Stories From The City, Stories From The Sea (Island Records, 2000), PJ Harvey
Nascida na zona rural de Dorset, na Inglaterra, Polly Jean Harvey, ou simplesmente PJ Harvey, sempre fez do desconforto um motor criativo. Nos anos 1990, com os álbuns Dry (1992), Rid Of Me (1993) e To Bring You My Love (1995), ela esculpiu um universo sonoro tenso e visceral, onde letras carregadas de dor e isolamento se misturavam a arranjos minimalistas e uma estética sombria. Mas eis que, em Stories From The City, Stories From The Sea, seu quinto álbum, PJ Harvey dá uma guinada. O disco não abandona totalmente os temas sombrios, mas adota um tom mais melódico e expansivo – um raro momento de respiro em sua discografia.
A mudança de ares foi determinante nessa guinada. Harvey passou um tempo em Nova York, e a cidade pulsante deixou marcas profundas em sua música. O caos vibrante da metrópole contrastava com as paisagens bucólicas de Dorset, onde ela cresceu e ainda mantém raízes. Esse embate entre concreto e natureza, cidade e mar, se traduz não só no título do álbum, mas também na sua sonoridade – um equilíbrio entre urgência urbana e contemplação.
Stories From The City, Stories From The Sea equilibra a visceralidade de PJ Harvey com uma nova abordagem melódica. As guitarras, sempre protagonistas em sua música, aparecem mais limpas e definidas, um contraste direto com a distorção crua de seus trabalhos anteriores. A produção, assinada ao lado de Rob Ellis e Mick Harvey, aposta na clareza e na precisão, permitindo que cada detalhe instrumental e vocal brilhe sem ruídos desnecessários.
O disco começa com "Big Exit", onde riffs intensos sustentam versos sobre desespero e fuga – um cartão de visitas que já deixa claro o tom do álbum, oscilando entre a melancolia e a esperança. "Good Fortune" acelera o ritmo, traz um refrão pegajoso e reflete a energia vibrante de Nova York. Já "A Place Called Home" desacelera para um momento mais introspectivo, embalado por um clima de saudade e busca por pertencimento, temas sempre presentes no universo de Harvey.
Entre os grandes momentos do álbum, “This Mess We're In” se destaca. O dueto com Thom Yorke, do Radiohead, combina uma melodia etérea com versos carregados de poesia, resultando em um dos trechos mais emocionantes do disco. A parceria não só adiciona mais profundidade à faixa, mas também simboliza o encontro de duas das vozes mais influentes do rock alternativo da época.
Já “This Is Love” vai pelo caminho oposto. Direta, energética e recheada de desejo, a música traz um Harvey mais desinibida, trocando a introspecção por um espírito quase hedonista. Mas, como sempre em sua obra, a felicidade nunca vem sem um fio de tensão. A euforia tem um quê de efemeridade, como se a qualquer momento pudesse se desfazer.
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| Detalhe do encarte do álbum com imagens de PJ Harvey num estúdio de gravação. |
A dualidade transparece em faixas como “The Whores Hustle and the Hustlers Whore”, um retrato cru de prostituição, vício e decadência, e em “We Float”, uma balada melancólica que, apesar do tom introspectivo, carrega um fio de esperança. Harvey não teme os cantos mais escuros da psique humana, mas sabe que até no caos pode haver beleza – e significado.
Stories From The City, Stories From The Sea representa um marco na carreira de PJ Harvey. Se seus álbuns anteriores foram marcados por uma estética gótica e exploraram temas de dor e solidão, este disco revela uma artista mais madura, confiante e aberta a novas sonoridades. A sonoridade mais pop e acessível não significa uma ruptura com sua essência; ao contrário, ela consegue incorporar essa nova direção sem perder a profundidade e complexidade que sempre a caracterizaram.
A mudança de Harvey também soa como uma resposta às expectativas que sempre cercaram sua imagem. A etiqueta de "mulher castradora e amarga" que muitos tentaram colar nela nunca a definiu por completo. Em Stories From The City, Stories From The Sea, ela parece mais livre para explorar suas múltiplas facetas. Harvey já não se prende à exigência de ser uma coisa ou outra – ela pode ser sombria e luminosa, crua e delicada, tudo ao mesmo tempo.
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| Detalhe do encarte do álbum de um imagem com um conjunto de fotos do processo de gravação de Stories From The City, Stories From The Sea. |
O disco sintetiza com perfeição o que PJ Harvey representa como artista: alguém disposta a encarar os cantos mais sombrios da experiência humana, mas capaz de enxergar beleza e significado até nas situações mais desafiadoras. Stories From The City, Stories From The Sea é uma celebração da vida em toda a sua complexidade, o reflexo de uma artista em constante evolução, que se recusa a se acomodar nas fórmulas que fizeram seu sucesso.
Com sua mistura única de crueza e melodia, luz e sombra, o álbum não só figura entre os melhores da carreira de Harvey, mas também é um dos mais importantes da música alternativa dos anos 2000. Passados mais de vinte anos, continua a ressoar com ouvintes, reafirmando o talento e a visão de uma das artistas mais fascinantes da música contemporânea.
Faixas
Todas as faixas são escritas por PJ Harvey.
- "Big Exit" – 3:51
- "Good Fortune" – 3:20
- "A Place Called Home" – 3:43
- "One Line" – 3:14
- "Beautiful Feeling" – 4:00
- "The Whores Hustle and the Hustlers Whore" – 4:01
- "This Mess We're In" – 3:57
- "You Said Something" – 3:19
- "Kamikaze" – 2:24
- "This Is Love" – 3:48
- "Horses in My Dreams" – 5:38
- "We Float" – 6:07
Referências:
Revista Bizz, edição 186, janeiro/2001, Editora Símbolo, São Paulo, Brasil.
Revista Bizz, edição 188, março/2001, Editora Símbolo, São Paulo, Brasil.
pjharvey.net
wikipedia.org



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