“London Calling” (CBS, 1979), The Clash
Por Sidney Falcão
O movimento punk sacudiu o cenário musical britânico em 1977
sem deixar pedra sobre pedra. Embora causasse toda uma transformação na música
no Reino Unido e influenciasse o rock e a música pop no resto do planeta, o
punk começou a perder fôlego já em 1978. A implosão dos Sex Pistols naquele ano
foi a senha para que se percebesse que um ciclo estava se encerrando. A morte do
baixista dos Pistols, Sid Viscious, em fevereiro de 1979, foi a pá de cal para
o encerramento desse ciclo.
Se por um lado, a avalanche punk chegava ao fim, um novo
momento musical no Reino Unido iniciava com a chegada do que ficou conhecido
como pós-punk, que trazia dezenas de bandas dos mais variados estilos, mas que
carregavam no seu “DNA musical” o principal legado do punk: o “faça você
mesmo”.
Enquanto o punk havia se fragmentado e dado origem a um
leque de estilos e tendências, um dos seus principais representantes seguia
firme e forte, tentando sobreviver: o The Clash.
O quarteto inglês vinha de seu segundo álbum estúdio, Give
’Em Enough Rope, lançado em novembro de 1978, produzido por Sandy
Pearlman, conhecido por ter produzido álbuns da banda de hard rock Blue Öyster
Cult. A indicação desse produtor partiu da CBS, que buscava “polir” o som do
Clash para atender o gosto do mercado norte-americano. Embora tivesse recebido
críticas positivas da imprensa musical, Give ’Em Enough Rope teve um
desempenho comercial modestíssimo nos Estados Unidos, onde ficou em 128º lugar
na parada, enquanto na terra natal do Clash, o Reino Unido, o álbum ficou em 2º
lugar.
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Capa do álbum Give 'Em Enough Rope. |
No momento em que lançava o seu segundo álbum, nos
bastidores, o Clash travava um conflito com o seu próprio empresário, Bernard
Rhodes, que mostrava-se um autoritário. Chegou a propor a saída de Mick Jones
para a entrada de Steve Jones, ex-guitarrista dos Sex Pistols que havia recém
encerrado atividades. Demitido, Rhodes foi à forra e entrou com uma ação
judicial para bloquear o faturamento do Clash.
Sem dinheiro, a banda teve a sua primeira e sonhada turnê
pelos Estados Unidos financiada pela CBS, em fevereiro de 1979. Apesar de tudo,
a passagem do quarteto pelos Estados Unidos teria sido bem proveitosa e
inspiradora. O contato da banda com a música norte-americana acabou abrindo um
leque de possibilidades musicais para o Clash, indo além do minimalismo musical
punk que a banda ajudou a propagar. Toda a bagagem musical inspiradora da turnê
norte-americana iria influenciar o perfil musical do próximo álbum: London
Calling.
A partir de maio de 1979, o Clash iniciou os ensaios para o
repertório do novo álbum no Vanilla Studio, no bairro de Pimlico, em Londres,
Inglaterra. O estúdio ficava no prédio que no passado foi um fábrica de
borracha, e que naquele momento, servia de oficina de carros. Para ter acesso
ao estúdio, Joe Strummer, Mick Jones, Paul Simonon e Topper Headon, chegaram
até a ter que passar pelos carros, mecânicos e fumaça.
Com material suficiente para preencher um álbum duplo, o
Clash começou as gravações do novo álbum em agosto de 1979, no Wessex Studios,
em Londres. Para conduzir a produção do álbum, o Clash contou com o apoio de
Guy Stevens (1943-1981), produtor que já havia trabalhado nos álbuns do Mott
The Hoople.
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O saudoso Guy Stevens, produtor do álbum London Calling. |
Embora houvesse a decisão de que o novo álbum seria lançado
em formato duplo, a postura politizada e anticapitalista do Clash – em
especial, a de Joe Strummer – levou a
banda defender a ideia do álbum duplo ser vendido ao preço de álbum simples.
Isso criou um mal-estar entre a banda e a gravadora CBS. Muito convicto da sua
ideia, o quarteto conseguiu convencer a gravadora, e o álbum duplo foi vendido
a preço de álbum simples.
London Calling chegou às lojas em 14 de dezembro de 1979, há
cerca de pouco mais de uma semana antes do Natal daquele ano. O álbum
apresentava ao público e à crítica, um Clash mais diversificado musicalmente,
ultrapassando as fronteiras do punk rock, transitando em estilos que passavam
pelo pop, jazz e rockabilly, além de se reencontrar com estilos que a banda já
experimentara nos dois álbuns anteriores como ska e reggae. Porém, o discurso
politizado do grupo continuava afiado como nos dois primeiros álbuns tal qual
uma lâmina.
A capa de London Calling mostra o baixista
Paul Simonon quebrando o seu baixo Fender Precision durante um show do Clash no
Palladium, em Nova York, em setembro de 1979, a partir de uma fotografia feita
pela fotógrafa inglesa Pennie Smith. O designer gráfico Ray Lowry foi
responsável concepção gráfica da capa do álbum, que apresenta a tipografia
inspirada na da capa do primeiro álbum de estreia de Elvis Presley, de 1956.
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Capa do primeiro e homônimo álbum de Elvis Presley (à esquerda), inspirou a capa de London Calling do The Clash. |
Primeira faixa do disco 1, e consequentemente, a que abre o
álbum de maneira geral, “London Calling” deu nome ao álbum duplo. Composta por
Joe Strummer e Mick Jones, “London Calling” tem seu título inspirado na frase
de identificação da BBC World Service, “This
is London calling...” (“Esta é
Londres chamando...”), expressão usada pela emissora durante a Segunda
Guerra Mundial. A letra tece críticas à violência policial londrina, além de
ressaltar, ainda que de maneira sutil, o papel renovador e revolucionário do
punk no rock: “Toda aquela falsa
beatlemania comeu poeira”.
A faixa seguinte, “Jimmy Jazz”, apresenta a incursão do
Clash no jazz, algo um tanto quanto inusitado para uma banda que tem suas
origens dentro da crueza do punk rock. Os destaques são o naipe de metais e o
solo de saxofone. “Hateful”, tem ritmo rápido, contagiante, com vocais de
chamada e resposta.
Joe Strummer e Mick Jones dividem os vocais em “Rudie Can’t
Fail”, um misto de reggae e rock que encerra o lado 1 do disco 1 de London
Calling. A letra de “Rudie Can’t Fail” trata sobre um jovem que tem uma
vida desregrada, a tal ponto de tomar cerveja no café da manhã.
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Vince Taylor, primeiro astro do rock da Inglaterra: seu grande sucesso de 1959, "Brand New Cadillac", foi regravado pelo The Clash para o álbum London Calling. |
O lado 2 do disco 1 começa com o pop rock “Spanish Bombs” com Strummer e Jones dividindo os vocais. A letra foi escrita por Strummer após ouvir uma notícia no rádio sobre um atentado terrorista provocado pelo ETA (organização nacional basca armada) a hotéis na Costa Brava, na Espanha, em 1979. A música faz referências à Guerra Civil Espanhola (1936-1939) ao poeta espanhol Federico García Lorca (1898-1936) e às próprias ações dos separatistas bascos.
“The Right Profile” é outra incursão do Clash no jazz
presente em London Calling, porém com um arranjo mais pesado e robusto do
que o de “Jimmy Jazz”. Mick Jones canta sobre o consumismo descontrolado e
nocivo em “Lost In The Supermarket”, um pop rock com um arranjo leve e com
apelo radiofônico.
“Clampdown” originalmente era instrumental, mas depois
ganhou letra e um novo título. Escrita por Joe Strummer, a letra discute a
exploração da força de trabalho pelo sistema capitalista de forma voraz.
Trata-se de um olhar bastante particular de Strummer que tinha uma orientação
política de esquerda.
Composta pelo baixista Paul Simonon, “The Guns Of Brixton” é
um rock com sutil influência do reggae. A música faz referência ao bairro de
Brixton, em Londres, onde no final dos anos 1970, eram comuns o tráfico de
drogas e a violência policial. O bairro era conhecido por abrigar comunidade de
imigrantes africanos. Embora se trate de uma música que é um misto de reggae e
rock, “The Guns Of Brixton” é a faixa que possui a letra mais punk de todo o
álbum. E é ela quem encerra o lado 2 do disco 1.
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Electric Avenue, uma das principais ruas do Brixton: bairro londrino é tema da música "The Guns Of Brixton. |
O disco 2 que começa no lado 3, tem como primeira faixa
“Wrong ‘Em Bayo”, um animado ska cuja letra trata sobre uma partida de pôquer
em que dois jogadores tenta um trapacear o outro.
“Death Or Glory” é uma homenagem ao rock’n’roll, mas que ao
mesmo tempo, tece críticas indiretas às grandes estrelas do rock anteriores à
explosão do punk. A letra traz um dos versos mais polêmicos do Clash: “He who fucks nuns will later join the
church”. (“Aquele que fode freiras
mais tarde se junta à igreja”).
“Koka Kola” é uma música com ares de jingle comercial. De
curta duração, a faixa critica de maneira irônica o capitalismo e as ilusões
que o mundo da publicidade vende. O Clash traça um raciocínio paralelo entre
Coca-Cola e a cocaína.
Única faixa composta pelos quatro membros juntos, “The Card
Cheat” possui um arranjo grandioso, imponente, e um vocal dramático de Mick
Jones. O piano é o grande destaque da base instrumental desta canção. A faixa
encerra o lado 3 do disco 2.
O lado 4 do disco 2 começa com “Lover’s Rock”, uma canção
anti-machista que fala de amor e sexo. “Four Houseman” parece insinuar que os
quatro membros do Clash seriam os quatro cavaleiros do apocalipse. A otimista “I’m
Not Down” afirma que devemos encarar os desafios da vida com coragem e
resistência: “I've been beat up, I've
been thrown / Out but I'm not down, I'm not down / I've been shown up, but I've
grown up / And I'm not down, I'm not down”. (“Eu fui machucado, eu fui jogado para fora / Mas eu não estou triste,
eu não estou triste / Eu fui exposto, mas eu cresci / E eu não estou triste, eu
não estou triste”).
“Revolution Rock” foi gravada originalmente por Danny Ray,
um cantor jamaicano de reggae, em 1979, lançada como single meses antes do
álbum London Calling ser lançado. A versão do Clash mostra a banda
inglesa completamente imersa no reggae, e em nada lembra uma banda punk.
Destaque para o naipe de metais e o ritmo seguro e desafiador da bateria de
Topper Headon. Os arranjos das músicas são capazes de transportar o ouvinte a
alguma praia paradisíaca jamaicana.
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The Clash, da esquerda para a direita: Joe Strummer, Paul Simonon, Mick Jones e Topper Headon. |
Na época de lançamento, as cópias de London Calling traziam
registrado na lista de faixas “Revolution Rock” como a última faixa. Mas os
compradores, ao adquirirem o álbum e ouvi-lo, acabavam descobrindo que havia
uma “faixa oculta”, e que esta sim encerrava o álbum. Trata-se de “Train In
Vain”, música que fora gravada de última hora, e quando foi incluída no álbum,
as cópias das capas já estavam impressas e não traziam o nome desta música.
“Train In Vain” é uma das melhores faixas do álbum, e trata sobre uma desilusão
amorosa, uma temática pouco comum para uma banda punk. A canção possui um
arranjo simples, direto, com uma inclinação pop e radiofônica. Um solo de gaita
dá um toque diferenciado à canção. As reedições posteriores de London
Calling passaram a incluir “Train In Vain” na lista de faixas.
A diversidade musical e os versos politizados de London
Calling foram muito bem recebidos pela crítica especializada. Comercialmente,
London
Calling teve um ótimo desempenho em se tratando de um álbum de uma
banda punk. No Reino Unido, o álbum chegou ao 9º lugar e foi certificado com
disco de ouro um mês após o seu lançamento. Foi 2º lugar na Suécia e 4º lugar
na Noruega. Nos Estados Unidos ficou em 27º lugar na Billboard Pop Albums. London Calling alcançou a marca de 2
milhões de cópias vendidas na época de lançamento.
Em dezembro de 1979, saiu o single da faixa “London Calling”,
que chegou ao 11º lugar na UK Singles
Chart, no Reino Unido. A música ganhou um videoclipe dirigido por John
Letts.
O álbum gerou mais dois singles, “Clampdown”, lançado em
1980 (apenas na Austrália), e de “Train In Vain”, lançado em fevereiro de 1980.
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Capa do single de "London Calling". |
Motivado pelo sucesso de público e de crítica de London
Calling, o Clash decidiu ousar ainda mais no álbum seguinte. Em
dezembro de 1980 foi lançado o álbum triplo Sandinista, contendo nada
menos do que 36 faixas e um caldo musical ainda mais abrangente do que o do álbum
anterior, desta vez incluindo dub, rhythm and blues, funk, calypso, disco music
e o nascente rap. O álbum mostra o Clash mais antenado do que nunca com as
questões político-sociais: o título do álbum faz alusão ao movimento sandinista
que sacudiu a Nicarágua entre o final dos anos 1970 e começo dos anos 1980. Um
novo conflito entre o Clash e a CBS aconteceu porque a banda insistiu para que
o álbum triplo fosse vendido ao preço de um álbum simples.
Ao longo do tempo, London Calling firmou-se como um dos
mais importantes álbuns da história do rock. Em 2003, o álbum duplo do Clash
ficou em 8º lugar na lista dos 500
Melhores Álbuns de Todos Os Tempos da revista Rolling Stone.
Faixas
Todas as canções foram escritas e compostas por Joe Strummer
e Mick Jones, exceto as indicadas.
Disco 1
Lado 1
- “London Calling”
- “Brand New Cadillac” (Vince Taylor)
- “Jimmy Jazz”
- “Hateful”
- “Rudie Can't Fail”
Lado 2
- “Spanish Bombs”
- “The Right Profile”
- “Lost In The Supermarket”
- “Clampdown”
- “The Guns Of
Brixton” (Paul Simonon)
Disco 2
Lado 3
- “Wrong 'Em Boyo” (Clive Alphonso)
- “Death Or Glory”
- “Koka Kola”
- “The Card Cheat”
Lado 4
- “Lover's Rock”
- “Four Horsemen”
- “I'm Not Down”
- “Revolution Rock” (Jackie Edwards - Danny Ray)
- “Train In Vain”
The Clash: Joe Strummer (vocais, vocais de apoio,
guitarra rítmica e piano), Mick Jones
(guitarra solo, piano, gaita, vocais de apoio), Paul Simonon (baixo, vocais de apoio, vocal principal em "The
Guns of Brixton") e Topper Headon
(bateria e percussão).
Referências:
Revista Bizz –
setembro/1988 – Edição 38
theclash.com
Wikipedia
“London
Calling”
“Brand New
Cadillac”
“Jimmy Jazz”
“Hateful”
“Rudie Can't
Fail”
“Spanish
Bombs”
“The Right
Profile”
“Lost In The
Supermarket”
“Clampdown”
“The Guns Of Brixton”
“Wrong 'Em
Boyo”
“Death Or
Glory”
“Koka Kola”
“The Card
Cheat”
“Lover's
Rock”
“Four
Horsemen”
“I'm Not
Down”
“Revolution
Rock”
“Train In
Vain”
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