“Afrociberdelia” (Chaos/Sony Music, 1996), Chico Science & Nação Zumbi
Por Sidney Falcão
Os
pernambucanos da banda Chico Science & Nação Zumbi desfrutavam de prestígio
graças ao aclamadíssimo álbum de estreia Da Lama Ao Caos, lançado
em 1994. O disco conquistou a opinião da crítica e surpreendeu o público, que
comprou 100 mil cópias do álbum. Da Lama Ao Caos abriu portas e
atravessou fronteiras. Em 1995, Chico Science & Nação Zumbi levaram a nova
música pernambucana para fora do Brasil através da turnê intitulada From Mud
To Chaos (Da Lama Ao Caos em inglês), que passou pela Alemanha,
Suíça, Holanda, Bélgica e Estados Unidos.
Na Suíça, os
pernambucanos se apresentaram no legendário Festival de Montreaux. A passagem
de Chico Science & Nação Zumbi pelos Estados Unidos incluiu apresentação no
CBGB, em Nova York, “templo sagrado” do punk nova-iorquino que revelou Ramones,
Blondie, Talking Heads e Television.
Após
deixarem uma ótima impressão no exterior, Chico Science & Nação Zumbi
retornaram para o Brasil com a moral lá em cima. Foram escalados para se
apresentarem na 8ª e última edição do Festival Hollywood Rock, com shows em São
Paulo e Rio de Janeiro. A band pernambucana tocou nos mesmos dias em que estavam
escalados Cidade Negra, Steel Pulse, Aswad e Gilberto Gil, em janeiro de 1996.
Àquelas
alturas, Chico Science & Nação Zumbi já estavam em processo de gravação do
segundo álbum de estúdio, iniciado em dezembro de 1995, no estúdio Nas Nuvens,
no Rio de Janeiro. A turnê internacional do álbum Da Lama Ao Caos
ampliou o leque de referências musicais da banda pernambucana, a partir dos
contatos que o grupo teve com artistas estrangeiros e discos adquiridos no
exterior. Para a produção do novo álbum, apostaram num produtor em início de
carreira, Eduardo Bid. Era o primeiro álbum que Bid estava produzindo na sua
carreira. Para o seu segundo álbum de estúdio, Chico Science & Nação Zumbi
buscavam trazer para o estúdio a crueza, o peso e a vibração que a banda
promovia no palco, algo que não havia conseguido em Da Lama Ao Caos,
embora fosse um trabalho muito bem produzido pelo consagrado Liminha.
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CSNZ, o produtor Eduardo Bid (de óculos escuros e braços cruzados) e o técnico de som G-Spot (camisa preta), no estúdio durante as gravações de Afrociberdelia. |
Batizado de Afrociberdelia, o segundo álbum da banda Chico Science & Nação Zumbi foi lançado em 15 de maio de 1996. O curioso título do álbum é um neologismo que deriva da junção das palavras afro, ciberderdelia e psicodelia, ou seja, o disco propõe uma fusão de referências de ritmos africanos, música eletrônica e rock psicodélico. É bem verdade que a palavra afrociberdelia já estava presente no título da última faixa do álbum Da Lama Ao Caos, “Coco Dub (Afrociberdelia)”. Se por um lado, Chico Science é a grande estrela do álbum, merecem destaque também as performances do guitarrista Lúcio Maia, do baixista Alexandre Dengue, e do núcleo percussivo da banda.
“Mateus
Enter” é uma faixa curta, uma espécie de vinheta introdutória para a audição do
álbum, em que Chico Science canta a plenos pulmões versos que anunciam a banda,
sob uma base rítmica pesada. “O Cidadão do Mundo” traz na sua base instrumental
uma interessante alternância rítmica entre uma batida eletrônica, rap e ritmos
nordestinos. O vocalista Chico Science ora canta, ora declama os versos como
numa embolada, um estilo musical muito popular no nordeste brasileiro em que os
cantadores, acompanhados de pandeiro, entoam versos improvisados de maneira tão
rápida que as palavras soam quase que “emboladas” para quem ouve, daí o nome
dado ao estilo.
A
miscigenação brasileira é o tema de “Etnia”: “Somos todos juntos uma
miscigenação / E não podemos fugir da nossa etnia / Índios, brancos, negros e
mestiços / Nada de errado em seus princípios”. “Quilombo Groove” é uma
faixa instrumental que começa com uma batida percussiva que remete à música dos
terreiros de candomblé, e que gradativamente, a música muda o seu ritmo
direcionando-se para um rock lento, pesado e experimental. Em “Macô”, Chico
Science & Nação Zumbi contam com a ilustre participação especial de
Gilberto Gil fazendo dueto com Chico nos vocais, e Marcelo D2 nos vocais de
apoio. “Macô” é uma das melhores faixas de Afrociberdelia, e
contém uma base funk com uma linha de baixo hipnótica e uma percussão
arrasadora.
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Gilberto Gil e Chico Science no estúdio, em 1996: dueto na faixa "Macô". |
Em “Passeio
No Mundo Livre”, um misto de funk e manguebeat, Chico canta a liberdade de ir e
vir, de andar onde quiser e quando quiser: “Eu só quero andar nas ruas do
Brasil / Andar com o mundo livre / Sem ter sociedade / Andando pelo mundo / E
todas as cidades / Andar com os meus amigos”. Com participação de Fred Zero
Quatro (vocalista da banda Mundo Livre S/A) tocando cavaquinho, “Samba de Lado”
possui uma contagiante comunhão entre a base rítmica empregada pela Nação Zumbi
e o canto sincopado de Chico Science.
Composta por
Jorge Mautner e Nelson Jacobina, “Maracatu Atômico” foi gravada pelo próprio
Mautner em 1974, porém gravada um ano antes por Gilberto Gil, cuja versão ficou
mais conhecida do que a do autor. Mas 22 anos depois, “Maracatu Atômico” ganhou
uma versão definitiva com Chico Science & Nação Zumbi, e que foi a primeira
música de trabalho de Afrociberdelia e um grande sucesso na
carreira da banda pernambucana. Na curta e experimental “O Encontro de Isaac
Asimov com Santos Dumont no Céu”, Chico Science & Nação Zumbi promovem o
encontro da psicodelia com o manguebeat. “Corpo de Lama” leva o ouvinte a
refletir que, independentemente das diferenças econômicas, culturais,
religiosas ou políticas, sempre vai existir alguém como a gente em algum lugar
deste mundo. Na sequência, “Sobremesa”, uma música que começa com versos em
inglês e depois prossegue em português em que Chico Science declama versos
surreais que mais parecem descrever alguma pintura de Salvador Dali ou de René
Magritte.
“Manguetown”
foi outra faixa de Afrociberdelia que se destacou e virou hit de
Chico Science & Nação Zumbi. O título faz referência ao Recife,
cidade-natal da banda, e traz aspectos da desigualdade social da capital
pernambucana. A letra registra a vida dura e sofrida de um jovem pobre, que
encontra nas saídas noturnas para beber com os amigos, uma forma de aplacar
aquela vida miserável e sem perspectivas. “Um Satélite na Cabeça” faz em seu
título alusão à figura do mangueboy conectado ao mundo, mesmo sem sair do meio
social em que vive. A letra seria uma crítica aos grandes meios de comunicação,
que segundo a banda, não dariam visibilidade ao povo que habita a lama, nesse
caso, os miseráveis que moram nos manguezais da cidade do Recife nas condições
mais precárias.
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Ocupação irregular em áreas de mangue no Recife, em 2018. A desigualdade social na capital pernambucana é o tema central da faixa "Manguetown". |
“Baião Ambiental” é mais uma faixa instrumental presente em Afrociberdelia. É uma das músicas mais interessantes do álbum. Apesar de ser um baião, a música não possui a tradicional sanfona, apenas zabumba, triângulo e um agogô, acompanhado de uma linha de baixo irresistível. Ao final, há inserções de piano que dão um toque especial à faixa. “Sangue de Bairro”, música incluída na trilha sonora do filme Baile Perfumado (1996), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, traz uma fusão incrível de hardcore, embolada e xaxado.
Em meados
dos anos 1990, a cidade do Recife foi tachada de “4ª pior cidade do mundo para
se viver”. Talvez baseados nesse triste título, Chico Science e seus
companheiros compuseram “Enquanto O Mundo Explode”, uma música que traça um
retrato do atraso sócio-econômico do Recife naquele momento, e que na visão da
banda, não conseguia acompanhar os avanços tecnológicos e sociais que ocorriam
no mundo, o que justifica o título da música.
A curta
“Interlude Zumbi” faz referência Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, no
século XVIII. “Criança de Domingo” é mais um cover presente no álbum,
música da banda paulistana Funziona Senza Vapore, formada por ex-integrantes da
Fellini, antológica banda da cena alternativa de São Paulo, da qual, Chico
Science era um fã confesso. Única música de temática romântica do álbum, “Amor
de Muito” é uma deliciosa mistura de salsa e manguebeat.
Afrociberdelia encerra com “Samidarish”, uma música
em que na sua primeira metade é instrumental, que é seguida por um completo
silêncio levando o ouvinte a achar que o álbum acabou. Mas após a pausa,
acordes de teclado dão início à segunda parte da música, desta vez com vozes
declamando versos, em que no final, Chico canta lentamente o verso “Quem
mandou você falar de mim?”, acompanhado de uma bateria arrastada e
reverberada, e de teclados criando um clima intimista.
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Chico Science & Nação Zumbi em foto de divulgação para Afrociberdelia em 1996. |
O lançamento de Afrociberdelia foi seguido pela segunda turnê internacional de Chico Science & Nação Zumbi. A nova turnê internacional passou por alguns países da Europa (Suíça, Bélgica, França, Alemanha, Dinamarca, Holanda e Áustria) e pelos Estado Unidos. Na Bélgica, tocaram em festival do qual participaram também gente do quilate de Coolio, Beck, Ministry e Young Gods, enquanto que na Áustria, participaram de eventos ao lado de Nick Cave e Pogues. Na Suíça, participaram pela segunda vez do Festival de Montreaux, juntamente com os Paralamas do Sucesso.
A segunda
turnê internacional de Chico Science & Nação Zumbi foi vitoriosa. Enquanto
isso, Afrociberdelia teve um bom desempenho comercial, ao
alcançar a marca de 100 mil cópias vendidas, e ter conquistado o disco de ouro,
o segundo de Chico Science & Nação Zumbi. Os videoclipes de “Maracatu
Atômico” e “Manguetown” eram exibidos com frequência na MTV Brasil. O futuro
parecia se mostrar promissor para a banda pernambucana, não fosse um fato
trágico que mudaria a carreira daquele grupo.
Na noite de
2 de fevereiro de1997, Chico Science morreu num acidente de carro numa estrada
entre Recife e Olinda. Um veículo teria fechado o carro que Chico dirigia. O
cantor perdeu o controle do carro e chocou-se violentamente contra um poste,
vindo a perder a vida aos 30 anos de idade. A morte de Chico Science causou grande
comoção no cenário musical brasileiro.
Em 1998, foi
lançado o álbum duplo CSNZ, uma compilação em homenagem a Chico
Science, e que traz faixas inéditas, músicas ao vivo, covers e versões
remixes. Na então inédita “Malugo”, dedicada à memória de Chico Science, a
Nação Zumbi conta com participações especiais de Jorge Ben Jor, Fred Zero
Quatro, Marcelo Falcão e Marcelo D2.
A partir do
álbum Rádio S.Amb.A.(2000), primeiro álbum de inéditas da Nação
Zumbi após a morte de Chico Science, Jorge dü Peixe, que antes tocava alfaia (uma
espécie de tambor), assumiu oficialmente os vocais da Nação Zumbi.
Faixas
- "Mateus Enter" (Chico Science & Nação Zumbi)
- "O Cidadão do Mundo" (Chico Science & Nação Zumbi, Eduardo Bidlovski)
- "Etnia" (Chico Science - Lúcio Maia)
- "Quilombo Groove" (instrumental) (Chico Science & Nação Zumbi)
- "Macô" (Chico Science - Eduardo Bidlovski - Jorge dü Peixe)
- "Um Passeio no Mundo Livre" (Dengue – Gira - Jorge dü Peixe - Lúcio Maia – Pupilo)
- "Samba do Lado" (Chico Science & Nação Zumbi)
- "Maracatu Atômico" (Jorge Mautner - Nélson Jacobina)
- "O Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu" (H. D. Mabuse - Jorge dü Peixe)
- "Corpo de Lama" (Chico Science - Jorge dü Peixe – Dengue – Gira - Lúcio Maia)
- "Sobremesa" (Chico Science - Jorge dü Peixe - Renato L. - Chico Science & Nação Zumbi )
- "Manguetown" (Dengue - Lúcio Maia)
- "Um Satélite na Cabeça (Bitnik Generation)" (Chico Science & Nação Zumbi)
- "Baião Ambiental" (instrumental) (Dengue – Gira - Lúcio Maia)
- "Sangue de Bairro" (Chico Science – Ortinho - Chico Science & Nação Zumbi)
- "Enquanto o Mundo Explode" (Chico Science & Nação Zumbi)
- "Interlude Zumbi" (Gilmar Bolla 8 – Gira - Toca Ogam)
- "Criança de Domingo" (Cadão Volpato - Ricardo Salvagni)
- "Amor de Muito" (Chico Science & Nação Zumbi)
- "Samidarish" (instrumental) (Dengue - Lúcio Maia)
Chico Science & Nação Zumbi: Chico Science (voz), Alexandre Dengue (baixo), Gilmar Bolla 8 (alfaia), Gira (alfaia), Jorge dü Peixe (alfaia), Lúcio Maia (guitarra, violão de 12 cordas em "Criança de Domingo"), Pupilo (bateria), Toca Ogam (percussão e voz).
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