Rocks (Columbia, 1976), Aerosmith


Por Sidney Falcão 

Em 1976, o Aerosmith já não era apenas uma promessa: havia se tornado uma das bandas mais populares dos Estados Unidos com Toys in the Attic (1975), disco que os tirou da condição de cult local para estrelas de arenas. Mas havia ainda uma necessidade urgente — provar que não eram um acidente de percurso, que poderiam manter a intensidade sem se perder no labirinto de drogas, egos e fama. Rocks nasce desse momento de afirmação: um álbum cru, feroz, que captura a essência do hard rock americano com brutalidade e sensualidade em doses equivalentes.

Gravado em meio ao caos da turnê anterior, o disco foi registrado no Wherehouse, um estúdio improvisado em Waltham, Massachusetts. A banda queria algo que soasse mais “ao vivo”, menos polido que Toys in the Attic. Jack Douglas, o produtor que já os conhecia bem, entendeu a necessidade: deixou microfones captando vazamentos, não limpou arestas e preservou a energia crua da banda em combustão. Joe Perry e Brad Whitford despejavam riffs saturados de amplificadores Marshall; Tom Hamilton e Joey Kramer forneciam a base rítmica como se estivessem em guerra contra o relógio; e Steven Tyler, já um performer absoluto, cuspia cada palavra com a ferocidade de um animal enjaulado.

O resultado foi um disco curto — pouco mais de 34 minutos — mas devastador em impacto. Rocks não é apenas uma coleção de músicas: é um manifesto de excessos, urgência e desejo, um testemunho sonoro de uma banda que ainda tinha fome e nada a perder.

“Back in the Saddle” abre o álbum com a fúria de uma cavalgada elétrica. Joey Kramer dita o ritmo com batidas que soam como cascos em disparada, enquanto Steven Tyler encarna um pistoleiro decadente, de voz lasciva e rouca, embalado pelo riff arrastado de Joe Perry e pelo baixo ameaçador de Tom Hamilton. É a entrada perfeita no universo denso e febril de Rocks.

Em “Last Child”, o peso dá lugar ao balanço. Brad Whitford assume o protagonismo com um riff funkeado e cheio de sujeira, enquanto Tyler canta como se estivesse numa esquina de Boston, celebrando raízes marginais. Não à toa, tornou-se um dos singles mais fortes, ecoando nas rádios com sua vibração de rua.

Aerosmith em 1976 (da esquerda para a direita): Steven Tyler, Tom Hamilton,
Joe Perry, Brad Whitford e Joey Kramer. 

“Rats in the Cellar” é puro desespero em alta velocidade, um proto-thrash que faz “Toys in the Attic” soar comportada. As guitarras se atropelam, a bateria ameaça colapsar a cada virada, e Tyler grita como se estivesse cercado por ratos em um porão. É a vida caótica da banda traduzida em som bruto, apontando o caminho para o metal dos anos 1980.

A atmosfera fica mais densa em “Combination”. Joe Perry divide os vocais com Tyler num registro sombrio, arrastado, quase sufocante. O riff é pesado e claustrofóbico, espelhando o mergulho pessoal de Perry em meio a drogas e exaustão.

Com “Sick as a Dog”, Tom Hamilton assume o comando inicial com seu baixo pulsante. A canção cresce em camadas até explodir em riffs sujos e vocais irônicos, refletindo os custos do estrelato. O fade-out caótico reforça a sensação de descontrole iminente.

“Nobody’s Fault” eleva ainda mais a intensidade: riffs soturnos, bateria explosiva e letras apocalípticas. É uma das canções mais pesadas do Aerosmith, reverenciada por bandas de metal como Testament e Mötley Crüe, que chegaram a regravá-la.

“Get the Lead Out” devolve a leveza, mas sem perder a garra. Com groove funkeado e refrão pegajoso, parece feita sob medida para arenas. Já “Lick and a Promise” é a síntese da vida na estrada de uma banda de rock naqueles agitados anos 1970: groupies, bares e velocidade em pouco mais de três minutos.

Por fim, “Home Tonight” fecha o ciclo com melancolia. Piano, guitarras suaves e um vocal emotivo de Tyler servem como contraste à brutalidade do restante do álbum. Depois da tormenta, sobra a balada — lembrando que, até mesmo no caos, existe espaço para a fragilidade.

 Steven Tyler numa aprsentação ao vivo do Aerosmith no palco do RFK Stadium, 
em Washington DC, Estados Unidos, em 30 de maio de 1976, semanas após
o lançamento de Rocks.

Lançado em 3 de maio de 1976, Rocks alcançou o 3º lugar na parada da Billboard e vendeu rapidamente mais de um milhão de cópias, recebendo certificado de platina no ano seguinte. Até hoje, acumula mais de 4 milhões de cópias vendidas apenas nos Estados Unidos. Não foi o maior sucesso comercial imediato da banda — esse posto ainda cabia a Toys in the Attic —, mas consolidou o Aerosmith como potência do hard rock.

A recepção crítica da época, no entanto, foi mista. Algumas revistas elogiaram a intensidade e a crueza, mas outras viam o disco como barulhento demais, quase sem refinamento. A Rolling Stone, por exemplo, ofereceu um reconhecimento tímido, chamando o disco de “competente”. O tempo, porém, seria generoso: nas décadas seguintes, críticos e músicos revisitariam Rocks como um dos álbuns definitivos do hard rock dos anos 1970.

Rocks marcou o momento em que o Aerosmith deixou de ser apenas uma banda de rock de sucesso para se tornar uma influência geracional. Slash, guitarrista do Guns N’ Roses, afirmou que foi ouvindo esse disco que decidiu se tornar músico. James Hetfield, do Metallica, disse que o peso de “Nobody’s Fault” moldou sua visão do heavy metal. Kurt Cobain listou Rocks entre os álbuns que o formaram.

O álbum cristalizou a identidade do Aerosmith como banda americana de rock por excelência: suja, sensual, agressiva e, ao mesmo tempo, profundamente conectada ao blues e ao funk. Além disso, mostrou que era possível soar pesado e manter apelo comercial — algo que pavimentaria o caminho para o hard rock dos anos 1980 e, posteriormente, para o grunge.

Para a própria banda, foi talvez o último momento de coesão total antes da implosão. Nos anos seguintes, mergulhariam ainda mais nas drogas e nos conflitos internos, o que resultaria em discos menos consistentes até a separação parcial no fim da década. Mas em Rocks, por um breve instante, todas as peças estavam alinhadas. 

 

Faixas

Todas as faixas foram compostas por Joe Perry e Steven Tyler, exceto as indicadas.

 

Lado 1

1."Back in the Saddle"

2."Last Child" (Tyler - Brad Whitford)           

3."Rats in the Cellar"

4."Combination" (Perry)

           

Lado 2

1."Sick as a Dog" (Tom Hamilton – Tyler)    

2."Nobody's Fault" (Tyler – Whitford)          

3."Get the Lead Out" 

4."Lick and a Promise"

5."Home Tonight"

 

Aerosmith: Steven Tyler (gaita, piano, vocais), Joe Perry (guitarra solo, vocal de apoio, baixo em "Sick As A Dog"), Brad Whitford (guitarra base, guitarra solo em "Sick As a Dog"), Tom Hamilton (baixo, guitarra base em "Sick As A Dog") e Joey Kramer (percussão e bateria).

 

Referências:

2loud2oldmusic.com

subjectivesounds.com

wikipedia.org 


Ouça na íntegra o álbum Rocks


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