Silk Degrees (Columbia Records, 1976), Boz Scaggs



Por Sidney Falcão 

Poucos discos carregam nas veias o exato instante em que um artista encontra o próprio destino. William Royce Scaggs, ou simplesmente Boz Scaggs, vinha de uma trajetória marcada por frustrações elegantes: bons álbuns, ótimas resenhas, e um lugar cativo nos círculos “de culto”, mas nunca um verdadeiro toque de ouro popular. Cantor de voz macia como um veludo envelhecido, criado entre o blues texano e a soul music das cidades negras americanas, ele cruzou os anos 1960 entre bandas como Steve Miller Band, discos intimistas e retomadas constantes — até chegar a 1976. Aquele ano, para Boz Scaggs, não foi apenas um ano: foi uma revelação sonora chamada Silk Degrees. 

Gravado em Los Angeles com músicos que, pouco depois, formariam o grupo Toto, Silk Degrees é um tecido sonoro incrivelmente bem costurado entre funk brando, soul sofisticado, pop urbano e baladas que flutuam como barcos numa baía. Um disco feito de groove adulto, com arranjos que brilham sem excessos, como um terno sob medida. É o momento em que Scaggs, então com 32 anos, deixa de ser promessa e se torna referência. Nada ali é casual: a escolha dos músicos, a precisão da produção, o repertório calibrado com mão de alfaiate. Tudo sob a batuta de Joe Wissert, que sabia reconhecer um disco histórico à distância. 

Antes de Silk Degrees, Scaggs já colecionava álbuns interessantes — Moments (1971), My Time (1972), Slow Dancer (1974) — mas sempre transitando entre gêneros sem encontrar o ponto exato de combustão comercial. Slow Dancer já mostrava uma guinada soul mais madura, graças ao produtor Johnny Bristol (1939-2004). Mas foi em Silk Degrees que o músico encontrou um idioma próprio: um soul branco com acento californiano, de alma negra mas pele pop, envolto em cordas e metais que pareciam cintilar à luz do sol de Hollywood. 

Depois do disco, veio o reconhecimento definitivo: Grammy de “Melhor Canção de R&B” com “Lowdown”, milhões de cópias vendidas (mais de cinco milhões só nos EUA), posição nº 2 na Billboard 200, repercussão em rádios pop, soul e adult contemporary — algo raríssimo. Foi o trampolim para que David Paich, Jeff Porcaro (1954-1992) e David Hungate formassem o Toto, ao mesmo tempo em que consolidava Boz Scaggs como um dos nomes mais elegantes daquela geração. 

A sonoridade de Silk Degrees é um convite à contemplação. É soul de gravata, funk de sapato italiano, mas com o coração palpitando como os grandes clássicos de Marvin Gaye (1939-1984) ou Smokey Robinson. As faixas passeiam entre o pop dançante, a balada de orquestra e o R&B com leve perfume de discoteca. Há ali uma sensualidade discreta, elegante, que nunca cai no exagero. Tudo é medida e sutileza. 

A crítica percebeu rápido. O Village Voice chamou o álbum de “white soul com senso de humor”. Para Alex Henderson, do AllMusic, Scaggs havia encontrado um R&B acessível sem perder substância. E o público confirmou — quatro singles estouraram: “It’s Over”, “Lowdown”, “Lido Shuffle” e “What Can I Say”. A balada “We’re All Alone”, quando regravada por Rita Coolidge, viraria outro sucesso mundial. Silk Degrees virou sinônimo de refinamento pop, educando os ouvidos de uma geração inteira sobre o que era soul adulto.


Imagem do encarte do álbum Silk Degrees.

Silk Degrees começa com um golpe certeiro e irresistível: “What Can I Say” já chega pulsando em um groove que parece feito para sorrir. Os sopros embebidos na alma da Filadélfia, o baixo colado na pele e os teclados de David Paich formam uma abertura tão envolvente que é impossível não entrar no clima. Pop com alma, pop com carne. Logo depois, “Georgia” desliza como uma estrada melancólica vista da janela. Cordas sofisticadas, falsete triste e elegância absoluta, como se a dor vestisse terno e luvas. É soul branco com pedigree, lembrando hits do início dos anos 1970, mas com um refinamento maior, como se escapasse por pouco da palavra “clássico”. 

Em “Jump Street”, o disco dá uma guinada para algo mais esfumaçado, um rock sujo com slide guitar que lembra Faces e um clima de pub londrino. Não é a faixa mais inspirada, mas quebra a doçura com uma pitada de suor honesto. Na sequência, “What Do You Want the Girl to Do” traz o Boz mais descontraído, quase levitando sobre os sopros festivos e os vocais de apoio femininos. A leveza é contagiante e o diálogo entre voz e sax cria um daqueles instantes pequenos e inesquecíveis que ficam na memória muito depois que a canção termina. 

“Harbor Lights” encerra o lado 1 num tom profundamente melancólico – uma balada marítima, cheia de mares e distâncias que parecem autobiográficas. A voz de Scaggs repousa sobre o Rhodes como se buscasse um pouco de abrigo no próprio som. Triste, suave e bonita, como um bilhete deixado no cais. E então vem “Lowdown”, abrindo o lado B com majestade. Aqui, tudo se encaixa: o funk contido como uma pantera em câmera lenta, o falsete sedutor, os sopros, a guitarra no ponto exato. É a música que deu identidade ao álbum e, em muitos sentidos, o seu coração groove. 

“It’s Over” mantém o charme com um soul pop à moda californiana, lembrando Elton John sem imitação. Um piano vibrando sob o sol, refrão que fica na cabeça e aquele clima de conversível cruzando Venice Beach. Já “Love Me Tomorrow” traz um reggae leve misturado com soul, timbales que preveem o Toto, e um groove ensolarado que parece feito para o fim de tarde. Nada grandioso – justamente por isso, delicioso. 

A seguir, “Lido Shuffle” explode como a faixa mais divertida e espontânea do disco. Pausas, retomadas, metais brilhando e um refrão que convida ao canto coletivo. Como um primo extrovertido do Steely Dan: menos cerebral, mais calor humano. É difícil não se pegar cantando o “Whoa-oh-oh-oh” antes do refrão. E o fim chega com perfeição em “We’re All Alone” – balada cintilante, cordas que abraçam e Boz cantando como um Sinatra da era disco, cheio de controle emocional, mas transbordando sentimento. É despedida arrebatadora: uma chuva fina que cai devagar, deixando o ouvinte imóvel, em silêncio, depois que o som termina.

Detalhe da foto da capa do álbum.

Silk Degrees passou 115 semanas na Billboard, vendeu mais de cinco milhões de cópias, ganhou Grammy e transformou “Lowdown” num hino do soul adulto. E o mais impressionante: envelheceu bem. Ainda toca em rádios de smooth jazz, em playlists retrô, em bares elegantes. É daqueles discos que não dependem da nostalgia — eles geram a nostalgia. 

Jornais elogiaram o casamento entre produção sofisticada e feeling verdadeiro. Outros disseram que o disco era "perfeito até demais", quase anônimo de tão redondo — mas esse é justamente seu charme. Um álbum sem arestas, mas cheio de alma. 

Para Boz Scaggs, aquele disco não foi apenas sucesso. Foi consagração. Aos 32 anos, ele provou que um artista branco podia dialogar com a tradição negra da soul music com respeito, amor e sofisticação, sem cair em caricaturas. A carreira seguiria com bons discos, mas Silk Degrees permaneceu como o Everest – o ponto mais alto, onde tudo se alinhou: voz, repertório, músicos, produção e clima cultural. 

Ele mesmo disse que ao ouvir os playbacks em 1975, sabia que algo especial tinha nascido. Foi ali que assinou com o empresário Irving Azoff, preparando o terreno para a explosão. O resto é história gravada em vinil. 

Após tantas décadas desde o seu lançamento, o que Silk Degrees nos diz? Talvez que ainda existe lugar para discos elegantes, maduros, com suingue e sentimento, feitos sem pressa, em que cada nota respira. Mas será que ainda se fazem álbuns tão genuínos — comercialmente bem-sucedidos, artisticamente impecáveis — como esse? 

Essa é a beleza do disco: ele ainda soa verdadeiro. E talvez a grande pergunta que ele nos devolve seja justamente essa: hoje, em meio a algoritmos e pressa, ainda temos espaço para um álbum tão adulto, tão refinado, tão cheio de alma quanto Silk Degrees?

 

Faixas

 

Lado 1

  1. "What Can I Say" (Boz Scaggs - David Paich)
  2. "Georgia" (Scaggs)      
  3. "Jump Street" (Scaggs – Paich)           
  4. "What Do You Want the Girl to Do" (Allen Toussaint)          
  5. "Harbor Lights"(Scaggs)          

Lado 2

  1. "Lowdown" (Scaggs – Paich) 
  2. "It's Over" (Scaggs – Paich)   
  3. "Love Me Tomorrow" (Paich)
  4. "Lido Shuffle"(Scaggs – Paich)            
  5. "We're All Alone"(Scaggs)

 

Referências:

bestclassicbands.com

wikipedia.org

"What Can I Say"

"Georgia"

"Jump Street" 

"What Do You Want the Girl to Do"

"Harbor Lights"

"Lowdown"

"It's Over"

"Love Me Tomorrow" 

"Lido Shuffle"  

"We're All Alone"

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