Doces Bárbaros (Philips, 1976), Doces Bárbaros
O ano era 1976. O Brasil ainda respirava sob a névoa pesada da ditadura militar, mas, nos palcos e estúdios, a energia da contracultura e a explosão da MPB procuravam fissuras para manifestar sua liberdade. É nesse contexto de tensão e efervescência que surge um projeto que transcenderia o formato de um simples álbum ou turnê, tornando-se um marco mítico na música brasileira: Doces Bárbaros.
A reunião de Maria Bethânia, Gal Costa, Gilberto Gil e Caetano Veloso não foi apenas um supergrupo — foi a convergência de quatro ícones que, após dez anos de carreiras individuais consolidadas, decidiram deixar seus caminhos distintos de lado para formar um novo grupo musical. A proposta era criar um espetáculo que misturasse a alma do regionalismo baiano com a inovação hippie e a liberdade existencial. O resultado foi o álbum duplo Doces Bárbaros – Ao Vivo, um documento sonoro imperfeito, mas eternamente potente, de um momento singular da cultura nacional.
O projeto nasceu de um sonho, literalmente. Maria Bethânia teve a visão de um show conjunto, um gesto de celebração dos dez anos que separavam seus primeiros passos individuais da consolidação que já lhes rendia status de ícones. Caetano, por sua vez, sonhou com um pássaro proibido — imagem que se tornaria música, e música que se tornaria símbolo. A partir desses lampejos oníricos, um grupo místico e real começou a se articular. No verão da Bahia, nas praias onde o tempo parecia suspenso, as ideias migraram do abstrato para o palpável. Gil largou compromissos no meio do caminho, Gal deixou o universo Caymmi que habitava naquele momento, Caetano acelerou o ritmo criativo. Em duas semanas, o repertório básico estava delineado. E havia ali, desde o início, algo maior do que uma simples turnê comemorativa: era como se quatro constelações individuais se realinhassem para produzir um eclipse raro.
O nome do grupo veio de uma composição de Caetano, “Os Mais Doces Bárbaros”, criada como resposta poética ao jornal O Pasquim, que se referia pejorativamente aos músicos baianos como “baihunos”. A banda de apoio era formada por talentos de peso: Djalma Corrêa (percussão), Arnaldo Brandão (baixo), Mauro Senise (flauta e sax), Tomás Improta (piano), Chiquinho Azevedo (bateria), Tuzé Abreu (flauta e sax) e Perinho Santana (guitarra). A direção geral ficou a cargo de Caetano, e a direção musical, de Gilberto Gil.
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| Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil: os Doces Bárbaros. |
A estreia ocorreu no dia de São João, 24 de junho de 1976, no Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo. Depois de mais três shows na capital paulista, o quarteto e a banda de apoio partiram em turnê por mais nove cidades brasileiras: Campinas, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Brasília e Belo Horizonte.
No entanto, a turnê sofreu uma breve interrupção após um incidente em Florianópolis. No dia 7 de julho de 1976, agentes policiais invadiram o hotel onde o grupo estava hospedado e prenderam Gilberto Gil e o baterista Chiquinho Azevedo por porte de maconha. Gil prestou depoimento e teve de ser internado em um instituto psiquiátrico e, depois, em um sanatório — parte do período em Florianópolis, parte no Rio de Janeiro — cumprindo pena de internação hospitalar para tratar uma suposta dependência química. Com isso, todo o restante da turnê teve as datas das apresentações reagendadas.
Em 20 de julho de 1976, Gil e o baterista Chiquinho foram liberados após um acordo entre o advogado do cantor e o juiz de Florianópolis. Pelo acordo, Gil não precisaria mais ficar internado em um sanatório no Rio de Janeiro, devendo apenas comparecer ao local uma vez por semana para tratamento. Assim, a turnê do quarteto foi retomada em agosto do mesmo ano, a partir do Rio de Janeiro, no Canecão.
Apesar do problema ocorrido com Gil, o espetáculo foi um sucesso de público e crítica. Sabiamente, a gravadora Philips já havia pensado em registrar aquele encontro marcante em disco. Nesse ponto, inicialmente, Caetano e Gil preferiam um álbum de estúdio, com áudio limpo, arranjos controlados e acabamento polido. Gal e Bethânia, porém, insistiram: o disco deveria capturar o espetáculo como ele era — com respirações, aplausos, interferências, improvisos, suor e eletricidade. A decisão dividiu opiniões, mas gerou um documento histórico.
Um compacto duplo foi lançado com quatro canções do espetáculo registradas ao vivo: “Esotérico”, “Chuckberry Fields Forever”, “São João Xangô Menino” e “O Seu Amor”. Caetano lamentou que a “gravação ao vivo saíra suja”.
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| Palco do espetáculo dos Doces Bárbaros em 1976. |
Em outubro de 1976, foi lançado o álbum duplo Doces Bárbaros – Ao Vivo, trazendo o registro do show gravado em 24 de junho de 1976, no Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo. Na época, a recepção crítica foi surpreendentemente fria. Como já era de imaginar, a imprensa considerou o álbum “sujo”, “irregular”, “bagunçado”. A crítica mais purista reclamou das escolhas estéticas, e alguns produtores acusaram o disco de ser uma colcha de retalhos mal costurada.
Mas, como tantas vezes acontece com trabalhos ousados, o tempo acabou devolvendo ao álbum o que a crítica lhe negara: seu devido lugar entre as obras-primas da música brasileira dos anos 1970.
O álbum começa com "Os Mais Doces Bárbaros" que abre o lado 1 do disco 1 do álbum duplo. A agitação de abertura não é apenas uma canção; é um manifesto tribal que batizou a empreitada. Caetano coloca as quatro vozes em uníssono percussivo – ora em harmonia, ora em colisão estudada – para narrar a "doce conquista da cidade amada". O arranjo é espartano, tribal, mas carrega uma luz cintilante, estabelecendo o tom libertário e ritualístico que atravessará o álbum. É o prólogo perfeito, um choque elétrico de rock, poesia baiana e canto de invocação.
Em seguida, o quarteto assume a releitura de "Fé Cega, Faca Amolada", de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos), imediatamente conectando a cosmologia baiana à mística mineira do Clube da Esquina. As vozes sobem e descem como marés em catarse, impulsionadas por um ritmo crescente. É uma performance arrebatadora, destilando a urgência de fé e crença em tempos políticos sombrios. A comunhão do público e a expansão do grupo são palpáveis, honrando a força do material original com paixão.
O clássico popular "Atiraste Uma Pedra", de Herivelto Martins e David Nasser, ganha uma roupagem surpreendentemente teatral. Maria Bethânia assume a linha de frente, transformando o melodrama em poesia afro-baiana. Bethânia dá uma aula de interpretação, sustentada por uma banda elegante, quase cinematográfica. É o momento que solidifica a conexão do grupo com a tradição musical brasileira, mas sempre sob uma lente de vanguarda.
O lado 1 do disco 1 fecha com "Pássaro Proibido", composta por Caetano Veloso e Maria Bethânia), uma balada que evoca sensibilidade e misticismo, nascida dos sonhos que originaram o grupo. Caetano canta solo, mas a composição é a essência da colaboração entre os irmãos. É uma interpretação suave e enigmática, quase uma narrativa da origem mítica do quarteto, onde os timbres de Gal e Bethânia brilham na complementariedade.
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| Imagem central da parte interna da capa dupla do álbum. |
A fusão de Gil e Caetano atinge a pura inventividade em "Chuckberry Fields Forever" que abre o lado 2 do disco 1. Esta é uma colagem tropicalista que mistura o DNA do rock’n’roll de Chuck Berry com a psicodelia baiana. É uma das faixas mais ousadas do álbum: uma "poética-histórica" com humor, ritmo e letras que parecem deslizar entre passado e futuro, cimentando o espírito de desbunde musical do grupo.
Em "Gênesis", Caetano assume a condução numa "profecia invertida". A música cresce lentamente, com camadas vocais que se constroem em um mantra coletivo. É o Caetano dos anos 1970 em sua forma mais típica: um encontro entre o ancestral e o futurista, retornando a temas de origem e criação com uma aura de solenidade.
O lado 2 termina com "Tarasca Guidon" (Waly Salomão), uma explosão rítmica e performática que reforça a conexão dos Doces Bárbaros com a poesia marginal e a vanguarda. A inclusão de Waly Salomão leva o show ao território do teatro e do ritual, com nuances dramáticas e experimentação poética.
Abrindo o primeiro lado do disco 2, "Eu e Ela Estávamos Ali Encostados na Parede" é uma crônica urbana envolta em erotismo difuso. Cantada por Gil e Caetano, a faixa pulsa com ritmo e vocais que dialogam como personagens de um filme imaginário, destilando o espírito jovem e a liberdade do espetáculo.
"Esotérico", um dos momentos mais icônicos do álbum, é entregue por Gal e Bethânia. A composição de Gil sobre meditação e misticismo ganha corpo nas vozes femininas. É leve, quase pop, e meditativa, anunciando a guinada mais solar que o próprio Gil viria a abraçar. Em 1982, Gil gravou “Esotérico” para o seu álbum Um Banda Um, e se tornou um grande sucesso nas rádios.
"Eu Te Amo" é o momento íntimo dentro do grande ritual, com Gal Costa assumindo o protagonismo. É uma das performances mais delicadas do álbum, revelando a veia romântica de Caetano sob uma lente de ternura singular.
A faixa seguinte, "O Seu Amor", é um raro registro em estúdio que aparece no disco. A balada expressa o amor em sua forma mais universal. Gil revela seu lado mais melódico e as vozes do quarteto se empilham com doçura nostálgica.
Gilberto Gil fecha o primeiro lado do disco 2 cantando solo em "Quando", uma parceria rara do cantor com Gal e Caetano, em que faz uma reflexão sobre o instante e o tempo que se dobra. A estrutura é dançante, mas cheia de introspecção.
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| Bethânia, Gal e Caetano em apresentação dos Doces Bárbaros em São Paulo, em 1976. |
"Peixe" é uma das composições mais subestimadas. Mística e fluida, com um arranjo sensorial, remete aos orixás, aos peixes e à esperança da cosmovisão baiana. É um momento de brilho discreto, mas inesquecível. Em 1977, “Peixe” foi incluída na trilha sonora da primeira temporada da série Sítio do Picapau Amarelo, da TV Globo. A música era tema do Reino das Águas Claras, um reino aquático governado pelo Príncipe Escamado, localizado no fundo de um rio que corta o Sítio do Picapau Amarelo.
Maria Bethânia, em sua força cênica e interpretativa, dá vida a "Um Índio", do irmão Caetano, a "profecia" do álbum. Cada palavra é entoada como um anúncio sagrado, tornando a gravação histórica em seu tom espiritual, filosófico e político.
"São João, Xangô Menino" é uma invocação poderosa da força dos orixás e das festas juninas. A parceria é um híbrido musical potente que homenageia o dia da estreia do show (em São Paulo, no dia 24 de junho, Dia de São João) e a figura de Xangô, orixá da justiça e do fogo. É um dos picos emocionais da turnê.
Fechando o ciclo antes da reprise, "Nós, Por Exemplo" é uma celebração da amizade e da criação coletiva, remontando ao embrião dos encontros baianos. A música fala do próprio grupo e de suas intenções. A reprise de “Os Mais Doces Bárbaros” é o fecho perfeito do álbum; o rito se completa, mas a energia do manifesto permanece.
Além do disco, o projeto também foi registrado em filme. Inicialmente pensado como curta-metragem sob direção de Jom Tob Azulay, o material acabou transformado em documentário longa-metragem após a prisão de Gil. O documentário Os Doces Bárbaros estreou nos cinemas em novembro de 1977.
Anos mais tarde, em 1994, os Doces Bárbaros foram tema do samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira, “Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu”, ecoando o espírito libertário de Caetano Veloso. Em 2002, após 26 anos, Caetano, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia voltaram a se reunir em dois grandes shows ao ar livre, no Parque Ibirapuera, em São Paulo e na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, com tudo registrado no documentário Outros (Doces) Bárbaros, lançado em 2004, dirigido por Andrucha Waddington.
O álbum Doces Bárbaros – Ao Vivo vai além de um simples registro histórico: ele marca decisivamente a trajetória de cada integrante do quarteto. Em essência, a experiência funcionou como catalisador para o sucesso popular que todos alcançariam na virada da década, comprovando que o encontro das quatro forças gerou, de fato, uma nova entidade na música brasileira.
Faixas
Disco 1
Lado 1
1 - "Os Mais Doces Bárbaros" - Caetano, Gal, Gil, Bethânia
(Caetano Veloso)
2 - "Fé Cega, Faca Amolada" - Caetano, Gal, Gil, Bethânia
(Milton Nascimento, Ronaldo Bastos)
3 - "Atiraste Uma Pedra" - Caetano, Gal, Gil, Bethânia
(Herivelto Martins, David Nasser)
4 - "Pássaro Proibido" - Caetano Veloso
(Caetano Veloso, Maria Bethânia)
Lado 2
1 - "Chuckberry Fields Forever" - Caetano, Gil
(Gilberto Gil, Caetano Veloso)
2 - "Gênesis" - Caetano, Gal, Gil, Bethânia
(Caetano Veloso)
3 - "Tarasca Guidon" - Caetano, Gal, Gil, Bethânia
(Waly Salomão)
Disco 2
Lado 1
1 - "Eu e Ela Estávamos Ali Encostados na Parede" - Caetano, Gil
(Gilberto Gil, Caetano Veloso, José Agrippino de Paula)
2 - "Esotérico" - Gal, Bethânia
(Gilberto Gil)
3 - "Eu Te Amo" - Gal Costa
(Caetano Veloso)
4 - "O Seu Amor" - Caetano, Gal, Gil, Bethânia
(Gilberto Gil)
5 - "Quando" - Gilberto Gil
(Gilberto Gil, Gal Costa, Caetano Veloso)
Lado 2
1 - "Pé Quente, Cabeça Fria" - Caetano, Gal, Gil, Bethânia
(Gilberto Gil)
2 - "Peixe" - Caetano, Gal, Gil, Bethânia
(Caetano Veloso)
3 - "Um Índio" - Maria Bethânia
(Caetano Veloso)
4 - "São João, Xangô Menino" - Caetano, Gal, Gil, Bethânia
(Caetano Veloso, Gilberto Gil)
5 - "Nós, Por Exemplo" - Caetano, Gal, Gil, Bethânia
(Gilberto Gil)
6 - "Os Mais Doces Bárbaros" - Caetano, Gal, Gil, Bethânia
(Caetano Veloso)
Doces Bárbaros: Maria Bethânia (vocais), Gal Costa (vocais), Gilberto Gil (vocais, violão e direção musical) e Caetano Veloso (vocais, violão e direção geral).
Banda de apoio: Djalma Corrêa (percussão), Arnaldo Brandão (baixo), Mauro Senise (flauta e sax), Tomás Improta (piano), Chiquinho Azevedo (bateria), Tuzé Abreu (flauta e sax) e Perinho Santana (guitarra).
Referências:
Diário de Notícias – quinta-feira, 08/07/1976
Jornal do Brasil – domingo, 25/12/1975, Rio de Janeiro.
Jornal do Brasil – domingo, 18/07/1976, Rio de Janeiro
Jornal do Brasil – quarta-feira, 21/07/1976, Rio de Janeiro
O Globo – terça-feira, 05/10/1976, Rio de Janeiro
O Globo – quarta-feira, 23/11/1977, Rio de Janeiro
Jornal da Orla – domingo, 16/04/1978
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