Rádio Pirata ao Vivo (Epic, 1986), RPM
Em 1985, o Brasil ainda tateava sua recém-conquistada liberdade. O álbum de estreia, Revoluções por Minuto, lançado em maio daquele ano, já havia estabelecido o RPM como a ponta de lança de uma modernidade sombria e dançante. Mas foi o encontro com o empresário Manoel Poladian que mudou as regras do jogo. Poladian, acostumado ao gigantismo de Roberto Carlos, não queria apenas uma banda de danceteria; ele projetou um espetáculo de arena.
A infraestrutura era imperial: carretas, cenários móveis e
uma equipe de 27 pessoas. Paulo Ricardo definiu o momento como o "Plano
Real do rock brasileiro", uma tentativa deliberada de entrar no primeiro
mundo estético, equiparando o RPM a titãs como o Genesis. Sob a direção
artística de Ney Matogrosso, o show tornou-se uma experiência audiovisual
cyberpunk inspirada em Blade Runner, onde o gelo seco e os tons gélidos
de azul e branco criavam uma aura de frieza sensual e ineditismo.
O álbum não foi planejado como um passo artístico
tradicional, mas como uma manobra estratégica e, de certa forma,
"caça-níquel". A versão do RPM para "London, London", de Caetano
Veloso, havia sido "pirateada" das ondas de rádio a partir de
gravações amadoras dos shows, tornando-se o hit mais pedido do país antes mesmo
de existir em estúdio.
Para estancar a perda de receita e atender ao clamor do
público, o diretor-artístico da CBS, Marcos Maynard, e Poladian decidiram
registrar o show. Gravado em 26 e 27 de maio de 1986 no Pavilhão do Anhembi, em
São Paulo, com uma unidade móvel de ponta, o disco capturou não apenas a
música, mas o som do "grito histérico das moças", um elemento
essencial daquela atmosfera.
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| RPM durante a turnê de Revoluções por Minuto e que resultou no álbum Radio Pirata Ao Vivo. |
Abrindo o álbum, “Revoluções Por Minuto” não pede licença.
Surge como um manifesto sonoro, com sintetizadores cortantes e uma sensação de
urgência quase industrial. Faixa-título do álbum de estreia do RPM, “Revoluções
Por Minuto” ganhou peso apocalíptico na sua introdução através dos teclados de
Luíz Schiavon. A letra sobre vigilância e paranoia ressoava fortemente em um
país que acabava de enterrar a ditadura.
“Alvorada Voraz” é uma das inéditas do álbum e um dos
maiores trunfos do disco. Com uma letra ácida composta durante a turnê, a
canção aborda a corrupção e a violência urbana com uma urgência quase punk,
apesar do polimento pop. Uma das grandes novidades do disco, é também uma de
suas faixas mais sombrias. É o RPM em sua forma mais crítica.
Sucesso no álbum de estreia do quarteto paulista, a balada “A
Cruz e a Espada” ganha contornos dramáticos na sua versão ao vivo. É o momento
em que a influência new romantic europeia se funde à tradição da canção
brasileira, destacando o conflito entre razão e fé. Aqui, a banda desacelera —
mas não perde intensidade.
Outra faixa inédita no álbum foi “Naja”, uma peça
instrumental ousada para um disco de tamanha popularidade. Schiavon demonstra
seu virtuosismo técnico em um arranjo hipnótico que servia de vitrine sonora
para a sofisticação da banda. “Naja” funciona como vitrine para o talento de
Schiavon. Os teclados conduzem a narrativa, enquanto guitarra e bateria orbitam
em torno deles. É um momento de respiração — mas também de afirmação técnica.
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| Fernando Deluqui, Paulo Ricardo, Luiz Schiavon e Paulo Pagni. |
Mais sombria e densa, com referências literárias a Rimbaud,
“Estação do Inferno” foi um dos destaques no álbum Revoluções Por Minuto.
Sua A versão ao vivo abre o lado B do disco, acentua a atmosfera pós-punk e o
deslocamento urbano presente na poesia de Paulo Ricardo.
“London, London” é o ponto de inflexão do disco. O RPM
transformou a melancolia do exílio de Caetano Veloso na época da ditadura
militar em uma balada luminosa. A performance de piano e voz é, até hoje, uma
das mais belas atualizações da MPB para o contexto do rock. A releitura que o
RPM presta à canção de Caetano conecta duas gerações: a MPB do exílio e o rock
da abertura política. É, ao mesmo tempo, homenagem e reinvenção.
A faixa seguinte, é mais uma releitura presente no álbum ao
vivo do RPM. Desta vez é de um sucesso dos Secos & Molhados, grupo que
revelou Ney Matogrosso, e que além de grande artista, foi o diretor do show do
RPM. O quarteto paulista injetou peso e um tom instrumental apocalíptico a esta
joia do rock brasileiro dos anos 1970.
Com mais de 7 minutos, a faixa que dá título a este álbum funde
o manifesto juvenil do RPM com “Light My Fire”, o clássico do The Doors. É o
momento dos lasers e da consagração da banda como os novos donos do mercado
fonográfico daqueles meados dos anos 1980. Encerrando o disco de forma
apoteótica, a versão ao vivo de “Rádio Pirata” sintetiza a proposta da banda:
rebeldia, comunicação alternativa, ruptura com o sistema. É o clímax — e também
a assinatura definitiva do álbum.
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| Em Rádio Pirata Ao Vivo, o RPM fez releituras de "London, London"(Caetano Veloso) e "Flores Astrais" (Secos & Molhados). |
Lançado em 28 de julho de 1986, Rádio Pirata Ao Vivo
foi um terremoto comercial no mercado fonográfico brasileiro. Vendeu 500 mil
cópias em pré-venda e logo atingiu a marca de 2,2 milhões de exemplares
(chegando a 3,7 milhões em registros posteriores), tornando-se o álbum mais
vendido da história da música brasileira até então. A gravadora CBS precisou
contratar fábricas adicionais para suprir a demanda, algo que só ocorria com
Roberto Carlos.
A imprensa, contudo, reagiu com desconfiança. Críticos como
José Emílio Rondeau, na revista Bizz, apontaram o "oportunismo
excessivo" de lançar um disco ao vivo tão cedo na carreira, alertando para
o risco de que a sede de lucro pudesse prejudicar o futuro artístico do grupo.
O sucesso de Rádio Pirata / Ao Vivo foi tão
colossal que se tornou incontrolável. Em 1986, o RPM era onipresente: de álbuns
de figurinhas a reportagens exclusivas no Globo Repórter, da TV Globo.
No entanto, os bastidores eram marcados por abusos de substâncias e conflitos
de ego. A tensão entre o "crooner gatíssimo" e o "mestre dos
teclados" transformou a parceria em competitividade nociva.
O legado do álbum é duplo. Por um lado, provou que o rock
brasileiro podia ter a mesma estatura e profissionalismo das grandes turnês
internacionais, abrindo caminho para toda a indústria fonográfica nacional. Por
outro, serviu de alerta sobre a fragilidade da arte diante do consumo
desenfreado de imagem.
Quarenta anos depois, as luzes de neon podem ter se apagado,
mas as ondas do rádio ainda carregam a urgência de Rádio Pirata Ao Vivo.
O álbum permanece não apenas como um registro de sucessos, mas como o
testamento de uma banda que, por um breve e fulminante momento, fez o Brasil
inteiro acreditar que a revolução estava, de fato, no ar.
Faixas
Lado 1
1."Revoluções por
Minuto"
2."Alvorada Voraz"
3."A Cruz e a
Espada"
4."Naja"
5."Olhar 43"
Lado 2
6."Estação no
Inferno"
7."London, London"
(versão cover de Caetano Veloso)
8."Flores Astrais"
(versão cover de Secos & Molhados)
9."Rádio Pirata / Light My
Fire" (música incidental)
RPM: Paulo Ricardo (vocal e baixo), Fernando
Deluqui (guitarra e vocal de apoio), Luiz Schiavon(teclados e piano) e Paulo
Pagni (bateria, sintetizador e vocal de apoio).
Referências:
Dias de Luta – o rock e o
Brasil dos anos 80 – Ricardo Alexandre Luiz, 2013, Arquipélago Editorial,
Porto Alegre, Brasil.)
collectorsroom.com.br
igormiranda.com.br
phono.com.br
rpmbanda.com
wikipedia.org




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