Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos E Lições De Casa... (Laboratório Fantasma/Sony Music, 2015), Emicida


Por Sidney Falcão

 

O segundo álbum de estúdio de Emicida, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa..., nasce dos dois lugares: é acontecimento porque marca um momento de síntese rara na música brasileira dos anos 2010 — quando arte, política, memória e espiritualidade se entrelaçam num ponto de ebulição. E é diagnóstico porque devolve, com rimas e ritmos, o retrato de um país em que feridas antigas seguem abertas, onde o futuro pode ser luminoso, mas o presente ainda sangra.

 

Gravado após uma longa viagem pela África — passando por Cabo Verde, Angola e Madagascar —, o disco é um gesto de retorno e de reconfiguração. Emicida viaja, escuta, observa, aprende. Mas, sobretudo, reconhece-se nos rostos, nas vozes, nos ritmos, na fé e na ferida. A África que ele encontra não é a projeção romântica dos livros de história: é o espelho possível de uma identidade dissipada pelo Atlântico e reagrupada pelo afeto. É ela que atravessa o álbum inteiro, como um rio subterrâneo que, de vez em quando, jorra à superfície com força arrebatadora.

 

O resultado é uma obra híbrida, que mistura acessibilidade pop com flechas políticas, ternura com assombro, crônica social com lamento ancestral. É o “Cavalo de Troia” que o próprio Emicida anunciou: melodias convidativas que escondem um miolo inflamável, disposto a incendiar a confortável indiferença. São canções que sorriem pela manhã e choram durante a noite; que abraçam e acusam; que rezam e denunciam.

 

“Mãe” abre o álbum como um gesto de respeito às raízes: uma faixa curta e íntima, em que a voz de Dona Jacira, mãe de Emicida, não apenas costura a memória do nascimento do rapper, mas também inscreve a força feminina como alicerce emocional da obra. A homenagem funciona como prenúncio do tom que atravessa o disco — entre ternura, memória e ferida.


Capa frente e verso do álbum. 

Em “8”, a canção costura educação, violência policial, autodidatismo e ironia, lembrando que, para muitos, estudar sempre foi ato de resistência. A espiritualidade se expande em “Casa”, que transforma o mundo em território de pertencimento, uma espécie de mantra de acolhimento. “Amoras” oferece aconchego: é uma canção para a filha, para as crianças negras, para a beleza que precisa ser afirmada cedo.

A faixa seguinte, “Mufete”, abre as janelas para o continente africano: ritmos de Angola e Cabo Verde se entrelaçam às rimas, criando o quadro mais claro dessa viagem espiritual e histórica. “Baiana” é uma parceria com Caetano Veloso, e nela, Emicida mergulha na MPB para falar de desejo e encantamento com delicadeza melódica. Já “Passarinhos”, com Vanessa da Mata, apresenta o lado mais pop do disco — uma harmonia doce que contrasta com versos sobre desigualdade, crise ambiental e sonhos comprimidos nas cidades. Em “Sodade”, o crioulo cabo-verdiano e o lamento atlântico ecoam como lembrança e ponte cultural.

 

“Chapa” observa o cotidiano brasileiro com humor e acidez, enquanto “Boa Esperança” é o choque: a crítica mais feroz ao racismo estrutural, uma música que morde, expõe e revolta. “Trabalhadores do Brasil” dá continuidade ao tema, devolvendo em versos a saga daqueles que sustentam um país que pouco os reconhece.

 

“Mandume” explode como a faixa mais agressiva e coletiva do disco — uma convocação à resistência com vozes múltiplas. Em “Madagascar”, o tom é contemplativo: uma faixa que paira entre memória e descoberta, evocando paisagens e deslocamentos afetivos. “Salve Black – Estilo Livre” encerra tudo em samba e celebração, reafirmando a vitória possível na coletividade.


Emicida e Vanessa da Mata: dueto em "Passarinhos".


Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa... foi além de um mero segundo passo na discografia de Emicida. Foi um salto. O rapper, já respeitado por O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013) e pelas mixtapes que incendiaram o rap brasileiro dos anos 2000, encontrou aqui sua forma adulta: emocionalmente densa, musicalmente aberta, politicamente sofisticada.

 

A crítica especializada respondeu com entusiasmo: resenhas elogiaram a coragem temática, a mistura entre rap e MPB, a presença africana, a força poética. Revistas colocaram o álbum entre os melhores lançamentos do ano. O disco rendeu a Emicida uma indicação ao Grammy Latino em 2016. A turnê foi celebrada, e o documentário Sobre Noiz aprofundou sua construção, consolidando o álbum como experiência expandida — não apenas um conjunto de faixas, mas uma jornada.

 

Há ainda um marco invisível, mas fundamental: depois desse disco, Emicida deixou de ser “um dos grandes nomes do rap brasileiro” para se tornar um dos grandes nomes da música brasileira contemporânea. O álbum o leva às televisões, aos festivais, às universidades, aos debates públicos. Atravessa gerações, especialmente jovens negros, que encontraram ali espelho, afeto e munição simbólica.

 

E, retrospectivamente, o disco antecipa o movimento que culminaria em AmarElo (2019), seu trabalho mais celebrado: a união de cura, afeto, trauma, política, beleza e responsabilidade histórica. Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa... é o primeiro grande gesto dessa arquitetura emocional e intelectual.

 

Faixas

Todas as foram compostas por Emicida e Xuxa Levy, exceto as indicadas

 

1."Mãe" (Part. Dona Jacira e Anna Tréa) (Emicida, DJ Duh, Renan Inquérito, Dona Jacira)

2."8" (Emicida, Rafael Tudesco, Xuxa Levy, Dj Nyack)

3."Casa" (Emicida, Levy, Ogi)

4."Amoras" 

5."Mufete" 

6."Baiana" (Part. Caetano Veloso) (Emicida, DJ Duh)

7."Passarinhos" (Part. Vanessa da Mata)

8."Sodade” (Nenzalina Correia Semedo Garcia)

9."Chapa" 

10."Boa Esperança" (Part. J. Ghetto) (Emicida, Nave)

11."Trabalhadores do Brasil" (Part. Marcelino Freire) (Marcelino Freire)

12."Mandume" (Part. Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike e Raphao Alaafin)

(Emicida, Rafael Tudesco, Drik Barbosa, Rico Dalasam, Amiri, Raphão Alaafin, Muzzike)

13."Madagascar" 

14."Salve Black (Estilo Livre)" 

 

Referências:

monkeybuzz.com.br

musicainstantanea.com.br

tenhomaisdiscosqueamigos.com

wikipedia.org

 

 

“Mãe"


“8"


"Casa"


"Amoras"


"Mufete"


"Baiana"


"Passarinhos"


"Sodade”


"Chapa"


"Boa Esperança"


"Trabalhadores do Brasil"


"Mandume"


"Madagascar"


"Salve Black (Estilo Livre)"

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