Lulu (RCA, 1986), Lulu Santos

Por Sidney Falcão

Em 1986, o rock brasileiro, que já vinha se expandindo desde o início da década, alcançava sua maturidade com os discos Cabeça Dinossauro (Titãs), Selvagem? (Paralamas do Sucesso) e Dois (Legião Urbana) — três sucessos de público e crítica, cujas faixas eram bastante executadas nas rádios, na televisão e no imaginário coletivo de uma juventude que queria se ver refletida na música. No meio dessa constelação, Lulu Santos chegava ao seu quinto álbum de estúdio — simplesmente intitulado Lulu. Um título direto, sem rodeios, como se dissesse: “aqui estou eu, inteiro”.

A escolha não era gratuita. Lulu vinha de um tropeço com Normal (1985), um álbum que, apesar de bons momentos, foi um fracasso comercial, marcando sua saída da gravadora WEA. Não demorou muito e o rock star carioca assinou contrato com a RCA, trazendo consigo uma bagagem de dúvidas e, ao mesmo tempo, de certezas. Duvidava do rumo que seu pop sofisticado poderia tomar em um mercado cada vez mais competitivo, mas tinha certeza de que, ao combinar engenho musical com sua verve pop, ainda tinha muito a dizer. O resultado foi um disco que, além de lhe devolver o prestígio perdido, consolidou-o como o grande hitmaker do pop brasileiro.

Gravado nos estúdios da RCA, no Rio de Janeiro, entre julho e agosto de 1986, o álbum Lulu contou com um time de músicos de primeira linha, como Nico Resende, Lincoln Olivetti, Arthur Maia (1962-2018) e Sérgio Herval (baterista do Roupa Nova), entre tantos outros talentos. O disco exala a sofisticação técnica que o cantor sempre perseguiu. Arranjos milimetricamente calculados convivem com ousadias sonoras; sintetizadores futuristas se chocam com riffs de guitarra e grooves de baixo encorpados. É um trabalho de contrastes: de um lado, a máquina de sucessos radiofônicos; de outro, o artista que não queria se aprisionar em fórmulas.

A capa do disco, inspirada no traço vibrante de Keith Haring (1958-1990), resume essa dualidade. Colorida, quase cartunesca, é pop até o osso, mas, ao mesmo tempo, sugere a ironia e o jogo estético que Lulu vinha desenvolvendo em sua trajetória. O álbum funciona como uma senha de entrada para um universo onde popular e vanguardista não se excluem, mas se alimentam mutuamente.

Apesar de alguns momentos, Normal foi um fracasso comercial e
marcou o fim da fase Warner de Lulu Santos.

Lulu é um disco que equilibra a sedução pop com a inquietação criativa. Combina pop rock, baladas confessionais, ecos de funk, reggae e ska, explorando tanto a emoção íntima quanto a ironia cultural. Entre melodias luminosas e atmosferas experimentais, revela tanto a revelação íntima quanto o olhar crítico sobre a cultura de seu tempo. Um retrato vibrante da maturidade artística de Lulu Santos nos anos 1980.

O álbum começa com o ritmo vibrante do pop rock “Casa” e seu refrão forte e imediato, desses que parecem ter nascido para ser cantados em coro. É luz e energia condensadas em pouco mais de três minutos, prova do talento de Lulu em transformar sensações em melodias grudentas. Em seguida, “Condição” mergulha na experimentação: guitarras distorcidas, vocoder, baixo pulsante de Arthur Maia e um pé no funk eletrônico. É música de pista, mas com um olhar curioso para os recursos tecnológicos da época.

“Minha Vida” quebra o ritmo, entregando uma balada melancólica e autobiográfica que revela o lado mais vulnerável de Lulu Santos. O piano etéreo e o canto contido fazem dela uma das peças mais emocionais de sua carreira. Já “Pé Atrás” funciona como um respiro: pop simples, leve, sem pretensões, mas capaz de traduzir a confusão de uma rejeição inesperada. E então vem “Um Pro Outro”, balada pop de melodia perfeita, que se tornou onipresente graças à novela Brega & Chique, da TV Globo, exibida em 1987. Se “Minha Vida” é dor, “Um Pro Outro” oferece a promessa de redenção pelo encontro afetivo.

Enquanto o lado A é dominado por hits e melodias que grudam aos ouvido, o lado B é um campo de risco e invenção. “Twist, o Disco” mistura rock, mambo, disco music e até tango numa crônica irônica sobre modismos. É Lulu Santos comentando os anos 1980 com humor e inteligência. “Duplo Sentido”, por sua vez, aposta no ska rápido e brincalhão, onde dilemas existenciais se encontram com o desejo de liberdade. “Telegrama”, composta com Scarlet Moon (1950-2013), companheira do cantor, é confessional e íntima, marcada pelos solos distorcidos de guitarra do próprio Lulu. Em “Demon”, o artista canta em inglês sobre uma base reggae, num flerte claro com a internacionalização.

E no encerramento do disco, “Ro-Que-Se-Da-Ne”, um deboche roqueiro que poderia estar na discografia do Ultraje A Rigor. Lulu se diverte imitando Roger Moreira, vocalista da banda paulista, acompanhado pelos solos de Paul de Castro, enquanto dispara críticas mordazes à indústria fonográfica e aos excessos de sua cena.

Parceria na vida conjugal e na arte: Lulu Santos e Scarlet Moon compuseram juntos "Telegrama".

Lulu foi um sucesso estrondoso. Vendeu 250 mil cópias e emplacou três faixas — “Casa”, “Um Pro Outro” e “Minha Vida” — entre as mais executadas nas rádios. Nada mal para quem vinha de um álbum anterior malsucedido comercialmente. Apesar do êxito, o disco teve a faixa “Ro-Que-Se-Da-Ne” censurada por causa da letra, considerada “imprópria” para a época.

A imprensa recebeu o álbum com certo espanto. Havia quem desconfiasse de seu caráter pop demais, mas a coesão e a ousadia estética acabaram convencendo até os críticos mais resistentes. O trabalho foi entendido como um passo adiante em relação ao pop radiofônico do início da década — uma obra que conseguia unir apelo popular e inquietação criativa.

Lulu consolidou de vez a imagem de Lulu Santos como um artesão do pop brasileiro, capaz de dialogar com as massas sem abrir mão da experimentação. O disco se tornou uma espécie de síntese de sua trajetória até ali: a verve pop de Tempos Modernos, a sofisticação de Tudo Azul e a ousadia de Normal — desta vez costurados com maestria.

Ao ouvir Lulu, ainda é possível sentir o frescor de uma era em que a música brasileira ousava ser pop sem pedir desculpas, e, ao mesmo tempo, ousava experimentar, rir, criticar, amar. O disco é, acima de tudo, um testemunho de que o pop pode ser tão profundo quanto libertador.

Faixas

Todas as composições de autoria de Lulu Santos, exceto onde estiver indicado.  

Lado 1

  1. "Casa (O Eterno Retorno)"
  2. "Condição"
  3. "Minha Vida"
  4. "Pé Atrás"
  5. "Um Pro Outro" 

Lado 2

  1. "Twist (Disco)"
  2. "Duplo Sentido"
  3. "Telegrama" (Lulu Santos - Scarlet Moon)
  4. "Demon"
  5. "Ro-Que-Se-Da-Ne (Junte as Sílabas e Forme Novas Palavrinhas)"

"Casa"

"Condição"

"Minha Vida"

"Pé Atrás"

"Um Pro Outro"

"Twist"

"Duplo Sentido"

"Telegrama"

"Demon"

"Ro-Que-Se-Da-Ne" 

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