“Ronaldo Foi Pra Guerra” (RCA Victor, 1984), Lobão e Os Ronaldos
Lobão andava
na maior maré de azar no final do ano de 1982. Enquanto a sua ex-banda, a
Blitz, estava no topo das paradas, lotava shows e tinha “Você Não Soube Me
Amar” como a música do ano no Brasil, Lobão via o seu primeiro álbum solo, Cinema
Mudo, às moscas nas lojas, um fracasso retumbante em vendas. E para
completar, Lobão estava sem grana, na maior penúria. Àquelas alturas, é bem
possível que Lobão tenha sentido lá no fundo um certo arrependimento de ter
deixado a Blitz.
Naquele
momento, o então diretor de trilhas sonoras da TV Globo, Guto Graça Mello, até
que tentou ajudar Lobão. O ex-baterista da Blitz havia gravado uma bateria para
uma vinheta da Globo a pedido de Guto Graça Mello, e este pediu a Lobão um
exemplar do seu primeiro álbum solo para ouvir. Quem sabe, poderia surgir uma
chance de uma das músicas do disco entrar para trilha sonora de alguma novela
da Globo, o que para Lobão, que estava na pindaíba, seria um ótimo presente de
fim de ano. Daria visibilidade à sua carreira solo e alavancaria as vendas do
seu álbum solo que não vendia nada.
Lobão foi
até ao departamento de divulgação da RCA Victor, gravadora que havia lançado o
seu disco, para lá conseguir uma cópia promocional do seu álbum. No entanto,
por algum motivo, o responsável do setor, com muita arrogância, se recusou a
fornecer uma cópia do álbum. De nada adiantou Lobão explicar os motivos. O
cantor foi ao gabinete do presidente da gravadora, mas foi informado pela
secretária que ele estava em São Paulo para uma reunião. Desesperado, Lobão
invadiu o gabinete do presidente, e de alguma forma, conseguiu ligar para o
local onde acontecia a reunião do presidente companhia em São Paulo. Porém, o
cantor não conseguiu falar com ele, o presidente da RCA muito ocupado.
Tomado por
uma fúria, Lobão destruiu todo o gabinete do presidente da gravadora RCA, e
depois foi embora, deixando a secretária e a todos perplexos. Dias depois,
Lobão foi chamado pela direção da gravadora e foi informado que o prejuízo
seria descontado nas vendas do seu álbum solo, que já eram pífias. E apara
piorar a situação, talvez como um castigo, a companhia deixou Lobão “na
geladeira”, ou seja, não o demitiu, mas tão cedo não iria gravar nenhum
trabalho novo dele.
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Capa do primeiro álbum solo de Lobão, Cena de Cinema, lançado em 1982. |
Enquanto
Lobão nadava naquela maré de azar, um amigo seu de infância, o guitarrista Guto
Barros (1957-2018), estava retornando para o Brasil após uma temporada nos
Estados Unidos. Guto havia participado com Lobão da criação da banda Blitz, no
começo de 1981. Ao lado de Evandro Mesquita, Ricardo Barreto e Zeca Mendigo,
Guto Barros é um dos autores do megahit da Blitz “Você Não Soube Me Amar”. Guto
retornava para o Brasil cheio de novidades e compondo muitas canções.
Logo que
soube do retorno do amigo, Lobão foi procurá-lo. Não demorou muito, e já
estavam trocando ideias e ensaiando as canções que Guto estava compondo num
estúdio na casa do baterista Baster Barros (irmão de Guto), que também se
juntou a eles nos ensaios. Quem também apareceu e participou dos ensaios foi o
baixista Odeid Pomeranblum. Lobão e Guto assumiram os vocais e as duas
guitarras.
Na prática,
uma banda de rock já estava pronta... ou quase pronta. A formação nos ensaios
se completou com a chegada de Alice Pink Pank, que havia terminado de gravar o
primeiro álbum da Gang 90 e as Absurdettes. O namoro de Alice com o líder da
Gang 90, Júlio Barroso (1953-1984), havia chegado ao fim e, consequentemente, a
sua permanência naquela banda também. Não demorou muito e Alice entrou naquela
banda nova que estava se formando, assumindo os vocais de apoio e um
sintetizador Cassiotone MT 40.
A essas
alturas, já era o começo do ano de 1983, e de repente, saiu uma notícia que
deixaria Lobão regozijando de felicidade. Toda a diretoria da RCA Victor
brasileira, a mesma que pôs o cantor “na geladeira”, foi mudada por ordem da
matriz americana. Provavelmente por questões estratégicas. Mas sabe-se lá o
motivo de verdade, Lobão era só sorriso, e fez questão de ir à sede da
gravadora no Brasil ver seus algozes arrumando suas coisas para deixar os
cargos.
E parece
mesmo que a sorte resolveu sorrir para Lobão. A nova direção convocou Lobão e
decidiu apostar naquele jovem roqueiro, já que o rock brasileiro estava num
momento promissor. As gravadoras concorrentes estavam com seus artistas de rock
no topo das paradas, e a RCA não queria perder aquela oportunidade. Na
renovação de contrato com a gravadora, Lobão expôs que estava formando uma nova
banda, Os Ronaldos. Com isso, a banda assinou contrato com a gravadora, com
igual porcentagem para cada integrante. Na assinatura do contrato, por comum
acordo, a banda foi renomeada para Lobão e Os Ronaldos, embora a ideia não
tenha partido de Lobão.
Em julho de
1984, foi lançado Ronaldo Foi Pra Guerra, o primeiro álbum da
banda Lobão & Os Ronaldos. O álbum é essencialmente new wave, muito embora
em algumas faixas, se perceba elementos sutis do pós-punk.
Ronaldo
Foi Pra Guerra começa
com o clima festivo de “Corações Psicodélicos, que traz Alice Pink Punk fazendo
vocais de fundo sensacionais para Lobão cantar versos que demonstram toda a sua
devoção para a sua musa amada: “Sim pro sol, sim pra lua / Eu quero você
toda nua / Sim pra tudo que você quiser”. E a musa amada de Lobão era a
própria Alice, pois, além de colegas de banda, os dois se tornaram namorados.
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Lobão e Os Ronaldos, da esquerda para a direita: Lobão, Odeid Pomeranblum, Alice Pink Pank, Guto Barros e Baster Barros. |
Em “Não Tô
Entendendo”, o guitarrista Guto Barros é a voz principal da música. A letra
hilária trata sobre Goretti, uma garota que resiste a todas as investidas
insistentes do seu namorado por carícias mais envolventes. Ela faz jogo duro,
no máximo segurar a mão, e sexo, só depois do casamento, para desespero do
namorado.
“Tô À Toa
Tokio” aborda aventura, sedução, paixão e mistério na cidade de Tóquio. A
música possui elementos sonoros que criam todo um clima que remete à capital
nipônica.
Depois de
uma sequência de três rocks, o ritmo diminui com “Abalado”, uma balada escrita
pelo casal Lobão e Alice Pink Pank. A letra melancólica versa sobre solidão e
traz um interessante jogo de sentidos antagônicos nos versos: “A loucura é
tão clara / Como o escuro da lucidez / E ser claro a essa altura / É o mesmo
que riscar um fósforo / Pela segunda vez”.
A princípio,
“Os Tipos Que Eu Não Fui” era a faixa que a gravadora queria como a primeira
música de trabalho de divulgação do álbum Ronaldo Foi Pra Guerra.
Mas isso não aconteceu. Embora seja uma boa música, “Os Tipos Que Eu Não Fui”
não é uma música que tenha apelo radiofônico.
Encerrando o
lado 1, “Bambina”, uma das faixas mais interessantes do álbum Ronaldo Foi
Pra Guerra. A letra de “Bambina” é toda em inglês, exceto um ou outro
verso em italiano. Alice e Guto Barros cantam os versos desta música.
Musicalmente, “Bambina” traz uma sonoridade que mescla referências do pós-punk
britânico e da new wave do B-52’s.
Quem abre o
lado 2 é a faixa “Me Chama”, uma balada romântica que versa sobre solidão,
sobre estar sozinho em casa num dia chuvoso e triste, pensando na mulher amada
que está em algum lugar distante. O destaque fica para o guitarrista Guto
Barros que faz um solo de guitarra fantástico, um dos mais marcantes do rock
brasileiro.
“Rio do
Delírio” é uma ode à cidade do Rio de Janeiro: “Rio do Delírio e sol /
Acontece tudo por aqui / O desejo e o pavor são tão normais / Desvario e prazer
/ Se fantasiam em todos os carnavais”. “Inteligenzia” é um roquinho new
wave com tecladinhos primários em que Alice canta versos sobre um homem
aparentemente normal, casado, pai de família, um voraz leitor de livros de
agente secreto, e que nas horas vagas, gosta de bancar o James Bond.
“Teoria da
Relatividade” é uma new wave animada e divertida, escrita por Guto Barros. Os
versos retratam um sujeito que dá mais atenção aos livros do que à namorada.
Enquanto ele fica entretido com os livros, ela o trai com um amante dentro da
residência do casal. Outra faixa divertida é “Dr. Raymundo”, que conta a
história de um médico que tem cura para tudo.
O álbum
termina com a faixa-título, um rock veloz e urgente. “Ronaldo Foi Pra Guerra” é
uma das músicas mais antigas de Lobão e Os Ronaldos, e inspirou o nome da
banda. A letra trata sobre Ronaldo, um
sujeito que já foi de tudo na vida, de hippie a jogador de futebol, mas que num
belo dia, foi convocado para ir à guerra.
Ronaldo
Foi Pra Guerra gerou
dois singles que se tornaram grandes sucessos comerciais “Me Chama” e “Corações
Psicodélicos”. O sucesso de “Me Chama” e “Corações Psicodélicos” nas paradas
radiofônicos levaram o Lobão e Os Ronaldos a fazer uma grande turnê pelo
Brasil, que contou com 160 shows. Com a popularidade em alta no cenário do rock
brasileiro em 1984, Lobão e Os Ronaldos chegaram a ser sondados para serem uma
das atrações da primeira edição do Rock in Rio, em janeiro de 1985. Mas a banda
acabou ficando de fora.
“Me Chama”
fez um sucesso tão grande que foi uma das músicas mais executadas nas rádios
brasileiras na década de 1980. “Corações Psicodélicos” foi incluída na trilha
sonora da novela Um Sonho A Mais, da TV Globo, em 1985, e teve grande execução
no rádio e na TV.
Se por um
lado, Lobão e Os Ronaldos eram uma das bandas mais populares do rock brasileiro
entre 1984 e 1985. Contudo, internamente, a relação entre os integrantes não
estava boa. Para começar, Alice Pink Pank decidiu deixar a banda, em 1985, e voltou
para a sua terra natal, a Holanda. Mesmo em crise e sem Alice, a banda decidiu
seguir em frente. Lobão escreveu a canção “Décadénce Avec Élégance” sob
encomenda para a trilha sonora da novela Ti-Ti-Ti, da TV Globo, porém foi
rejeitada. Embora rejeitada para a novela, “Décadénce Avec Élégance” foi
gravada por Lobão e Os Ronaldos e lançada num single, trazendo no lado B a
música “Mal Nenhum”, uma parceria de Lobão e Cazuza, e que fora incluída na
trilha sonora do filme Areias Escaldantes (1985), do diretor Francisco
de Paula.
Em meio aos
preparativos para a pré-produção do segundo álbum, a relação interna dentro da
banda estava insustentável. Os integrantes da banda não aguentavam mais a vida
desregrada de Lobão, regada a abuso de álcool e drogas. Seu comportamento
estava atrapalhando os objetivos do grupo. Lobão foi dispensado da banda
através de um telefonema do baixista Odeid, que falou em seu nome e em nome dos
outros companheiros.
Demitido da
banda, Lobão retomou a sua carreira solo e começou a pensar no seu segundo
álbum solo, que foi lançado em março de 1986, sob o título O Rock Errou,
e que emplacou a faixa-título e a balada “Revanche”. Quanto aos ex-colegas de
Lobão, eles tentaram prosseguir com a banda como Os Ronaldos, mas não foram
muito longe e logo encerraram as atividades.
No final das
contas, Ronaldo Foi Pra Guerra se tornou o primeiro e único álbum
de estúdio de Lobão e Os Ronaldos, uma banda que teve uma carreira meteórica,
mas que deixou um registro que é um dos
maiores clássicos da new wave brasileira.
Faixas
Lado 1
- "Corações Psicodélicos" (Lobão - Julio Barroso - Bernardo Vilhena)
- "Não Tô Entendendo" (Guto Barros)
- "Tô à Toa Tokio" (Lobão - Alice Pink Punk)
- "Abalado" (Lobão - Alice Pink Punk)
- "Os Tipos Que Eu Não Fui" (Lobão - Bernardo Vilhena)
- "Bambina" (Lobão - Alice Pink Punk - Baster Barros - Bernardo Vilhena)
Lado 2
- "Me Chama" (Lobão)
- "Rio de Delírio" (Lobão)
- "Inteligenzia" (Alice Pink Punk - Bernardo Vilhena)
- "Teoria da Relatividade" (Lobão - Guto Barros)
- "Dr. Raymundo" (Guto Barros)
- "Ronaldo Foi pra Guerra" (Guto Barros – Lobão - Hélcio)
Lobão e
Os Ronaldos: Lobão
(vocais e guitarra), Alice Pink Punk (sintetizadores e vocais), Guto Barros
(vocais e guitarra solo), Odeid Pomeranblum (baixo) e Baster Barros (bateria e
vocais de apoio)
"Corações Psicodélicos"
"Não Tô Entendendo"
"Tô à Toa Tokio"
"Abalado"
"Os Tipos Que Eu Não Fui"
"Bambina"
"Me Chama"
"Rio de Delírio"
"Inteligenzia"
"Teoria da Relatividade"
"Dr. Raymundo"
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