“Canções Praieiras” (Odeon, 1954), Dorival Caymmi
Foi através
do seu inesquecível violão e da sua voz poderosa que Dorival Caymmi cantou para
o mundo a cultura e as tradições da Bahia, sua amada terra natal. Da culinária
baiana à religião, das lendas e mistérios aos lugares paradisíacos da Bahia,
passando por personagens do cotidiano baiano como a baiana do acarajé e o
pescador, todos esses elementos representativos da Bahia serviram de fonte de
inspiração para Dorival Caymmi construir a sua obra.
Dentro desse
universo musical de Caymmi, a temática praieira se tornou uma marca muito forte
dentro da obra do cantor baiano. Poucos artistas na música brasileira cantaram
com tanta maestria o mar e com tanta verdade a vida praieira como Dorival
Caymmi. O fato de ter nascido numa cidade litorânea como Salvador, ajudou
Dorival a ter uma fonte rica de referências para ele compor canções falando da
vida dos pescadores, de suas esposas, das lendas e da vida difícil de quem tira
o seu sustento da pesca no mar.
Filho de um
funcionário público e de uma dona de casa, Dorival Caymmi nasceu em Salvador,
Bahia, em 30 de abril de 1914. Seu sobrenome Caymmi veio do bisavô paterno, um
italiano que migrou para Salvador para trabalhar nos reparos técnicos no
Elevador Lacerda, ainda na sua antiga versão, em meados da segunda metade do
século XIX. O pai de Caymmi era músico amador e a mãe gostava de cantar.
Durante a
adolescência Caymmi trabalhou na redação do jornal O Imparcial, de
Salvador, depois trabalhou como vendedor de bebidas. Aos 19 anos, Dorival
aprendeu a tocar violão com seu pai e com um tio. Em 1934, começou a carreira artística
se apresentando na Rádio Clube da Bahia e, quatro anos depois, já estava
deixando Salvador para tentar a sorte no Rio de Janeiro, então capital do
Brasil e onde se concentravam as grandes emissoras de rádio, as gravadoras e os
grandes dos artistas do país.
No Rio de
Janeiro, Dorival Caymmi consegue um emprego na redação de O Jornal, do
grupo Diários Associados e, no mesmo ano, torna-se atração fixa da Rádio Tupi.
No mesmo ano, consegue um contrato com a gravadora Odeon. A fama começa a
chegar para Caymmi em 1939, depois que Carmen Miranda (1909-1955) grava uma canção
de sua autoria, “O Que É Que A Baiana Tem?”, incluída no filme Banana da
Terra, do diretor Wallace Downey (1902-1978), e que se torna um enorme sucesso
naquele ano.
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Dorival Caymmi, em início de carreira, ao lado de Carmen Miranda e Assis Valente, na Rádio Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro. |
A carreira
de Caymmi decola nos anos 1940 com uma sucessão de lançamentos de discos em 78
rotações por minuto, trazendo sambas inspirados na Bahia e canções praieiras
que se tornaram grandes sucessos como “O Mar”, “É Doce Morrer No Mar”, “A
vizinha do lado” e “Samba da Minha Terra”. No final dos anos 1940, Caymmi
começa a se dedicar também ao samba-canção, causando uma certa estranheza à
crítica, já que o cantor estava consolidado com seus sambas alegres e suas
canções praieiras. O samba-canção “Marina” foi um grande sucesso em 1947, e
mostrou que Caymmi também tinha habilidade para compor e cantar canções nesse gênero.
Entre 1949 e
1952, Caymmi não lança nenhum disco, apenas faz apresentações em boates, que se
multiplicavam no Rio de Janeiro naquela época após o fim dos cassinos por
decreto do governo federal. Era o declínio das orquestras, e ascensão dos
quartetos ao estilo jazzístico. Caymmi no entanto, apresenta-se apenas com a
sua voz e violão, o que acabaria influenciando a bossa nova que estava por vir.
Após tantos
discos de 78 rotações lançados e com uma carreira consolidada, finalmente
Dorival Caymmi lança em 1954 o seu primeiro LP (long playing), Canções
Praieiras, aos 40 anos de idade. O LP era uma novidade no Brasil
naquela primeira metade dos anos 1950, era o mais novo e avançado formato de
mídia musical naquela época, por caber mais músicas e ter uma qualidade sonora
superior aos discos de 78 rotações que traziam apenas duas músicas e uma
qualidade de áudio inferior.
Lançado pela
gravadora Odeon, Canções Praieiras foi lançado como LP de dez
polegadas e com oito canções. E como sugere o título, é um álbum que reúne
canções com temática praieira. O repertório do álbum é formado por canções compostas
e gravadas por Caymmi nos anos 1940, algumas delas gravadas também por outros
artistas. Porém, para o álbum Canções Praieiras, Caymmi as
regravou e desta vez apenas com voz e violão. A única canção até então inédita
era “O Bem do Mar”.
Embora seja
um disco bastante simples, só à base de voz e violão, Dorival Caymmi conseguiu
imprimir dramaticidade nas canções e criar toda uma sensação que leva o ouvinte
a imaginar as cenas retratadas pelos versos como se estivesse vendo um filme.
O álbum
começa ao som do violão e do assobio tranquilo de Caymmi que dá início à canção
“Quem Vem Pra Beira do Mar”. A linha melódica da canção parece simular o
movimento do “vai e vem” da água do mar na beira da praia.
A canção
seguinte, “O Bem do Mar”, é sobre os dois amores da vida de um pescador,
segundo Caymmi: a esposa e o mar. O bem de terra, como diz a letra é a esposa
do pescador, a mulher, a companheira que o acompanha quando ele parte para o
mar, e a mesma que o aguarda na beira da praia esperando-o voltar de mais um dia
de pesca. O bem do mar é o lugar de trabalho do pescador, é de onde ele tira o
sustento da família, e que em algumas situações, arrisca a própria vida para
garantir esse sustento.
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O mar e os pescadores foram algumas das grandes inspirações para o cancioneiros de Dorival Caymmi. |
As canções
praieiras de Caymmi falam de vida, de amores, de pesca, mas também falam de
morte e de tragédia. “O Mar”, que já havia sido gravada antes por Dorival em
1943, é uma canção bonita, mas ao mesmo tempo muito triste. Versa sobre o
pescador Pedro, que costumava se lançar à noite ao mar com seu barco para
pescar e só retornava no raiar do dia. Contudo, num certo dia, Pedro não
voltou. Seu corpo foi encontrado numa praia distante do arraial onde morava,
roído pelos peixes. A morte de Pedro não deixou apenas o arraial triste, mas
também Rosinha de Chica, a mocinha que era apaixonada por ele.
“Pescaria”
(também conhecida como “Canoeiro”) retrata o trabalho árduo e repetitivo dos
pescadores. Dorival imprime um ritmo veloz no andamento da música e no seu
canto para ressaltar o processo repetitivo e cansativo do trabalho dos pescadores.
“É Doce Morrer No Mar” é outra canção antiga de Dorival, gravada por ele 1943,
e que reaparece neste disco numa nova gravação. É outra canção triste e
misteriosa, em que um marinheiro saiu no seu saveiro à noite, e na madrugada, a
embarcação voltou sozinha, sem o seu dono. O marinheiro teria sido levado para
as profundezas do mar por Iemanjá.
Desaparecimento
e tristeza também marcam os versos de “A Jangada Voltou Só”, canção que foi
gravada anteriormente por Caymmi em 1943, e regravada pelo artista para este
álbum. “A Jangada Voltou Só” é sobre os pescadores Chico Ferreira e Bento, que
partiram com sua jangada para pescar, mas misteriosamente, a jangada voltou sem
os dois pescadores. O canto pausado e grave de Caymmi acentuam o tom
melancólico e funesto dos versos.
Em “A Lenda
do Abaeté” Caymmi canta os mistérios e lendas sobre a famosa lagoa de águas
escuras cercada de areia branca e que povoam o imaginário do povo baiano. O
álbum termina com “Saudade de Itapoã”, canção que apresenta em versos o poder
mágico e sedutor da Praia de Itapoã, em Salvador, que na época em que foi
gravada, ainda guardava toda a aura de um lugar paradisíaco.
Após a
simplicidade de Canções Praieiras, Dorival Caymmi lançou em 1955
o seu segundo álbum, Sambas, um disco que já traz arranjos mais
robustos, recheados de orquestrações e conjunto vocal. Mas é justamente a
simplicidade e a elegância do violão de Caymmi em Canções Praieiras que
irá direcionar e influenciar os futuros caminhos que a música brasileira iria
trilhar.
Faixas
Todas de
autoria de Dorival Caymmi
Lado 1
01 – “Quem
Vem Pra Beira do Mar”
02 – “O Bem
do Mar”
03 – “O Mar”
04 – “Pescaria (Canoeiro)”
Lado 2
05 – “É Doce
Morrer no Mar”
06 – “A
Jangada Voltou Só”
07 – “Lenda
do Abaeté”
08 – “Saudade
de Itapoã”
Muito bom,o texto e as canções.
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