Atrás dos Olhos (Excelente/Abril Music, 1998), Capital Inicial


Por Sidney Falcão 

Em 1998, o Capital Inicial atravessava um momento decisivo de sua trajetória. Depois de anos de mudanças na formação, do afastamento do vocalista Dinho Ouro Preto para a carreira solo e de lançamentos pouco marcantes, a banda sentiu a necessidade de reencontrar suas raízes e reafirmar seu papel no rock brasileiro. O álbum Atrás dos Olhos, sétimo de estúdio da banda brasiliense, surgiu como resposta a essa inquietação: um trabalho que misturava energia juvenil, maturidade composicional e um olhar atento para a modernidade sonora do final dos anos 1990. Gravado em Nashville, sob a produção experiente de David Z — conhecido por trabalhos com Prince (1958-2016), Fine Young Cannibals e lendas do blues como Buddy Guy —, o disco se tornou um marco na carreira do Capital, tanto comercial quanto artisticamente. 

A reunião da formação original — Dinho Ouro Preto (vocais), Fê Lemos (bateria e violões), Flávio Lemos (baixo) e Loro Jones (guitarra elétrica) — trouxe ao grupo um vigor renovado. Dinho relembra: “Eu não esperava aquele público quando voltamos aos palcos, ameacei chorar várias vezes. Foi emocionante perceber que nossa música ainda tocava as pessoas”, disse ele em entrevista à revista Bizz, em dezembro de 1998. Havia uma sensação de retorno às origens, mas sem cair na nostalgia oca. Como frisou a crítica da época, o álbum respirava o frescor do “rock de Brasília”, mostrando que a banda ainda podia dialogar com o presente sem apagar o legado dos anos 1980. A imprensa especializada saudou a obra como um exemplar maduro e moderno da cena candanga, e o público respondeu com entusiasmo, lotando shows e garantindo presença constante nas rádios. 

O disco começa com “1999”, composição de Alvin L. e Dinho Ouro Preto. A faixa é um rock vigoroso, ancorado na sincronia entre baixo, guitarra e bateria, e funciona como um manifesto inicial: a banda se apresenta firme, consciente do passado e do futuro. “1999” reflete sobre o tempo, erros passados, incertezas futuras, fragilidade humana, solidão e a busca por sentido existencial. A produção de David Z garante que a energia da banda seja capturada de maneira orgânica, como se o ouvinte estivesse presente no estúdio acompanhando cada acorde. 

Na sequência, “O Mundo”, de Pit Passarell, exibe um lado mais dançante do Capital Inicial. O pop rock da faixa contrasta com a densidade reflexiva da abertura, apresentando um ritmo que, apesar de leve, mantém a urgência característica do rock candango. A letra trata de autenticidade, vulnerabilidade, críticas sociais, estigmas, coragem, leveza e autoaceitação diante das pressões do cotidiano urbano. O videoclipe, com ampla veiculação na MTV Brasil, consolidou a canção como um dos maiores hits do álbum, refletindo a capacidade da banda de dialogar com o público jovem e contemporâneo. 

Loro Jones, Fê Lemos, Dinho Ouro Preto e Flávio Lemos em 1999: Capital Inicial
com a volta da sua formação clássica.

“Estranha e Linda” combina pop rock com momentos de intricada interação instrumental. As sequências de baixo e guitarra em sincronia criam uma sensação de tensão e beleza simultâneas, refletindo a narrativa da letra, que explora fragilidade emocional, desencanto e dilemas existenciais. 

O título do disco surge na quarta faixa, “Atrás dos Olhos”, composta por Marcelo de Paula. A canção mescla pop dançante com batidas eletrônicas sutis, inserindo o ouvinte em uma atmosfera introspectiva. A produção de David Z permite que guitarra, baixo e bateria coexistam em perfeita harmonia com a programação eletrônica. Dinho canta versos que refletem sobre a perplexidade diante do mundo, sobre lágrimas que traduzem sentimentos e sobre o que se esconde em nosso interior. 

Na balada pop rock “Terceiro Mundo Digital”, o ritmo do disco desacelera. A letra apresenta uma crítica social elegante: alienação, consumismo e manipulação midiática são examinados sem perder leveza. “Eu Vou Estar”, outra parceria de Alvin L. e Dinho, é uma balada que reafirma o talento do Capital em explorar sentimentos universais. A letra trata da presença persistente de um amor passado, marcado pela memória constante e impossível de esquecer. 

O álbum também traz uma releitura da clássica “Assim Assado”, dos Secos & Molhados. A versão do Capital Inicial transforma a canção em um arranjo pop rock vibrante, com guitarras em evidência e batidas eletrônicas pontuais. 

“Hotel Jean Genet” é um pop rock de andamentos alternados. A letra transporta o ouvinte a um ambiente decadente e surreal, refletindo excessos, luxos ilusórios e marcas existenciais profundas. Já “Paz no Matadouro” brinca com contrastes: a bateria eletrônica remete à dance music, enquanto os violões adicionam textura acústica. A letra aborda o caos urbano e a busca por silêncio redentor. 

“Religião” é uma balada leve e eletroacústica, com acentuação folk garantida pelos violões. A canção celebra o amor como fé absoluta e entrega total, em que prazer e devoção se confundem intensamente. Composta por Dinho, Flávio e Fê, “Amiga Triste” traz guitarras com sonoridade áspera e versos que exploram a solidão urbana, desilusões e questionamentos existenciais. 

O encerramento do disco fica com “Giulia”, balada delicada de Dinho com batida eletrônica moderada. Homenagem à filha do vocalista, Giulia Ouro Preto, a faixa explora intimidade e ternura. Nesta canção, Dinho expressa o amor paternal incondicional, a admiração e a proteção de um pai por sua filha. Na época em que o álbum foi lançado, a menina tinha pouco mais de um ano de idade.

No álbum Atrás dos Olhos, o Capital Inicial fez uma releitura para "Assim Assado",
do trio Secos & Molhados.

Lançado em 5 de maio de 1998, o álbum Atrás dos Olhos foi recebido com entusiasmo quando chegou às lojas. A crítica destacou a energia renovada, a modernidade da produção e a habilidade de equilibrar tradição e inovação. A revista Bizz enfatizou o frescor juvenil e a qualidade do rock de Brasília presente no disco. 

A MTV Brasil teve papel importante na divulgação, com “O Mundo” recebendo ampla veiculação. A faixa atingiu cinco indicações no VMB, recorde da banda em qualquer premiação da emissora. O público respondeu com entusiasmo: os shows lotados, a execução constante nas rádios e a aceitação comercial evidenciaram que o Capital Inicial havia reconquistado seu espaço. 

O lançamento do disco foi sucedido por uma turnê marcada por shows lotados, repertório variado e intensa interação com o público. Atrás dos Olhos tornou-se um ponto de referência, mostrando que o Capital Inicial podia atravessar gerações mantendo essência e autenticidade. O álbum preparou o terreno para projetos subsequentes, incluindo o Acústico MTV (2000), que confirmou o ressurgimento da banda, garantiu grande sucesso comercial e promoveu uma renovação completa do público do Capital Inicial.

 

Faixas

1.”1999” (Alvin L. - Dinho Ouro Preto)

2. “O Mundo” (Pit Passarell)

3. “Estranha E Linda” (Dinho Ouro Preto – Fejão - Fê Lemos - Loro Jones)

4. “Atrás Dos Olhos” (Marcelo de Paula)

5. “Terceiro Mundo Digital” (Alvin L. - Dinho Ouro Preto)

6. “Eu Vou Estar” (Alvin L. - Dinho Ouro Preto)

7. “Assim Assado” (João Ricardo)

8. “Hotel Jean Genet” (Alvin L. - Dinho Ouro Preto)

9. “Paz No Matadouro” (Fê Lemos - Marcelo Laurent)

10. “Religião” (Loro Jones - Marcelo Laurent)

11. “Amiga Triste” (Dinho Ouro Preto - Flávio Lemos - Fê Lemos)

12. “Giulia” (Dinho Ouro Preto)

 

Capital Inicial: Dinho Ouro Preto (vocais), Flávio Lemos (baixo), Loro Jones (guitarra elétrica) e Fê Lemos (bateria e violões).

 

Referências:

Revista Bizz – edição 161, dezembro/1998, Editora Abril, São Paulo, Brasil.

capitalinicial.com.br

wikipedia.org 


"1999” (videoclipe oficial)

“O Mundo” (videoclipe oficial)

“Estranha E Linda”

“Atrás Dos Olhos”

“Terceiro Mundo Digital”

“Eu Vou Estar” (audio e letra)

“Assim Assado”

“Hotel Jean Genet”

“Paz No Matadouro”

“Religião”

“Amiga Triste”

“Giulia”

“Eu Vou Estar” (versão acústica e 
videoclipe original) 

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