Para Quando O Arco-Íris Encontrar O Pote De Ouro (Warner, 2000) Nando Reis
No início dos anos 2000, Nando Reis vivia uma encruzilhada. Ainda era um Titã, mas a convivência dentro da banda se tornava cada vez mais desgastante. Depois da densidade de Titanomaquia que gerou divergências suas com os suas com os seus companheiros de banda a partir de então, Nando percebia que sua pulsão criativa seguia por outro caminho: mais íntimo, romântico, repleto de imagens que nasciam da memória, da infância, da vida em família. Esse contraste entre o peso dos Titãs e a delicadeza das canções que floresciam em seu violão fez nascer Para Quando O Arco-Íris Encontrar O Pote De Ouro, segundo álbum solo do cantor e compositor, lançado em 2000.
O título já sugere uma busca, quase uma fábula: o arco-íris como metáfora para a pluralidade de cores sonoras e o pote de ouro como a promessa de reconhecimento. Curiosamente, esse pote só seria encontrado anos depois, quando Nando enfim consolidou sua carreira solo após sair definitivamente dos Titãs, em 2002. Mas o disco de 2000 é o momento em que o arco-íris aparece inteiro no céu: todas as tonalidades de sua identidade musical já estavam ali, mesmo sem o brilho imediato do sucesso.
Gravar um disco de baladas apaixonadas em Seattle parecia uma contradição. A cidade que pariu Nirvana, Soundgarden e Pearl Jam, berço do grunge, abrigaria um projeto mais próximo de Neil Young, R.E.M. e do folk-pop do que da distorção desesperada. Mas é justamente nesse contraste que o álbum encontra sua força.
A parceria com Jack Endino, produtor de Bleach do Nirvana, deu a Nando a moldura sonora que procurava. Endino não domesticou as canções, mas também não as revestiu de sujeira grunge: abriu espaço para que a voz doce e rouca do cantor se misturasse a violões de aço, teclados vintage e texturas que evocam tanto os anos 1970 quanto a modernidade dos anos 1990. Ao lado dele estavam músicos de peso: Barrett Martin (ex-Screaming Trees, depois no R.E.M.), que trouxe bateria, vibrafone e até instrumentos étnicos; Peter Buck (guitarrista do R.E.M.), que acrescentou bandolim e viola de 12 cordas; e Alex Veley, tecladista que enriqueceu a tapeçaria com Hammond, Wurlitzer e Fender Rhodes.
Esse encontro resultou num álbum
híbrido: brasileiro na alma, americano na sonoridade. Um disco em que a
delicadeza das letras se apoia numa instrumentação vigorosa, capaz de unir
folk, rock alternativo, MPB e até toques de soul.
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| Nando Reis, o produtor Jack Endino de camisa branca e músicos no estúdio durante o processo de gravação do álbum em 2000. |
O disco oscila entre um romantismo quase pueril e um lirismo maduro. As imagens de Nando – estrelas, sapatos, frases azuis, arco-íris – podem soar simples, mas carregam uma carga emocional de grande intensidade. Essa estética do cotidiano em hiperclose, como se fotografasse detalhes que outros não percebem, dá ao álbum sua marca pessoal.
“Dessa Vez” abre o álbum em tom de serenidade enganosa, como quem acende a luz de um quarto em penumbra e revela o espaço aos poucos. O bandolim de Peter Buck, delicado como um traço impressionista, encontra o violão de Nando num diálogo que parece caminhar em círculos, sempre retornando à primeira centelha de um amor. Há uma leveza que não disfarça a intensidade: é a promessa de recomeço, de redescoberta, de renovação constante.
“All Star” transforma um tênis gasto em símbolo eterno. A simplicidade cotidiana vira poesia quando atravessada pelo amor; a harpa de Cristina Braga, cintilante, cria uma atmosfera quase sobrenatural, como se o objeto fosse transfigurado em relíquia. A canção é direta, sem ornamentos desnecessários, mas a delicadeza da entrega a faz soar universal, capaz de alcançar qualquer ouvido que já tenha amado.
“Hey, Babe” rompe a suavidade e convoca a festa. A voz de Cássia Eller surge rasgando o espaço, enquanto Rogério Flausino empresta brilho pop. O que começa como folk logo se expande em groove, teclados pulsantes, guitarras ascendentes, percussão urgente. É a celebração do encontro em sua forma mais elétrica, o momento em que o disco respira com intensidade roqueira.
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| A faixa "Hey, Babe" conta com as participações especiais de Rogério Flausino e Cássia Eller. |
“Frases Mais Azuis” é onde a parceria com Peter Buck se torna incontornável. A guitarra clara, cristalina, assume papel de guia, conduzindo a melodia como um rio sereno. Nando despeja poesia em versos que oscilam entre melancolia e luminosidade, criando um folk-rock que poderia facilmente habitar um disco do R.E.M.
“O Vento Noturno do Verão” sopra com delicadeza tropical, carregando perfumes da MPB. Feita para Gal Costa, traz a sensação de noites mornas, banhadas em sofisticação harmônica. É canção de atmosfera, de imagens sensoriais, mais contemplação do que narrativa.
Na faixa-título, “Para Quando o Arco-Íris Encontrar o Pote de Ouro”, Nando alcança sua essência lírica. Ingênua em superfície, devastadora em profundidade, a canção cresce com guitarras de sabor alt-country e traduz o manifesto do álbum: a busca incessante pelo amor total, mesmo que ele permaneça inalcançável.
“Nosso Amor” surge como balada folk rock com raízes em Seattle, mais crua, mais urgente. A melodia parece simples, mas carrega tensão subterrânea que explode na execução. É o romantismo vestido em couro, feito de ternura e nervo.
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| Detalhe da imagem da contracapa do álbum. |
“No Recreio” resgata o amor como refúgio, casa, abrigo. A batida folk acelerada imprime urgência, como se o sentimento precisasse ser vivido agora, sem demora. É a promessa de pertencimento eterno, de mãos dadas contra o tempo.
“Relicário” encerra o disco como peça rara, inventário da memória afetiva. As cordas de Glauco Fernandez a envolvem em aura espiritual, enquanto a voz de Nando ecoa quase em oração. Mas foi no timbre rasgado de Cássia Eller que a canção se tornou definitivo clássico. O fim do álbum, paradoxalmente, abre para a eternidade.
Apesar da força estética do álbum, Para Quando O Arco-Íris Encontrar O Pote De Ouro não projetou Nando ao estrelato solo imediato. A consagração viria apenas em 2003, com A Letra A, já livre dos Titãs.
O “pote de ouro” do sucesso viria
depois, em 2003, com a consagração através do disco A Letra A, já
livre dos Titãs. Mas em Para Quando O Arco-Íris Encontrar O Pote De Ouro
estão as cores que o anunciavam. Ao revisitar o disco hoje, percebe-se que a
busca de Nando não era por reconhecimento imediato, mas por autenticidade. E
nesse sentido, Para Quando O Arco-Íris Encontrar O Pote De Ouro é
um triunfo silencioso: o momento em que um artista, ainda preso a uma banda
gigante, já se libertava pelas próprias canções.
Faixas
Todas as faixas escritas por Nando Reis.
- "Dessa Vez"
- "All Star"
- "Hey, Babe"
- "Quem Vai Dizer Tchau?"
- "Frases Mais Azuis"
- "O Vento Noturno do Verão"
- "Para Quando o Arco Íris Encontrar o Pote de Ouro"
- "Nosso Amor"
- "Eles Sabem"
- "No Recreio"
- "Relicário"
Referências:
Revista Bizz, edição 183,
outubro de 2000, Editora Símbolo, São Paulo, Brasil.
g1.globo.com
wikipedia.org




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