“Cantando no Banheiro” (Polydor, 1982), Eduardo Dusek
Eduardo
Dusek ganhou projeção nacional em 1980, quando participou do Festival MPB
Shell, promovido pela Rede Globo de Televisão. Naquela edição do festival, ele
participou com a canção “Nostradamus”, trajando fraque, cartola, cueca e
asinhas de anjos. A música fala de um sujeito que acordou de ressaca e percebe
que o estava acabando. Embora não tenha vencido o festival, Dusek foi uma das
revelações do evento e já mostrava para o público que a irreverência e o bom
humor eram as credenciais como artista.
Mas até
chegar até ali cantando aquela canção “apocalíptica” cheia de ironia e deboche,
Dusek percorreu um longo caminho. Nascido no primeiro dia de janeiro de 1954
(apesar de alguns afirmarem que ele nasceu em 1958), no Rio de Janeiro, filho
de mãe húngara e de pai tcheco, Eduardo Gabor Dusek estudou piano ainda muito
jovem na Escola Nacional de Música, na sua cidade natal. Em 1973 começou a sua
carreira artística como pianista na peça Desgraça de Uma Criança, de
Martins Pena (1815-1848), pioneiro da comedia teatral no Brasil, e que na
ocasião tinha naquela montagem Marco Nanini, Marieta Severo e Camila Amado
(1938-2021).
Em 1978,
firma parceria com o compositor, escritor e dramaturgo Luiz Carlos Góes
(1945-2014). A partir de então, compuseram juntos canções que foram gravadas
pelos mais diversos artistas como Ney Matogrosso, Frenéticas, Zizi Possi e
Maria Alcina. Naquele mesmo ano de 1978, Dusek lançou através da RCA Victor o
seu primeiro compacto (single) com as canções “Não Tem Perigo” e “Apelo da
Raça”, mas não causa nenhuma repercussão.
Porém, dois
anos depois, em 1980, fica conhecido do grande público quando participa da
primeira edição do Festival MPB Shell, promovido pela Rede Globo com a já
citada “Nostradamus”. No ano seguinte, Dusek assina contrato coma gravadora
Polydor e lança o seu primeiro álbum, Olhar Brasileiro, um
trabalho em que o cantor expõe toda a sua irreverência e humor teatral através
de letras inteligentes e uma fusão de ritmos musicais que mistura choro, samba
dos anos 1930, bolero, tango, samba-canção e marchinha de carnaval.
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Capa de Olhar Brasileiro, primeiro álbum de Eduardo Dusek. |
Em janeiro de 1982, Eduardo Dusek assiste na casa noturna, Noites Cariocas, no Morro da Urca, no Rio de Janeiro, a apresentação de uma banda ainda amadora inspirada no rock’n’roll dos anos 1950, tanto no figurino quanto no som, e numa performance cheia de irreverência. Era a banda João Penca & Seus Miquinhos Amestrados (na época, formada por oito integrantes) abrindo o show da Gang 90 & As Absurdettes. Dusek ficou bastante impressionado com a performance daquele bando de malucos, e foi até o camarim para cumprimenta-los e fazer convite ao grupo para trabalhar com ele. Há quem afirme que quando foi ao camarim, Eduardo Dusek estaria bêbado. Dias depois, o grupo teria telefonado para Dusek para tratar da proposta, porém, o cantor, já sóbrio, disse que não lembrava de nada. Mas a confusão foi contornada, e Dusek decidiu cumprir com a promessa.
A princípio,
Dusek tinha em mente fazer um espetáculo baseado na estética rock’n’roll do
João Penca & Seus Miquinhos Amestrados e na musicalidade teatral do cantor.
Depois, a coisa evoluiu para a gravação de um disco dividido, uma parte com
Dusek e outra com João Penca & Seus Amestrados.
No entanto,
quem não gostou da ideia do disco foi a gravadora, que de imediato, vetou a
gravação de Eduardo Dusek gravar um álbum meio a meio com João Penca & Seus
Miquinhos Amestrados. E o que tornava a ideia absurda para a companhia, era que
os Miquinhos ainda era muito “amadores”, enquanto que Dusek, embora jovem, já
tinha um lastro de experiência mais sólido, pois já composta canções pra o
teatro, teve composições gravadas por outros artistas e tinha um álbum gravado
no currículo.
E a bem da
verdade, a Polydor tinha alguma razão. Naquele momento, a banda era muito
inexperiente. Tinha muita gana, mas tecnicamente tocava muito mal. Coube aos
Miquinhos ter apenas duas músicas da banda gravada por Dusek para o disco,
“Rock da Cachorra” e “Enfant Terrible”, e fazer o coro em sete faixas. Por
pressão da gravadora, as bases tocadas pelos Miquinhos foram refeitas por
músicos mais experientes. As gravações do disco tiveram outros aborrecimentos:
oito das dez faixa do disco forma censuradas, mas liberadas gradativamente até
o lançamento do álbum.
Naquele
mesmo ano de 1982, Eduardo Dusek inscreveu a canção “Valdirene, A Paranormal”
(de Eduardo Dusek e Luiz Carlos Góes), na terceira edição do Festival MPB
Shell, promovido pela TV Globo. Dusek iria se apresentar com o João Penca &
Seus Miquinhos Amestrados cantando a canção. No entanto, por algum motivo, se
deram conta que não ensaiaram o suficiente, a tempo de se apresentarem no
festival. Por causa disso, no dia da apresentação, deram uma desculpa
esfarrapada e, ao invés de tocarem “Valdirene, A Paranormal”, Dusek e a banda
se apresentaram com “Barrados No Baile”. A comissão julgadora do festival não
perdoou: desclassificou Eduardo Dusek e os Miquinhos.
Se a
petulância de Dusek e dos Miquinhos custaram a eles a desclassificação, por
outro atraiu a atenção do público. “Barrados No Baile". Caiu nas graças do povo.
A Polydor não pensou duas vezes, e antes do previsto, lançou o single com
“Barrados No Baile”, e no lado B a balada “Cabelos Negros”, enquanto que o
segundo álbum de Dusek, que vai contar com as duas músicas, estava em processo
de finalização. “Barrados No Baile” estourou nas paradas de rádio de todo o
Brasil, sendo uma das primeiras músicas, juntamente com “Você Não Soube MeAmar”, da Blitz, e “Garota Dourada”, do Rádio Táxi, a abrir espaço na grande
mídia para o novo momento do rock brasileiro que estava por vir.
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Contracapa do álbum Cantando no Banheiro, em que aparecem Eduardo Dusek e João Penca & Seus Miquinhos Amestrados. |
Em meio ao
sucesso do single de “Barrados No Baile” e da expectativa para o lançamento do
segundo álbum de estúdio, Eduardo Dusek sofre um acidente em outubro de 1982,
ao perder a direção da sua picape, quando retornava de Minas Gerais. Eduardo
Dusek sofreu escoriações no rosto. Das quatro pessoas que estavam no veículo,
uma faleceu, e era um grande amigo de Dusek. Essa morte do amigo abalou
emocionalmente do cantor. O período de convalescência levou Dusek a repensar a
sua carreira, a tal ponto dele romper a parceria com os Miquinhos.
Intitulado
Cantando no Banheiro, o segundo álbum de Eduardo Dusek foi lançado no final de
1982. Embora a gravadora tenha vetado a ideia do disco ser lançado como um
trabalho dos dois artistas (cantor e banda) conforme originalmente havia sido
pensado, Cantando no Banheiro musicalmente é um casamento perfeito do humor
debochado e teatral de Eduardo Dusek com o escracho roqueiro e juvenil de João
Penca & Seus Miquinhos Amestrados.
A parceria
de Dusek com os Miquinhos no álbum com Cantando no Banheiro, fez com que o
cantor carioca se inclinasse para o rock para o pop. As novas referências no
trabalho de Dusek, foram injetadas na musicalidade brasileira que o artista já
tinha. Por isso é possível encontrar em Cantando no Banheiro, desse rock’n’roll
ao estilo anos 1950 a baião com “vernizes” de música pop, passando pop funk,
samba e a velha e boa marchinha de carnaval, esta última, uma das principais
influências na formação musical de Eduardo Dusek.
Cantando no
Banheiro traz também um Eduardo Dusek com um novo visual. O cantor cortou os
longos cabelos e raspou barba, e adotou um figurino new wave. A inspiração da
estética new wave está presente também na capa e contracapa do álbum, que
mostra não apenas Eduardo Dusek, mas também a banda João Penca & seus
Miquinhos Amestrados, talvez como uma forma de compensação pelo fato da ideia
do álbum ser creditado como um trabalho do cantor e da banda ter sido vetada
pela gravadora.
Apesar da
inclinação para o rock e o pop, e a mudança visual, o que permaneceu na arte de
Dusek foi o seu humor inteligente, teatral e debochado. Esse não sumiu e está
presente em Cantando no Banheiro, e já na primeira faixa, a que dá nome ao
álbum, um rock’n’roll bem ao estilo Jerry Lee Lewis que nas entrelinhas de seus
versos trata sobre masturbação. Enquanto um jovem se tranca no banheiro
centrado no seu prazer, seus familiares se desesperam do lado de fora querendo
entrar: “Não adianta Ninguém da família pedir pra entrar / Eu não pretendo
nenhum dos meus hábitos modificar / A minha irmã diz que tá apertada, fica
falando que tá por um triz / O que é que eu faço se é no banheiro que eu me
sinto feliz?”
Com um balanço sutilmente funk, “Não Minta Vovó” é um tanto quanto misteriosa. É sobre um neto apavorado com um telefonema atendido por sua avó. Alguém misterioso do outro lado do fio está à procura dele. Estaria esse neto envolvido em algum crime ou sendo perseguido por algum agente da ditadura militar?
A já
conhecida “Barrados no Baile” é a principal faixa do álbum e um dos maiores
sucessos da carreira de Eduardo Dusek. “Barrados no Baile” é um rock new wave
cuja letra versa sobre um casal metido a besta que tenta entrar numa festa de
ricos sem ser convidado, mas é barrado por um segurança.
“O Problema
do Nordeste (Caatingatur)” é um baião pop que, na visão de alguém chic, esnobe
e que não vivencia as mazelas do sertão do nordeste brasileiro, propõe
“soluções” para os problemas do lugar: “Dona Florinda eu não sei / Porque é
que os políticos, não / Azulejam logo o nosso sertão / Pois com um pouquinho
mais de bom gosto / Um pouquinho mais de know-how / Não seria esse desgosto,
este tosco visual”. No fundo, a letra é uma crítica àquela parcela da
população brasileira (sobretudo do sul e sudeste)que, sem conhecer, sem
vivenciar a realidade profunda daquela região, têm uma visão superficial e
preconceituosa da condição social e climática daquele lugar.
Fechando o
lado 1 do álbum, “Rock da Cachorra”, de Léo Jaime, um rock’n’roll bem ao esilo anos
1950 que propõe que os donos de cães troquem seus animais por crianças pobres: “Tem
muita gente por aí / Que tá querendo levar / Uma vida de cão / Eu conheço um
garotinho / Que queria ter nascido pastor-alemão”.
O lado 2
começa com “Cabelos Negros”, que já havia sido lançada antes como lado B do
single de “Barrados no Baile”. “Cabelos Negros” é a única balada do álbum e a
canção mais séria dentre as dez faixas. Tão conhecido pelas músicas debochadas,
a canção revela uma outra faceta de Eduardo Dusek, a do cantor romântico. Os
Miquinhos participam nesta faixa fazendo os vocais de fundo e de maneira
“comportada”.
Depois do
romantismo de “Cabelos Negros”, o clima fica animado com o samba “Me Dá
Copacabana”, que começa curiosamente com sons futuristas de sintetizadores. A
letra parece tratar sobre a vida cotidiana no badalado bairro carioca de
Copacabana, onde Eduardo Dusek nasceu e foi criado.
Composta por
Léo Jaime e Tavinho Paes, “Enfant Terrible” é uma canção nitidamente gay. Traz
a história de um jovem adolescente apaixonado pelo seu professor que, para
chamar a atenção dele, vai para a escola vestindo um maiô. Nesta música, Dusek
faz dueto com o miquinho Léo Jaime, coautor da música.
“Quero Te
Beber No Gargalo” é uma marchinha de carnaval que é uma metáfora para o sexo
oral, enquanto que “Luzes Na Estrada” encerra o álbum, uma música que teria
sido baseada numa experiência vivida por Eduardo Dusek em que teria feito
contato com seres extraterrestres.
Cantando
no Banheiro tornou
Eduardo Dusek bastante conhecido. Além de “Barrados no Baile”, as faixas “Rock
da Cachorra” e “Cabelos Negros” também fizeram grande sucesso radiofônico. O
sucesso do álbum Cantando no Banheiro não foi bom apenas para
Dusek, mas também para a banda João Penca & Seus Miquinhos Amestrados
ganhou visibilidade perante o público. Em 1983, a banda assinou contrato com a
gravadora Barclay, e lançou o seu primeiro álbum de estúdio, Os Maiores
Sucessos de João Penca & Seus Miquinhos Amestrados (que apesar do
título, não se trata de uma coletânea de sucessos) e que contém o hit “Calúnias (Telma, Eu Não Sou Gay)”, uma
versão em português de “Tell me Once Again”, da Light Reflections, e que contou
com a participação especial de Ney Matogrosso.
Uma
curiosidade é que o cantor nos anos 1990, Eduardo Dusek alterou o seu sobrenome
ao acrescentar mais um “S”. A mudança ocorreu para que pronunciassem a forma
correta o sobrenome e também houve uma questão de numerologia, que indicaria
boas energias.
Faixas
Lado 1
- "Cantando No Banheiro" (Eduardo Dussek)
- "Não Minta Vovó" (Luiz Antônio de Cássio / Eduardo Dussek)
- "Barrados no Baile" (Luiz Antônio de Cássio / Eduardo Dussek)
- "O Problema do Nordeste (Caatingatur)" (Luiz Antônio de Cássio / Eduardo Dussek)
- "Rock da Cachorra" (Leo Jaime)
Lado 2
- "Cabelos Negros" (Luiz Antônio de Cássio / Eduardo Dussek)
- "Me Dá Copacabana" (Eduardo Dussek)
- "Enfant Terrible" (Leo Jaime / Tavinho Paes)
- "Quero Te Beber No Gargalo" (Luiz Carlos Góes / Eduardo Dussek)
- "Luzes na Estrada" (Luiz Antônio de Cássio / Eduardo Dussek)
Referências:
Dias de Luta: o rock e o Brasil dos anos 80 – Ricardo Alexandre, Arquipélago
Editorial, 2013
oglobo.globo.com
"Cantando No Banheiro"
"Não Minta Vovó"
"Barrados no Baile" (videoclipe exibido no
"Fantástico",TV Globo, '983)
"O Problema do Nordeste
(Caatingatur)"
"Rock da Cachorra"
"Cabelos Negros"
"Me Dá Copacabana"
"Enfant Terrible"
"Quero Te Beber No Gargalo"
"Luzes na Estrada"
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