Desire (Columbia Records / 1976), Bob Dylan


Por Sidney Falcão

Não se entra em Desire como quem entra em uma sala de estar. O disco é uma tenda cigana, um palco iluminado por tochas em uma estrada poeirenta onde se encenam crimes, lamentos, perseguições e amores irrecuperáveis. Gravado em meio à efervescência da turnê Rolling Thunder Revue e lançado em janeiro de 1976, Desire é mais que um disco de Bob Dylan: é um estado febril. Um delírio musical que funde o jornalismo gonzo com a poesia mística, o cancioneiro popular com o teatro de guerra. 

Dylan vinha do desmonte emocional de Blood on the Tracks (1975), um divórcio musicado, um ajuste de contas com a própria alma. Em Desire, a dor continua, mas se projeta para fora. É uma dor que narra, que dramatiza, que recria mitos. Para isso, Dylan se cerca de cúmplices. Jacques Levy (1935-2004), dramaturgo e letrista, entra como parceiro em quase todas as composições. Scarlet Rivera, com seu violino abrasado, traz um exotismo febril que atravessa o disco de ponta a ponta. Emmylou Harris, com sua voz etérea, contraponta o tom profético do bardo com uma doçura terrena. 

Mas Desire não quer conforto. Quer intensidade. Quer transformação. É um disco que irrompe, que desafia o ouvinte a entrar no jogo de espelhos que Dylan encena. 

Apresentação de Bob Dylan no concerto Rolling Thunder Rview, em benefício
da defesa do pugilista Rubin "Hurricane" Carter, em 8 de dezmebro de 1975,
no Madison Square Garden, em Nova York.

Canções como paisagens em combustão 

O álbum começa com “Hurricane”, canção “quilométrica” que é um soco: "Tiros de pistola ecoam na noite do bar”. Com essa frase, Dylan joga o ouvinte dentro de um tribunal. “Hurricane” é a crônica indignada do caso Rubin Carter, pugilista negro acusado injustamente de assassinato. A canção é jornalismo, é protesto, é narrativa cinematográfica. Em oito minutos, Dylan transforma a balada folk em panfleto e a panfletagem em ópera. 

Em “Isis”, começa o Dylan xamânico. Uma odisseia surrealista entre montanhas geladas e templos esquecidos, onde o casamento vira rito iniciático e a mulher amada se confunde com uma deusa. A percussão seca e o piano hipnótico criam uma atmosfera ritualística. É Dylan em seu papel mais teatral: o contador de fábulas que embaralha tempo, geografia e simbolismo. 

Depois do delírio, o sarcasmo. “Mozambique” é uma balada folk que celebra uma praia paradisíaca enquanto o país real sangrava em guerra civil. Críticos se dividiram: seria Dylan debochando da ignorância norte-americana? Ou apenas relaxando? A leveza disfarça a ambiguidade. 

“One More Cup of Coffee (Valley Below)” traz violinos lamentosos, um ritmo arrastado como uma procissão. Dylan canta para uma mulher cuja alma pertence às estrelas. A canção ecoa tradições do Oriente Médio, com influências de música cigana e judaica. Uma despedida em forma de ladainha, ao mesmo tempo amorosa e resignada. 

Bob Dylan e o dramaturgo e letrista Jacques Levy em 1975: parceiros em quase
todas as faixas do disco.

“Oh, Sister” traz Dylan e Emmylou Harris num dueto que soa como se cantassem de dentro de uma capela abandonada. Uma canção fraternal e ambígua, que pode ser lida tanto como invocação religiosa quanto como um drama incestuoso. O violão limpa, o violino, a gaita e os vocais entrelaçados criam um clima de suspensão emocional. 

A faixa seguinte, “Joey”, talvez seja a faixa mais controversa da carreira de Bob Dylan. Uma longa e arrastada balada sobre Joe Gallo (1929-1972), mafioso de Nova York. Dylan o pinta como vítima do sistema, um fora-da-lei romântico. A imprensa torceu o nariz; a esquerda ficou indignada. Mas a narrativa é tão envolvente que é difícil escapar da hipnose moral que a canção propõe. 

“Romance in Durango” traz maracas, castanholas e um Bob Dylan meio bandido, meio Don Juan. A canção é um western latino, falado metade em espanhol, metade em inglês. Um casal foge da justiça no México, entre desertos e fantasmas. O dueto vocal de Dylan e Emmylou Harris emprega à canção um tom melodramático. Contudo, Scarlet Rivera brilha aqui, como se seu violino traduzisse o calor e a poeira da cena. Em 1987, “Romance in Durango” foi regravada em português no Brasil por Raimundo Fagner, com o título “Romance no Deserto”, dando também nome ao álbum lançado naquele ano. 

“Black Diamond Bay” é marcada por uma narrativa fragmentada, em terceira pessoa, com uma multiplicidade de personagens e um desastre iminente. Lembra um conto de Graham Greene (1904-1991) com direção de Fellini (1920-1993). No fim, descobre-se que tudo foi visto pelo narrador na televisão. A ironia é aguda: a tragédia virou notícia, e a notícia, nada. 

Fechando o álbum, “Sara”, a canção mais dolorosamente direta que Dylan já escreveu. Um pedido de reconciliação com sua esposa, Sara Lownds, que assistia à gravação em silêncio. Dylan cita momentos da vida a dois, relembra viagens e promessas, e se despede como quem se ajoelha. É um final sem catarse, mas com amor. Amor verdadeiro, ainda que maldito. 

Detalhe da contracapa do álbum Desire.

Repercussão, vendas e papel na mitologia Dylan

Desire alcançou o topo da Billboard e vendeu mais de dois milhões de cópias só nos Estados Unidos. Foi disco de platina rápido. Mas o sucesso comercial veio acompanhado de uma recepção crítica dividida. “Hurricane” foi celebrada como um manifesto urgente, mas “Joey” virou motivo de piada. Alguns viram Dylan como um oportunista em causas alheias; outros, como um gênio ainda inquieto, reinventando a canção como narrativa polifônica.

A verdade é que Dylan, mais uma vez, recusou o papel que lhe haviam reservado. Se esperavam dele introspecção e luto, ele ofereceu teatro e explosão. Se Blood on the Tracks era um quarto escuro com uma vela acesa, Desire é uma arena ao ar livre com fogueiras dançantes.

Em termos de carreira, o álbum consolida a fase performática de Dylan. A turnê Rolling Thunder Revue, com sua estética de carnaval itinerante, é a extensão visual e conceitual do disco. O cantor se torna personagem: com o rosto pintado de branco, como um pierrot exausto, Dylan desfila sua trupe por pequenas cidades, tocando em ginásios e teatros locais, reencenando Desire como se fosse um musical de estradas.

O legado de um disco em constante combustão

Passado tanto tempo desde os eu lançamento, Desire ainda intriga. É um disco que resiste à classificação, que se insinua como farsa e termina como confissão. Sua sonoridade quente, suas letras hiperbólicas, seu senso de drama e sua ousadia narrativa continuam a desafiá-lo dentro da própria discografia de Dylan.

Mais do que um álbum, Desire é um espelho em chamas: reflete quem olha, mas em chamas, distorcido, sublime. Um Dylan em trânsito entre o mito e o homem, entre o palanque e o travesseiro. Um disco que ainda pergunta mais do que responde. E cuja pergunta ecoa: o que é mais verdadeiro? O fato? Ou a canção sobre ele?

 

Faixas

Todas as faixas por Bob Dylan e Jacques Levy, exceto as indicadas. 

Lado 1

  1. "Hurricane" – 8:33
  2. "Isis" – 6:58
  3. "Mozambique" – 3:00
  4. "One More Cup of Coffee (Valley Below)" (Dylan) – 3:43
  5. "Oh, Sister" – 4:05 

Lado 2

  1. "Joey" – 11:05
  2. "Romance in Durango" – 5:50
  3. "Black Diamond Bay" – 7:30
  4. "Sara" (Dylan) – 5:29 
Referências:

wikipedia.org

pitchfork.com 


Ouça na íntegra o álbum Desire.


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