Destroyer (Casablanca Records, 1976), Kiss


Por Sidney Falcão 

Há álbuns que não apenas marcam uma banda, mas definem a sua sobrevivência. Em março de 1976, o Kiss lançou Destroyer, quarto trabalho de estúdio e a obra que separou o grupo de ser apenas um fenômeno de palco para se tornar, de fato, um gigante da indústria fonográfica. Não foi um caminho sem tropeços: a crítica o desprezou, parte dos fãs torceu o nariz, e a própria banda entrou em choque com seu produtor. Mas é justamente desse atrito que nasce a força deste disco — um artefato sonoro que funde espetáculo e disciplina, grandiloquência e crueza, ingenuidade e ambição. 

Até 1975, o Kiss vivia de sua reputação incendiária ao vivo. Os três primeiros álbuns (Kiss e Hotter than Hell, ambos de 1974, e Dressed to Kill, de 1975) não venderam como o esperado, e foi só com Alive! — o registro ao vivo que capturou a eletricidade da banda no palco — que o grupo se transformou em sensação nacional. O sucesso foi tamanho que salvou a Casablanca Records, seu selo, da falência. Mas o problema estava posto: como traduzir para o estúdio aquela intensidade? 

A resposta veio em através de Bob Ezrin. Experiente produtor ligado ao universo de Alice Cooper, Ezrin trouxe ao quarteto — Paul Stanley, Gene Simmons, Ace Frehley e Peter Criss — algo que lhes faltava: método. A banda, autodidata, acostumada à espontaneidade do ensaio e da performance, foi submetida ao que Stanley chamou de “acampamento musical”: aulas de teoria, ensaios rígidos, apitos de comando. Ezrin rejeitou músicas inteiras, remontou arranjos, convocou músicos de estúdio, introduziu efeitos sonoros e até um coral infantil. Era o oposto do Kiss cru e direto de 1974, mas era a aposta necessária para que o grupo sobrevivesse. 

Gravado no Electric Lady Studios, em Nova York, entre setembro de 1975 e janeiro de 1976, o disco representou a tentativa de erguer um Kiss “de estúdio”, arquitetado, polido e cinematográfico. Ezrin trouxe orquestrações, citações clássicas (Beethoven aparece em “Great Expectations”), efeitos de colisão em Detroit Rock City e até uma sensibilidade quase barroca em Beth. A capa, pintada por Ken Kelly (1946-2022), reforçava a aura épica: os quatro integrantes, em seus trajes de guerra, caminhando sobre escombros em chamas como super-heróis pós-apocalípticos.

Kiss em apresentação em Boston, maio de1975: acanhado em estúdio,
mas incendiário e intenso ao vivo. 

O disco abre com “Detroit Rock City”, e já não é só música: é cinema. Do rádio que anuncia a morte à colisão de carros, tudo prepara o terreno para uma das mais emblemáticas canções de Paul Stanley. É a juventude vivida no limite — um hino que transforma tragédia em êxtase. 

Na sequência, “King of the Night Time World” se ergue como cartaz luminoso sobre a cidade. É exagerada, teatral, quase caricatural — mas é justamente nisso que reside o seu encanto. Um retrato da noite como território absoluto da liberdade. 

“God of Thunder” traz Gene Simmons como entidade sombria. Voz cavernosa, ecos de crianças, bateria como martelo. É a faixa que consagra o “Demônio”, com ares de ritual pagão que paira entre o grotesco e o magnético. Com “Great Expectations”, o álbum ganha contornos de ópera rock. Simmons canta rodeado por coral infantil, enquanto Ezrin injeta Beethoven no arranjo. O resultado é estranho, solene, ousado — e mostra até onde o Kiss estava disposto a ir. 

Já “Flaming Youth”, que fecha o lado 1 do disco, é a resposta elétrica da juventude. Riffs entrelaçados, refrão desafiador, três minutos de rebeldia destilada. A prova de que o álbum não vive apenas de pompa, mas também de energia crua. 

O pintor e ilustrador Ken Kelly, autor da capa de Destroyer, do Kiss. Ele também
ilustrou capas de revistas como de Conan e capas de discos de outras bandas de rock
como Rainbow e Manowar.


O lado 2 de Destroyer começa com Em “Sweet Pain”, Simmons retorna com seu lado mais carnal. Não é das mais memoráveis, mas guarda uma curiosidade: o solo não é de Ace Frehley, mas de Dick Wagner, da banda de Alice Cooper, que dá à faixa um sabor inesperado. 

“Shout It Out Loud” soa como o chamado para a arena. Feita sob encomenda para ser o novo “Rock and Roll All Nite”, não alcança o mesmo impacto, mas cumpre sua missão de se tornar grito coletivo, combustível de multidões. Então vem a reviravolta: “Beth”. Peter Criss, orquestra, piano — e de repente o Kiss soa vulnerável, doce, quase íntimo. Ironia das ironias: a música mais distante do DNA da banda foi justamente aquela que a projetou ao topo das paradas. 

O disco se despede com “Do You Love Me”, canção em que Stanley olha o estrelato nos olhos e pergunta: “o amor é por mim ou pelo mito mascarado?”. Rock direto, baixo pulsante, e uma reflexão que soava quase profética. E antes que a festa termine, surge “Rock and Roll Party”, um fecho breve e espectral. Como se os fantasmas do show permanecessem ecoando depois do último acorde. 

Na época de seu lançamento, Destroyer dividiu opiniões. A revista Rolling Stone descreveu o trabalho como uma colagem de clichês com “baladas inchadas” e “bateria pedestre”. Robert Christgau, no Village Voice, o chamou de “o menos interessante disco do Kiss”. Muitos fãs, habituados à crueza ao vivo de Alive! (1975), rejeitaram as orquestrações e os corais presentes em Destroyer .

Kiss nas alturas do Empire State Building, em Nova York, em junho de 1976.

Comercialmente, o início também foi decepcionante. Lançado em março de 1976, estreou bem, mas despencou nas paradas. Os três primeiros singles — “Detroit Rock City”, “Flaming Youth” e “’Shout It Out Loud” — tiveram desempenho mediano. Foi preciso que rádios começassem a tocar o lado B de “Detroit Rock City”, a inesperada “Beth”, para que o destino do álbum mudasse. Quando relançada como single, Beth alcançou o número 7 da Billboard, e o disco finalmente vendeu como se esperava, tornando-se o primeiro do Kiss a conquistar platina.

O tempo foi generoso com Destroyer. Se em 1976 parecia um excesso bombástico, hoje é visto como o ponto em que o Kiss se reinventou. O álbum abriu espaço para que a banda explorasse novas dimensões sonoras, consolidou Simmons como o “Demônio” e Criss como a voz improvável de seu maior hit, além de fixar “Detroit Rock City”como clássico definitivo do rock dos anos 1970.

Décadas depois, publicações o colocariam entre os grandes álbuns do heavy metal e do hard rock: destaque na Kerrang!, no 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer e nas listas da Rolling Stone. O próprio Martin Popoff o descreveu como “um álbum sem festa, sombrio, quase assombroso”, mas um marco do metal sem virtuosismo.

Quarto álbum de estúdio do Kiss, Destroyer é um espelho da próprio banda — contraditório, teatral, imenso, frequentemente criticado, mas impossível de ignorar. É o som de quatro músicos sem formação clássica, guiados por um maestro implacável, construindo com tijolos de exagero e disciplina um monumento do rock.

 

Faixas

Lado 1

  1. "Detroit Rock City" (Paul Stanley, Bob Ezrin)
  2. "King of the Night Time World" (Stanley, Ezrin, Fowley, Anthony)
  3. "God of Thunder" (Stanley)
  4. "Great Expectations" (Simmons, Ezrin)
  5. "Flaming Youth" (Frehley, Stanley, Simmons, Ezrin)  

Lado 2

  1. "Sweet Pain" (Simmons)
  2. "Shout It Out Loud" (Stanley – Simmons - Ezrin)
  3. "Beth" (Peter Criss – Ezrin - Stan Penridge)
  4. "Do You Love Me?" (Stanley – Ezrin - Kim Fowley)
  5. "Rock and Roll Party" (Simmons – Stanley - Ezrin)

Kiss: Paul Stanley (vocais e guitarra rítmica), Gene Simmons (vocais e baixo), Peter Criss (bateria e vocais) e Ace Frehley (guitarra solo e vocais de apoio)

 

Referências:

angelfire.com

biography.com

rollingstone.com

wikipedia.org 


"Detroit Rock City"

"King of the Night Time World"

"God of Thunder"

"Great Expectations"

"Flaming Youth"

"Sweet Pain"

"Shout It Out Loud" 

"Beth"

"Do You Love Me?" 

"Rock and Roll Party"

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