Giant Steps (Atlantic Records, 1960) John Coltrane


Por Sidney Falcão

Em 1959, John Coltrane estava no centro de uma transformação que ainda não havia terminado de acontecer. Seu saxofone acabara de participar das sessões de Kind of Blue, de Miles Davis, álbum que levaria o jazz para uma nova concepção de improvisação. Ao mesmo tempo, Coltrane já procurava outra direção. Enquanto Miles reduzia a movimentação harmônica para oferecer aos músicos mais espaço melódico, Coltrane parecia cada vez mais interessado em fazer o contrário: multiplicar os acordes, acelerar as mudanças e descobrir até onde um improvisador poderia avançar dentro delas.

Vinte e quatro dias depois da primeira sessão de Kind of Blue, em 26 de março, Coltrane entrou nos estúdios da Atlantic para começar o trabalho que resultaria em Giant Steps. A distância entre os dois projetos é pequena no calendário e enorme na música.

Coltrane chegava àquele momento depois de atravessar uma das fases mais difíceis de sua vida. O vício em heroína havia contribuído para sua saída do grupo de Miles Davis. Durante o período seguinte, trabalhando e estudando com Thelonious Monk, conseguiu abandonar as drogas e mergulhou de maneira quase obsessiva no estudo da música. Seu conhecimento de acordes e harmonia cresceu rapidamente. O saxofonista Lee Konitz chegou a dizer que ele devia praticar dez ou doze horas por dia para tocar daquela maneira. Não era apenas disciplina. Havia urgência.

Quando assinou com a Atlantic, Coltrane já possuía experiência como líder em discos pelos selos Prestige e Blue Note. Giant Steps, porém, representaria uma mudança importante: seria seu primeiro álbum inteiramente composto por músicas próprias. Três delas — “Naima”, “Cousin Mary” e “Syeeda's Song Flute” — seriam dedicadas a pessoas próximas. A sofisticação harmônica do disco, portanto, conviveria com uma dimensão íntima que às vezes passa despercebida quando a obra é reduzida à sua reputação de álbum “difícil”.

John Coltrane, Cannonball Adderley, Miles Davis e Bill Evans na sessão de
gravação de Kind of Blue, em 1959.


A música como problema

A primeira tentativa não funcionou. Na sessão de 26 de março, Coltrane reuniu Cedar Walton ao piano, Paul Chambers no baixo e Lex Humphries na bateria. A faixa-título já existia, mas ainda não havia encontrado sua forma definitiva. Walton enfrentou dificuldades diante dos acordes rápidos e da estrutura incomum da composição, baseada em movimentos entre centros tonais separados por terças maiores. Coltrane considerou os resultados insatisfatórios, e aquelas gravações foram deixadas de lado.

Quando voltou ao estúdio em maio, trouxe Tommy Flanagan e Art Taylor. Chambers permaneceu no baixo. A nova formação funcionou melhor, e seis das sete músicas que entrariam no álbum foram registradas durante as sessões de 5 e 6 de maio. “Naima” seria gravada posteriormente, em dezembro, com Wynton Kelly e Jimmy Cobb.

O que Coltrane estava tentando fazer na faixa “Giant Steps” era extraordinariamente simples de descrever e difícil de executar. A composição possui 26 mudanças de acordes em apenas 16 compassos. Os centros tonais se movimentam rapidamente, criando uma sucessão de relações harmônicas que obriga o improvisador a antecipar continuamente o próximo destino. É nesse ponto que a matemática deixa de ser apenas matemática.

Coltrane não queria demonstrar que conhecia mais acordes do que os outros. Queria transformá-los em matéria melódica. Utilizou padrões derivados de escalas pentatônicas, transpondo-os conforme os acordes surgiam. Na gravação definitiva, esses padrões aparecem repetidamente, como se o saxofonista tivesse encontrado pequenas células capazes de atravessar a paisagem harmônica em alta velocidade.

O resultado ficou conhecido como “Coltrane changes” e transformou a progressão de “Giant Steps” numa das grandes provas de resistência e conhecimento harmônico do jazz.

Tommy Flanagan, porém, não tinha a mesma segurança. Seu solo na faixa-título, realizado depois de ensaios em andamento mais lento, revela um músico tentando encontrar espaço dentro daquela engrenagem vertiginosa. Coltrane, ao contrário, parece inteiramente absorvido pelo movimento. Seu timbre permanece firme ao longo de uma extensão de três oitavas, e sua improvisação tem a energia de alguém que finalmente encontrou um problema à altura de sua obsessão.

John Coltrane em 1960, quando lançou Giant Steps.

Sete maneiras de avançar

A faixa-título poderia ter transformado o álbum numa demonstração de técnica. Não transforma porque Coltrane sabe interromper a vertigem.

“Cousin Mary” começa a segunda faixa com o peso familiar do blues. Dedicada à prima Mary L. Alexander, com quem Coltrane viveu durante anos na infância e posteriormente na Filadélfia, a composição apresenta uma abordagem mais direta do gênero. A estrutura é menos carregada de cromatismos e substituições do que a tradição associada a Charlie Parker. Ainda assim, Coltrane toca com a mesma intensidade da abertura. O blues não é um descanso: é outra maneira de avançar.

“Countdown” recoloca a música em movimento acelerado. A composição dialoga com “Tune Up”, mas Coltrane aplica uma progressão substituta semelhante àquela desenvolvida em “Giant Steps”. Art Taylor participa desde a introdução, criando uma entrada eletrizante antes de o restante do grupo assumir a corrida. O efeito é de uma música comprimida, em que as ideias parecem chegar antes que o ouvido esteja preparado para recebê-las.

“Spiral” mantém essa atmosfera de tensão. O título parece adequado: a música não avança simplesmente em linha reta, mas retorna continuamente ao seu próprio centro, acumulando movimento e intensidade. Então Coltrane muda de registro.

“Syeeda's Song Flute”, dedicada à sua enteada, é talvez a melhor demonstração de que Giant Steps não é um álbum tão cerebral quanto sua reputação sugere. Syeeda estava aprendendo flauta doce quando Coltrane compôs a peça. Há leveza na melodia e uma clara influência de Thelonious Monk. Depois da turbulência de “Spiral”, a faixa funciona como uma janela aberta.

A delicadeza atinge seu ponto máximo em “Naima”. A composição, dedicada à esposa de Coltrane, é uma das peças mais serenas de sua carreira. Baseia-se em grande parte num pedal, com uma linha de baixo hipnótica que cria uma sensação quase suspensa. Chamá-la simplesmente de balada parece insuficiente; a descrição de “poema sinfônico”, presente no material de referência, traduz melhor sua atmosfera.

A presença de Wynton Kelly e Jimmy Cobb reforça essa diferença. A seção rítmica associada ao grupo de Miles Davis confere à gravação uma qualidade mais familiar, mas o resultado pertence inteiramente a Coltrane. Depois de atravessar algumas das harmonias mais difíceis que escrevera, ele demonstra que também sabia permanecer imóvel.

O disco termina com “Mr. P.C.”, dedicada a Paul Chambers. O baixista não é apenas homenageado no título: sua atuação é uma das forças que sustentam o álbum. A faixa retorna ao blues menor e à energia das primeiras músicas, encerrando Giant Steps com uma descarga de intensidade.

O percurso é significativo. O álbum começa com a harmonia sendo levada ao limite e termina no blues. Entre uma coisa e outra, passa pela família, pelo amor, por Monk, pelo bebop e pela tradição.

Um disco difícil de ouvir — e impossível de ignorar


Giant Steps chegou às lojas em janeiro de 1960 pela Atlantic. A recepção inicial foi menos unânime do que sua reputação posterior poderia fazer imaginar. Alguns críticos consideraram o álbum excessivamente técnico e sentiram falta do impacto emocional associado às melodias mais lentas e sofisticadas de Kind of Blue. O contraste entre os dois discos era inevitável: o álbum de Miles acabara de estabelecer uma nova espécie de elegância modal, enquanto Coltrane apresentava uma música mais nervosa, angular e ligada à tradição do hard bop.

Ainda assim, Ralph J. Gleason percebeu rapidamente a dimensão do que estava diante dele. Em resenha publicada pela DownBeat em 31 de março de 1960, afirmou que aquele LP poderia ser considerado “um dos mais importantes”. A história acabaria dando razão a Gleason.

O sucesso de Giant Steps não deve ser medido apenas pelo desempenho comercial imediato. O material de referência registra que o álbum alcançou status de disco de ouro em 2018, depois de ultrapassar 500 mil cópias vendidas, e que foi incluído em 2004 no Registro Nacional de Gravações da Biblioteca do Congresso.

John Coltrane recebe o Prêmio Edison por Giant Steps no Concertgebouw,
em Amsterdã, Holanda, em 20 de novembro de 1961.

O começo de uma outra viagem

Para entender a importância de Giant Steps, é preciso resistir à tentação de tratá-lo como o ponto culminante definitivo de Coltrane. O álbum representa, com enorme força, o auge de sua fase de change-running e hard bop, mas também funciona como uma espécie de fronteira. Depois dele, Coltrane mergulharia cada vez mais no jazz modal, desenvolveria novas formações e chegaria a obras como A Love Supreme. Mais tarde, avançaria ainda mais em direção ao free jazz e à experimentação. Isso torna o disco ainda mais fascinante.

Coltrane acabara de descobrir uma maneira de tornar a harmonia quase tão rápida quanto seu pensamento. Poderia ter permanecido ali. Em vez disso, continuou procurando.

As chamadas “Coltrane changes” permaneceriam como uma das contribuições mais duradouras do álbum. A progressão de “Giant Steps” tornou-se material de estudo para gerações de músicos, uma espécie de porta de entrada para a improvisação moderna. “Giant Steps” e “Naima” tornaram-se standards. O Penguin Guide to Jazz incluiu o disco em sua “Coleção Essencial”, chamando-o de o primeiro álbum verdadeiramente icônico de Coltrane. Mas talvez a dimensão mais importante de seu legado esteja em outro lugar.

Giant Steps mostrou que virtuosismo e emoção não precisavam ocupar territórios separados. A mesma mente que construiu uma progressão de 26 mudanças em 16 compassos escreveu “Naima”. O mesmo músico capaz de transformar acordes em uma espécie de labirinto harmônico compôs uma canção para a enteada. O saxofonista que parecia correr contra o tempo também sabia sustentar uma única nota até fazê-la parecer suficiente.

Por isso, ouvir Giant Steps hoje é menos uma questão de acompanhar Coltrane do que de aceitar sua velocidade e sua inquietação. O disco exige atenção, mas devolve movimento. Quanto mais se conhece sua arquitetura, mais se percebe a liberdade que existe dentro dela.

Em 1959, Coltrane ainda estava construindo sua voz. Giant Steps registra o momento em que essa voz encontra uma forma própria e, quase imediatamente, começa a procurar outra.

Os passos eram gigantes porque o destino nunca foi apenas chegar ao acorde seguinte. Era descobrir o que existia depois dele.

 

Faixas

Todas as faixas são de autoria de John Coltrane.

Lado 1

1. "Giant Steps" 

2. "Cousin Mary"

3. "Countdown" 

4. "Spiral" 


Lado 2


5. "Syeeda's Song Flute" 

6. "Naima"

7. "Mr. P.C."

 

John Coltrane — saxofone tenor

Tommy Flanagan — piano

Wynton Kelly – piano em "Naima"

Paul Chambers — contrabaixo

Art Taylor — bateria

Jimmy Cobb — bateria em "Naima"

 


Referências:

bestofjazz.or

jazzfuel.com

jazzwise.com

johncoltrane.com





Ouça na íntegra o álbum Giant Steps

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