Station to Station (RCA Records, 1976), David Bowie


Por Sidney Falcão

Em janeiro de 1976, David Bowie (1947-2016) lançou um dos discos mais enigmáticos e decisivos de sua trajetória: Station to Station. À primeira vista, um álbum de apenas seis faixas, embalado em uma capa que traz uma imagem em preto e branco extraída de uma cena do filme The Man Who Fell to Earth (no Brasil: O Homem Que Caiu Na Terra), estrelado pelo próprio Bowie. Mas por trás da economia visual e do aparente minimalismo, escondia-se uma obra que condensava a tensão entre vício e lucidez, desespero e grandeza, fé e ocultismo, tudo filtrado pela persona gélida e aristocrática do Thin White Duke (O Magro Duque Branco), última personagem musical incorporada nos palcos pelo cantor inglês. 

Para entender a dimensão desse disco, é preciso voltar a 1975. Bowie havia conquistado os Estados Unidos com o álbum Young Americans, sua guinada “plastic soul”, coroada pelo seu primeiro número 1 no país, “Fame”. Com dinheiro, prestígio e um contrato recém-concluído com a antiga equipe de empresários, mudou-se para Los Angeles, fixando-se em uma mansão em Bel Air. O brilho externo escondia um cotidiano sombrio: consumo diário e maciço de cocaína, insônia crônica, paranoia, rituais de ocultismo, símbolos rabiscados por horas à luz de velas pretas, medo de Jimmy Page, de bruxas e até de ter seu sêmen roubado. Sua dieta resumia-se a leite, pimentões e a droga que o mantinha desperto por dias: cocaína. 

Nesse estado febril, Bowie concluiu as filmagens de The Man Who Fell to Earth, encarnando Thomas Jerome Newton, um alienígena que, ao chegar à Terra, acaba corrompido por suas tentações. O papel, avisou o diretor Nicolas Roeg (1928-2018), poderia persegui-lo depois que as câmeras parassem — e perseguiu. Newton foi o molde para o Thin White Duke, novo personagem que Bowie levaria ao palco e à imprensa: um aristocrata europeu, magro e impecavelmente vestido, cantando sobre romance e espiritualidade com frieza quase sobrenatural. 

Station to Station nasceu nesse turbilhão. Gravado principalmente no Cherokee Studios, em Los Angeles, com produção de Bowie e Harry Maslin, o álbum marcou a consolidação da banda que o acompanharia pelo resto da década: Carlos Alomar na guitarra, George Murray no baixo e Dennis Davis na bateria, além de Earl Slick e do pianista Roy Bittan, do E Street Band. Ao contrário de trabalhos anteriores, Bowie chegou ao estúdio com ideias fragmentadas, que foram moldadas e expandidas durante longas sessões que atravessavam madrugadas, alimentadas por improviso e experimentação. 

Musicalmente, o disco é um ponto de transição: ainda carrega o funk e o soul de Young Americans, mas começa a insinuar as paisagens eletrônicas e minimalistas que Bowie aprofundaria na Trilogia de Berlim. As influências de Kraftwerk, Neu! e Can se misturam ao groove negro-americano, criando um híbrido glacial e magnético que críticos chamariam de “ice-funk”, “art-funk” e “avant-pop”. 

David Bowie como um alienígena no filme O Homem que Caiu na Terra, de 1976.

Bowie abre Station to Station com um épico que mais parece um ritual de invocação. A faixa-título, com seus mais de dez minutos, começa no aço frio de um trem que parte — não um trem qualquer, mas uma locomotiva de distorção e delay esculpida pela guitarra de Earl Slick, empurrando o ouvinte para dentro de um corredor entre as Estações da Cruz e a Árvore da Vida cabalística. O Thin White Duke surge no meio da penumbra, lançando “dardos nos olhos dos amantes” com a precisão de um aristocrata que joga o destino como quem joga dados. Aos cinco minutos, o quadro se rompe e a música explode num groove quase solar, onde Bowie, entre ocultismo e afeto, dispara uma das frases mais desconcertantes de sua carreira: “It’s not the side effects of the cocaine, I’m thinking that it must be love” (“Não são os efeitos colaterais da cocaína, estou pensando que deve ser amor”). É a viagem da sombra para a luz, mas feita num trilho instável. 

Em “Golden Years”, o álbum deixa o cerimonial e pisca para a pista de dança. Criada para Elvis Presley, mas retida como jóia pessoal, é o single que conquistou o top 10 americano. O balanço herdado de Young Americans está lá, mas com um brilho endurecido, um sorriso que carrega cansaço. O refrão, “Look at the sky, life’s begun” (“Olhe para o céu, a vida começou”), soa como convite hedonista, mas, por baixo, é Bowie falando para si mesmo, tentando acordar do torpor. A performance no Soul Train (programa da TV americana de música negra de grande sucesso nos anos 1970), com o cantor visivelmente alterado, virou documento histórico dessa tensão. 

O clima muda em “Word on a Wing”, talvez a confissão mais direta de Bowie nos anos 70. Escrita em meio ao isolamento e à paranoia das filmagens de The Man Who Fell to Earth, é uma oração sem disfarces: “Lord, I kneel and offer you my word on a wing” (“Senhor, eu me ajoelho e ofereço a você minha palavra em uma asa”). A melodia é grandiosa, quase gospel, e a entrega vocal expõe fissuras no gelo do Duque. É o homem real, frágil, pedindo proteção — e isso pesa mais do que qualquer ornamento sonoro. 

Em “TVC 15”, Bowie retoma o humor e a estranheza. Inspirada por um delírio de Iggy Pop em que a namorada era engolida pela televisão, a faixa é uma cápsula de doo-wop futurista. Brinca com a alienação tecnológica e dialoga com a cena de The Man Who Fell to Earth em que Newton se perde diante de dezenas de telas. É pop com um leve sabor de alucinação. 

“Stay” leva o álbum ao território mais físico. Nascida de uma jam intensa, a música é puro duelo: guitarras cortantes cruzando lâminas sobre a base perfeita de Alomar, Murray e Davis. Bowie surge como convidado na própria faixa, narrando desejo e paranoia: “This time tomorrow I will know what to do” (“Amanhã a esta hora saberei o que fazer”). A tensão é quase palpável; a claustrofobia, também. 

Bowie "encarnando" o Thin White Duke (O Magro Duque Branco),
seu último personagem nos palcos.

O fechamento com “Wild Is the Wind” é como apagar as luzes depois de uma noite longa demais. Influenciado pela leitura intensa de Nina Simone (1933-2003), Bowie oferece uma das interpretações mais emocionais de sua carreira. Voz contida, cada verso medido como quem segura algo precioso demais para se perder no ar. Diz-se que Frank Sinatra (1915-1998) aprovou a gravação; não é difícil entender por quê. É um sopro final, um abraço depois da tempestade, a lembrança de que, mesmo no olho do furacão, Bowie sabia ser puro lirismo. 

Lançado em 23 de janeiro de 1976, Station to Station alcançou o 5º lugar no Reino Unido e o 3º nos Estados Unidos — sua melhor posição até então na Billboard. Todos os seis temas seriam lançados como singles em algum momento, reforçando a coesão e o potencial comercial do material. A turnê Isolar, iniciada logo após o lançamento, levou o Thin White Duke aos palcos, consolidando a estética monocromática e minimalista da era. 

A crítica recebeu o disco com entusiasmo, ainda que alguns estranhassem sua frieza calculada. NME chamou-o de “um dos álbuns mais significativos dos últimos cinco anos”, enquanto Lester Bangs (1948-1982), geralmente um detrator de Bowie, reconheceu no álbum a “primeira obra-prima” do cantor. Outros, como Billboard, elogiaram os momentos mais roqueiros, mas estranharam a longa duração da faixa-título. Durante as décadas seguintes, Station to Station só cresceu em reputação. É visto como marco de transição — o “meio exato” entre Young Americans e Low — e como obra-prima que antecipa o experimentalismo da Trilogia de Berlim. Críticos como David Buckley o consideram talvez seu álbum mais coeso, equilibrando inovação e acessibilidade. 

Atualmente, Station to Station é encarado não apenas como um registro musical, mas como um documento de uma travessia. É Bowie à beira do colapso físico e mental, mas também no limiar de uma reinvenção radical. Poucos meses depois, mudaria-se para a Europa, buscando escapar da cultura de excessos de Los Angeles e mergulhar nas atmosferas frias e industriais de Berlim. 

O Thin White Duke permaneceria como um fantasma em sua mitologia: sedutor, elegante, mas vazio por dentro. Em entrevistas posteriores, Bowie descreveu-o como “um personagem desagradável” e disse ouvir o álbum como “obra de outra pessoa”. Ainda assim, ao revisitar Station to Station, é impossível não sentir a força de um artista que, mesmo cercado por trevas e delírio, construiu um disco de precisão, intensidade e beleza quase sobrenaturais — um trem que parte da escuridão e, faixa a faixa, avança em direção à luz.

 

Faixas

Todas as músicas escritas por David Bowie, exceto as indicadas. 

Lado A

  1. "Station to Station"
  2. "Golden Years"
  3. "Word on a Wing" 

Lado B

  1. "TVC 15"
  2. "Stay"
  3. "Wild Is the Wind" (Ned Washington, Dimitri Tiomkin)

 

Referências:

Bowie album by album – Paolo Hewitt, Palazzo Editions, 2016, Londres, Reino Unido

Classic Pop Presents - The Bowie Years Vol. 2 – abril/2018, Anthem Publishing, Bath, Reino Unido

wikiédia.org 


Ouça na íntegra o álbum 
Station to Station.

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