacional da RCA. Não bastassem esses prêmios, o disco salvou seu contrato com a gravadora, provando que ainda havia público — e muito — para o som da sanfona.

Danado de Bom foi o ponto de inflexão que garantiu a Gonzaga mais uma década de vitalidade artística. Mostrou que, mesmo em meio ao domínio do pop estrangeiro e das experimentações urbanas da MPB, o baião tinha fôlego e público.

Mais do que um sucesso de vendas, o álbum se tornou símbolo de resistência cultural. Foi a vitória de um septuagenário que, em vez de se acomodar na nostalgia, reafirmou sua atualidade. Foi também a consagração de João Silva como parceiro decisivo, responsável por fornecer a Gonzaga algumas de suas últimas grandes canções.

Quando se fala em discos de retorno na música brasileira, de superação, poucos têm a força simbólica de Danado de Bom. Ele é, ao mesmo tempo, celebração e reinauguração, testemunho de que a música popular não precisa se render às modas passageiras para continuar relevante. Gonzaga, com seu chapéu de couro e sua sanfona, provou em 1984 que ainda era capaz de incendiar o Brasil inteiro — danado de bom como sempre foi.

Faixas

Lado 1

01. "Pagode Russo" (Luiz Gonzaga / João Silva)

02. "Respeita Januário" (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira), "Riacho do Navio" (Luiz Gonzaga / Zé Dantas), "Forró no Escuro" (Luiz Gonzaga): participação especial de Fagner

03. "Danado de Bom" (Luiz Gonzaga / João Silva)

04. "Pense N’eu" (Gonzaguinha) Participação: Gonzaguinha

05. "Nessa Estrada da Vida" (Valdi Geraldo / Aparecido José)

06. "Regresso do Rei" (Luiz Gonzaga / Onildo Almeida)

 

Lado 2

07. "Sanfoninha Choradeira" (Luiz Gonzaga / João Silva) Participação: Elba Ramalho

08. "Casamento de Rosa" (Luiz Gonzaga / Zé Dantas)

09. "Aproveita Gente" (Onildo Almeida)

10. "São João Sem Futrica" (João Silva / Zé Mocó)

11. "Terra, Vida E Esperança" (Jurandy da Feira)

12. "Adeus, Iracema" (Luiz Gonzaga / Zé Dantas) Participação: Dominguinhos / Gonzaguinha

13. "Lula, Meu Filho" (Luiz Gonzaga / Aguinaldo Batista)

 

Referências:

O fole roncou!: Uma história do forró  Carlos Marcelo, Rosualdo Rodrigues, 2012, Editora Zahar.

carlosromero.com.br

forroemvinil.com

novabrasilfm.com.br

potiguarnoticias.com.br 


Ouça na íntegra o álbum Danado de Bom.

"Danado de Bom" - Luiz Gonzaga e 
Elba Ramalho (Luiz Gonzaga Especial - 
Danado de BomTV Globo,1984)

 
"Respeita de Januário"/"Riacho do Navio"/
"Forró no Escuro" Luiz Gonzaga e Fagner 
(Luiz Gonzaga Especial - Danado de Bom
TV Globo,1984)

"Pagode Russo" - Luiz Gonzaga
(Luiz Gonzaga Especial - Danado de Bom
TV Globo,1984)

"Danado de Bom" - Luiz Gonzaga
(Luiz Gonzaga Especial - Danado de Bom
TV Globo,1984)

"Pensa N'Eu" - Luiz Gonzaga e Gonzaguinha
(Luiz Gonzaga Especial - Danado de Bom
TV Globo,1984)

"Terra, Vida e Esperança" - Luiz Gonzaga
(Luiz Gonzaga Especial - Danado de Bom
TV Globo,1984)

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