10 discos essenciais – Pós-punk
Por Sidney Falcão
Surgido no final dos anos 1970, o pós-punk foi uma reação à simplicidade crua do punk rock. Em vez de seguir os três acordes da rebeldia, buscou expandir as possibilidades sonoras com experimentações, letras profundas e uma gama ampla de influências. Se o punk gritava revolta, o pós-punk murmurava desilusão, com ritmos fragmentados, guitarras cortantes, baixos inspirados no dub e sintetizadores gélidos.
O gênero surgiu no Reino Unido por volta de 1977–1978, quando bandas como Public Image Ltd. (liderada por John Lydon, ex-Sex Pistols), Magazine e Wire começaram a ultrapassar as limitações estéticas do punk. Mantinham sua energia, mas incorporavam art rock, funk, reggae, música eletrônica e até jazz. Nas letras, predominavam o existencialismo, o intelectualismo e um pessimismo urbano.
Um dos primeiros e mais influentes discos do estilo foi Metal Box (1979), do Public Image Ltd., que desmontava a estrutura do rock com linhas de baixo pesadas e arranjos abstratos. Unknown Pleasures (1979), do Joy Division, adicionou uma atmosfera sombria e introspectiva que moldaria a estética emocional do gênero. Na mesma época, The Cure, Siouxsie and the Banshees e Bauhaus apontaram para um caminho mais gótico, dando origem ao goth rock (rock gótico).
O pós-punk tornou-se rapidamente um terreno fértil para a inovação. Ainda no Reino Unido, Gang of Four unia teoria marxista a riffs cortantes de eguitarra. The Fall, com o vocal errático de Mark E. Smith (1957-2018), seguia uma rota abrasiva. Já nos EUA, enquanto os Talking Heads misturavam arte e ritmos africanos, bandas como Television, Pere Ubu e Mission of Burma deram ao gênero uma identidade americana peculiar.
O auge do pós-punk ocorreu entre 1979 e 1983, quando diversas bandas chegaram ao público mainstream. Mas, a partir de meados dos anos 1980, muitas se dissolveram ou migraram para um som mais comercial, próximo ao new wave. O termo “pós-punk” caiu em desuso, mas sua influência persistiu no rock alternativo, no indie e até na música eletrônica.
No início dos anos 2000, bandas como Interpol, The Rapture e
Franz Ferdinand trouxeram o pós-punk de volta, com um olhar contemporâneo e
nostálgico. Hoje, o legado do estilo segue vivo em nomes como IDLES, Dry
Cleaning e Protomartyr, que mantêm acesa sua chama inquieta.
Abaixo, segue dez álbuns que ajudam a compreender o pós-punk.
Real Life (Virgin Records,1978). Magazine. Real Life é o álbum de estreia do Magazine, banda britânica liderada pelo vocalista Howard Devoto, ex-Buzzcocks. O disco combina a energia do punk com elementos de art rock e sintetizadores, criando uma sonoridade sofisticada. Faixas como "Shot by Both Sides", "The Light Pours Out of Me" e "Motorcade" destacam-se por suas composições complexas e letras introspectivas. O álbum foi bem recebido pela crítica e é considerado um dos primeiros e mais influentes registros do pós-punk.
The Modern Dance (Blank Records, 1978), Pere Ubu. Primeiro álbum de estúdio da banda americana Pere Ubu, The Modern Dance é amplamente reconhecido por sua abordagem experimental dentro do pós-punk. Combinando elementos de punk, art rock e música eletrônica, o disco apresenta faixas como "Non-Alignment Pact", "Modern Dance" e "Street Waves", caracterizadas por estruturas não convencionais e atmosferas desafiadoras. A sonoridade única do álbum influenciou uma série de artistas e bandas posteriores, consolidando o Pere Ubu como uma força inovadora no cenário musical. Embora não tenha sido um sucesso comercial, The Modern Dance é considerado um marco na história do pós-punk e da música experimental.
Entertainment! (EMI, 1979), Gang of Four. Considerado uma das obras mais influentes do pós-punk, Entertainment!, álbum de estreia da Gang of Four, não só foi referência para bandas europeias e americanas desse segmento como também para bandas do rock brasileiro dos anos 1980 como Legião Urbana, Titãs, Ira!, Picassos Falsos e Fellini. Combinando letras politizadas com uma sonoridade que mescla punk, funk e dub, o disco apresenta faixas como "Damaged Goods", "Anthrax" e "I Found That Essence Rare". A crítica elogiou a abordagem inovadora e a energia crua do álbum, que, embora não tenha alcançado grandes números de vendas, consolidou-se como uma referência para bandas posteriores e figura em diversas listas de melhores álbuns da década de 1980.
Metal Box (1979), Public Image Ltd. Após deixas os Sex Pistols em 1978, Johnny Rotten assumiu seu nome de batismo, John Lydon, funda em maio do mesmo ano a banda pós-punk Public Image Ltd. ( ou PiL), e mergulha de cabeça em sons experimentais, com influências de dub e krautrock. Metal Box, segundo álbum de estúdio do Public Image Ltd., é uma obra seminal do pós-punk, marcando uma ruptura radical com o punk tradicional. O álbum é notório por sua embalagem original: três discos de vinil em uma lata metálica, simbolizando sua abordagem não convencional. Faixas como "Albatross", "Poptones" e "Careering" destacam-se por suas estruturas desafiadoras e atmosferas densas. Apesar de não alcançar grande sucesso comercial, o álbum foi aclamado pela crítica e é frequentemente citado como um dos mais influentes do gênero do pós-punk, figurando em listas como a dos "500 Melhores Álbuns de Todos os Tempos" da revista Rolling Stone.
Unknown Pleasures (Factory Records,1979), Joy Division. Marco do pós-punk, Unknown Pleasures é o álbum de estreia do Joy Division, e logo de cara, apresenta elementos que caracterizariam a banda britânica como a sonoridade sombria e minimalista, e a voz melancólica de Ian Curtis. Faixas como "Disorder", "She's Lost Control" e "New Dawn Fades" exemplificam a atmosfera introspectiva e a inovação sonora do grupo. O álbum ganhou reconhecimento ao longo do tempo, influenciando inúmeras bandas e sendo considerado um clássico cult.
Y (Radar Records,1979), The Pop Group. Produzido por Dennis Bovell, Y, álbum de estreia do The Pop Group, traz uma fusão ousada de punk, funk, dub e experimentalismo. Faixas como "She Is Beyond Good and Evil", "Thief of Fire" e "We Are Time" desafiam convenções musicais com suas estruturas irregulares e letras politizadas. Embora tenha recebido críticas mistas inicialmente, Y é agora considerado um marco do pós-punk, influenciando uma geração de músicos e sendo incluído em listas de álbuns essenciais da década de 1970. Sua abordagem inovadora e energética continua a ressoar com novos ouvintes e críticos.
Crocodiles (Korova, 1980), Echo & the Bunnymen. Em seu primeiro álbum de estúdio, Crocodiles, a banda Echo & The Bunnymen estabelece a base para o seu som característico. Com faixas como "Rescue", "Pictures on My Wall" e "Villiers Terrace", o disco apresenta uma combinação de guitarras atmosféricas, linhas de baixo envolventes e vocais expressivos de Ian McCulloch. A sonoridade do álbum é marcada por uma mistura de melancolia e energia, criando uma atmosfera única dentro do pós-punk. Crocodiles alcançou a 17ª posição nas paradas britânicas e foi posteriormente certificado com disco de ouro. O álbum é amplamente reconhecido como uma das estreias mais impactantes do gênero, figurando em listas como a dos "1001 Álbuns que Você Deve Ouvir Antes de Morrer".
In the Flat Field (4AD, 1980), Bauhaus. Frequentemente citado como o ponto de partida do rock gótico, In the Flat Field, álbum de estreia do Bauhaus, possui uma sonoridade crua e intensa. Por meio de faixas como "Double Dare", "God in an Alcove" e a faixa-título "In the Flat Field", o álbum combinam guitarras distorcidas, linhas de baixo pulsantes e a voz dramática de Peter Murphy. A atmosfera sombria e teatral do álbum estabeleceu uma nova estética dentro do pós-punk, influenciando inúmeras bandas subsequentes.
Juju (Polydor, 1981), Siouxsie and the Banshees. Juju é frequentemente considerado o ápice criativo do Siouxsie and the Banshees. Combinando a energia do pós-punk com uma atmosfera sombria e gótica, o álbum apresenta faixas como "Spellbound", "Arabian Knights" e "Night Shift", que exemplificam sua sonoridade distinta. A produção é marcada por guitarras angulares, ritmos tribais e a voz hipnótica de Siouxsie Sioux. O álbum foi bem recebido pela crítica e alcançou sucesso comercial moderado, consolidando-se como uma influência significativa para o desenvolvimento do rock gótico.
Pornography (Fiction Records, 1982), The Cure. Com uma sonoridade densa e angustiante, Pornography reflete o estado emocional turbulento da banda durante sua gravação. Faixas como "One Hundred Years", "A Short Term Effect" e "Cold" exemplificam a atmosfera opressiva e introspectiva do disco. Apesar de não ter sido amplamente aclamado pela crítica na época de seu lançamento, Pornography alcançou a oitava posição nas paradas britânicas e, com o tempo, ganhou status de clássico cult. Sua influência é evidente em diversos grupos do gênero gótico e pós-punk, consolidando-se como uma obra fundamental na discografia da banda.
Referências:
au.rollingstone.com
freq.org.uk
wikipedia.org










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