Rising (Polydor, 1976), Rainbow



Por Sidney Falcão

Há discos que parecem existir fora do tempo, como se tivessem sido talhados em pedra, erguidos em alguma montanha mítica para resistir às eras. Rising, do Rainbow, é um desses monumentos. Lançado em maio de 1976, é mais do que um simples segundo álbum de estúdio: é o momento em que Ritchie Blackmore, recém-liberto das amarras criativas do Deep Purple, encontra a síntese perfeita entre sua obsessão por riffs cortantes, mitologia medieval e uma ambição sinfônica que pavimentaria a estrada para o heavy metal dos anos seguintes. 

A história começa no colapso do Purple. Em 1975, Blackmore já não tolerava as experimentações soul e funk que dominavam o grupo com a entrada de Glenn Hughes e David Coverdale. Sua saída foi inevitável — mas não silenciosa. Formando o Rainbow com músicos do Elf, banda de Ronnie James Dio, o guitarrista lançou Ritchie Blackmore’s Rainbow ainda em 1975. A estreia tinha lampejos, mas soava como um exercício de transição. Faltava coesão, faltava força. Para o segundo passo, Blackmore decidiu reformular quase tudo: manteve apenas Dio, o parceiro que parecia cantar não apenas com a voz, mas com um destino. Entraram Cozy Powell (1947-2018) na bateria, Jimmy Bain (1947-2016) no baixo e Tony Carey nos teclados. 

O resultado é explosivo. Gravado em apenas três semanas no Musicland Studios, em Munique, sob a produção de Martin Birch, Rising destila energia bruta e teatralidade épica em pouco mais de 33 minutos. É um álbum curto, mas que carrega uma densidade quase sinfônica — cada faixa parece maior do que a própria duração indica. E, antes mesmo de a agulha tocar o vinil, a capa de Ken Kelly (1946-2022) já prepara o espírito: um punho erguido irrompe das águas e agarra um arco-íris contra um céu tempestuoso. Uma metáfora perfeita para a música contida ali: grandiosa, heroica, inevitável. 

O álbum abre com o teclado atmosférico de “Tarot Woman”, tocado por Tony Carey, que se estende por quase dois minutos, criando um clima de mistério. É como a cortina que se abre lentamente antes da peça começar. Quando a guitarra de Blackmore entra, o palco já está armado. Dio canta sobre figuras enigmáticas e destinos traçados, estabelecendo desde o início o caráter místico do disco. O riff é pesado, mas flui com a leveza de uma profecia. Cozy Powell, com sua bateria sólida e precisa, dá o peso terreno que ancora os devaneios celestiais. 

Deep Purple em 1974, durante turnê americana. Divergências com Glenn Hughes (à esquerda) e 
David Coverdale (no topo da escada), motivaram a saída de Ritchie Blackmore (de chapéu) 
da banda em 1975 para formar um novo projeto.

Mais enxuta, mais direta, “Run With the Wolf” traz Bain e Powell em sincronia, criando uma base quase tribal sobre a qual Blackmore constrói riffs sinuosos. Dio canta sobre a fera interior, sobre a dualidade entre homem e instinto — temas que parecem ecoar o próprio Blackmore, dividido entre a música popular e seus anseios grandiosos. O refrão é memorável, mas não é feito para soar radiofônico: é feito para soar eterno. 

Na faixa seguinte, “Starstruck”, o álbum abre espaço para a ironia. A letra de Dio, inspirada em uma fã obcecada, contrasta com o peso hard rock da banda. O riff é contagiante, quase dançante, mas o tom da interpretação não perde a aura mística. É o momento mais acessível do disco, e prova que, até na leveza, o Rainbow mantinha uma identidade distinta. 

O primeiro lado do disco termina com “Do You Close Your Eyes”. Se existe uma canção no disco que divide opiniões, é esta. Simples, quase pop em sua estrutura, foi pensada para agradar ao público americano e servir de single. Comparada ao restante do álbum, soa como um corpo estranho. Ainda assim, tem sua importância: funciona como respiro antes da tempestade que virá. 

O segundo lado traz apenas duas faixas, cada uma com pouco mais de oito minutos. E então chegamos ao coração de Rising. “Stargazer” é puro épico, talvez a obra-prima definitiva de Blackmore e Dio juntos. A bateria marcial de Cozy Powell abre como se anunciasse a marcha de um exército. O riff de Blackmore é hipnótico, repetitivo, quase ritualístico. Dio surge como um profeta, narrando a história de um mago que constrói uma torre para alcançar as estrelas. A letra mistura fantasia, misticismo e tragédia, e a interpretação de Dio é colossal: ele não canta a história, ele a encarna. No final, a orquestra adicionada por Birch eleva a canção a proporções sinfônicas. “Stargazer” não é apenas uma faixa, é uma experiência. É Kashmir levado ao reino das lendas. 

Lado interno da capa dupla do álbum Rising. Integrantes da banda, em pé: Cozy Powell e
Ritchie Blackmore; sentados: Jimmy Bain, Ronnie James Dio e Tony Carey.

Se “Stargazer” é o clímax, “A Light in the Black” é a catarse. A faixa retoma o tema do mago, mas agora em velocidade máxima, quase como se o desespero pela liberdade acelerasse cada instrumento. Aqui, Blackmore e Carey duelam em solos incandescentes, enquanto Bain e Powell sustentam a intensidade como um motor de guerra. É a música mais veloz do álbum e antecipa o power metal que floresceria na década seguinte. O encerramento deixa a sensação de que a jornada foi intensa demais para continuar. 

Apesar de sua força monumental, Rising não foi um campeão de vendas imediato. Chegou ao 48º lugar na Billboard 200, nos Estados Unidos, e ao 11º no Reino Unido — números respeitáveis, mas aquém do impacto artístico. Parte disso se deve à ausência de singles realmente voltados ao rádio. “Stargazer”, apesar de seu potencial icônico, era longa demais para as rádios comerciais. 

A crítica da época também se mostrou dividida. Algumas publicações elogiaram a coesão e o poder do disco, enquanto outras o acusaram de grandiloquência excessiva. Mas o tempo se encarregou de colocar Rising em seu devido lugar. Hoje, é considerado um dos pilares do heavy metal, citado constantemente por músicos de bandas como Iron Maiden, Judas Priest, Helloween e até Metallica como uma influência fundamental. 

O Rainbow nunca repetiria exatamente a fórmula de Rising. Os álbuns seguintes seguiriam caminhos distintos — mais acessíveis em Long Live Rock ’n’ Roll (1978), mais comerciais na fase com Graham Bonnet e Joe Lynn Turner. Mas nada igualaria o caráter mitológico desse segundo disco. 


Além da capa de Rising, do Rainbow, o pintor e ilustrador americano Ken Kelly foi
autor de dezenas de capas de discos de várias bandas de rock como Love Gun,
do Kiss, como mostra esta foto com a pintura original.
 


Rising cristalizou a união entre o virtuosismo clássico de Blackmore e a força lírica de Dio. Definiu a estética de capas fantásticas que marcariam o metal, abriu espaço para a fusão entre orquestração e peso elétrico e antecipou movimentos inteiros, como o power metal e o metal sinfônico. É um álbum que fala tanto ao corpo, com seus riffs irresistíveis, quanto à imaginação, com suas narrativas épicas. 

Ronnie James Dio transformou-se, a partir daqui, em voz arquetípica do metal. Ritchie Blackmore provou que podia criar fora da sombra do Deep Purple. Cozy Powell reafirmou-se como um dos maiores bateristas de sua geração. E juntos, em 33 minutos, ergueram uma torre de música que ainda hoje brilha sob os céus tempestuosos da história do rock. 

Ouvir Rising é atravessar um portal. Não se trata apenas de um álbum, mas de um rito de passagem. Do primeiro teclado etéreo de “Tarot Woman” ao turbilhão final de “A Light in the Black”, o ouvinte é lançado em uma jornada de mitos, batalhas e transcendência. É a música como epopeia, como narrativa de destino. 

Em um tempo em que o hard rock buscava consolidar sua identidade após a dissolução das grandes bandas da virada de década, o Rainbow ofereceu não apenas um disco, mas uma visão. Uma visão que ainda ecoa, quase meio século depois, como uma luz no negro. 

 

Faixas

Todas as canções foram compostas por Ronnie James Dio e Ritchie Blackmore.

 

Lado A

1."Tarot Woman"      

2."Run with the Wolf" 

3."Starstruck"            

4."Do You Close Your Eyes" 

           

Lado B

5."Stargazer" 

6."A Light in the Black" 

 

Rainbow:

Ronnie James Dio – vocal

Ritchie Blackmore – guitarra

Tony Carey – teclado

Jimmy Bain – baixo

Cozy Powell – bateria

 

Referências:

Revista Bizz – edição 204, agosto 2006, Editora Abril, São Paulo, Brasil.

ritchieblackmoresrainbow.wordpress.com

wikipedia.org 


"Tarot Woman"

"Run with the Wolf"

"Starstruck"

"Do You Close Your Eyes"

"Stargazer"

"A Light in the Black"

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