Carnaval (WEA,1988), Barão Vermelho
Após a saída de Cazuza (1958-1990), em 1985, o Barão Vermelho enfrentou um boicote velado da gravadora Som Livre, que priorizava a carreira solo do ex-vocalista, que lançara seu primeiro álbum no final daquele ano. Declare Guerra, de 1986, o primeiro álbum da banda sem Cazuza, vendeu míseras 15 mil cópias — um fracasso em plena euforia do Plano Cruzado. Os integrantes do Barão Vermelho culparam a Som Livre pelo pouco empenho na divulgação do disco. Isso motivou a banda carioca a deixar a gravadora e assinar com a WEA. Em 1987, o Barão lançou Rock’n’Geral, seu primeiro disco pela WEA, que também foi um fracasso comercial retumbante, apesar de elogiado pela crítica.
Se a vendagem dos discos do Barão era ruim, a situação nos palcos era desesperadora. Guto Goffi lembrou um show em Casimiro de Abreu (cidade litorânea do Rio de Janeiro) sob chuva, para 200 pessoas com guarda-chuvas: "Chegamos ao fundo do poço. Ou a gente reagia, ou acabava ali", disse o baterista em entrevista à revista Bizz, publicada em novembro de 1991.
Foi nesse clima decadente que o tecladista Maurício Barros deixou o Barão Vermelho, ainda em 1987, para formar a banda Buana 4. Com isso, o Barão foi reduzido literalmente a um power trio: baixo, guitarra e bateria. A formação enxuta, porém, deu ao grupo uma nova ferocidade. Sem teclados para suavizar o som, as guitarras de Frejat ganharam um peso stoneano, a bateria de Guto ficou mais violenta, e o baixo de Dé assumiu um groove sujo.
Entre abril e maio de 1988, o trio confinou-se no Estúdio Nas
Nuvens, no Rio, para gravar o próximo álbum. Para a nova empreitada, o Barão
Vermelho contou com apoios de peso: os então Titãs Arnaldo Antunes e Paulo
Miklos (na letra de "Não Me Acabo"), o líder dos Engenheiros do
Hawaii Humberto Gessinger (em "O Que Você Faz à Noite?") e até um
último verso de Cazuza em "Rock da Descerebração".
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| Dé Palmeira, Guto Goffi e Roberto Frejat: com a saída do tecladista Maurício Barros, em 1987, o Barão Vermelho foi reduzido a um power trio. |
A produção do novo disco ficou nas mãos da própria banda, ao lado de Paulo Junqueiro e do velho parceiro Ezequiel Neves (1935-2010). O clima era de resolução: ou o novo álbum estourava ou a banda acabava. E estourou. Intitulado Carnaval, o sexto álbum de estúdio do Barão Vermelho trouxe de volta o peso, a malícia e a eletricidade urbana típicos da banda, mas agora revestidos de uma urgência quase existencial. Se, por um lado, a ausência dos teclados de Maurício Barros acabou funcionando como um corte radical nas possibilidades melódicas mais suaves, por outro, abriu espaço total para riffs ásperos de guitarra. Para dar corpo às músicas, a banda chamou o percussionista Peninha (1950-2016), que já tocava nos shows, e o guitarrista Fernando Magalhães, além de participações pontuais de um naipe de metais e teclados de estúdio. Mas o núcleo central era um power trio na veia: um soco, um grito, uma guitarra quebrando o silêncio.
Do ponto de vista artístico e conceitual, Carnaval não era apenas um álbum — era um manifesto. Desde a arte da capa, que retrata a máscara da folia carnavalesca, o disco celebra a luta e a resiliência. A sonoridade é explícita: o rock não deixa margem a dúvidas. Frejat brilha nos vocais e nas guitarras, Guto mostra sua evolução como letrista e baterista, e o baixo de Dé pulsa com a energia de quem busca redenção.
Na abertura de Carnaval, “Lente” (Frejat e Arnaldo Antunes) estabelece o clima quase cinematográfico do álbum. A letra usa a metáfora da câmera para falar sobre percepção e exposição, enquanto a guitarra de Frejat surge áspera e urgente. É uma faixa de estrutura simples e impacto direto — perfeita como aviso: este não é um disco para flutuar, é para encarar.
“Pense e Dance” chega com o peso de um clássico urbano. O
baixo de Dé pulsa com sensualidade, a bateria de Guto parece marchar sobre o
concreto e os backing vocals femininos reforçam a estética de festa suja. A
música flerta com o funk rock, mas em nenhum momento abandona o hard rock. É
como se o Barão entrasse num salão decadente, acendesse as luzes fluorescentes
e, em vez de fugir, resolvesse dançar com as próprias feridas. A letra brinca
com o hedonismo, mas o tom é ácido, quase sarcástico: dançar não é alegria, é
mecanismo de sobrevivência.
“O Que Você Faz à Noite?” é outra pancada. Letra de Dé com Humberto Gessinger, linhas de baixo sinuosas, batuques de Peninha, teclados discretos. Essa faixa sintetiza bem a modernização do Barão: ainda é rock de rua, mas agora com texturas de samba-funk, contrapontos de teclados e elementos de groove.
“Nunca Existiu Pecado” encerra o lado A do disco como uma espécie de delírio psicodélico tropical. Há uma cítara tocada por André Gomes, um arranjo carregado de eco e um clima que lembra os Beatles pós-1967, misturados ao humor negro do rock brasileiro. A música estourou nas rádios, ganhou performance no programa Globo de Ouro, da TV Globo, mas carrega uma angústia existencial que a torna mais sombria do que qualquer balada comum.
O lado B abre com “Como um Furacão”, que traz metais arranjados por Ronaldo Barcelos e vocais de apoio que expandem o espectro sonoro da banda. É uma música de viagem, não narrativa: mais sensação do que argumento. Frejat se permite solos mais longos e quase “hendrixianos”.
"Quem Me Escuta" é um rock direto e festivo, cuja letra trata de obsessão amorosa: um sujeito sedento de amor, que insiste em conquistar alguém indiferente, transformando essa paixão em obstinação quase doentia.
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| Parceria de baixistas: a faixa "O Que Você Faz À Noite" foi composta pelo baixista Dé Palmeira, do Barão Vermelho, e por Humberto Gessinger, baixista e vocalista dos Engenheiros do Hawaii. |
“Carnaval”, faixa-título, mistura rock e latinidade com ecos de Carlos Santana: guitarras sinuosas, percussão tribal e sopros. A letra não descreve o carnaval como festa, mas como ritual de fogo e ruína. É o ponto central do disco em termos de conceito: a festa como purgação do desespero.
Por fim, “Rock da Descerebração”, com letra de Cazuza, traz um humor ácido e desbocado. É o Barão dialogando com o passado — mas de igual para igual, sem nostalgia. Guto Goffi comanda a faixa com uma bateria cheia de breaks e viradas, enquanto Frejat leva a guitarra a um nível de distorção quase punk. É como se o disco se despedisse dizendo: “estamos vivos — e com a cabeça fervendo”.
Após o lançamento, a crítica da época logo percebeu que havia algo de definitivo ali. O disco foi chamado de “a reinvenção do Barão”, uma “volta às guitarras com sangue nos dentes”. Alguns jornalistas apontaram a mistura violenta de influências: Led Zeppelin, Stones, Jeff Beck, Rita Lee, Run-DMC, Paralamas — o rock sujo do início dos anos 1970 temperado com ecos de funk e percussões latinas. Carnaval era a colcha de retalhos assumida, como Frejat explicou numa entrevista: um disco sem vergonha de mexer na ferida e de incorporar tudo o que havia no som urbano daquele final de década.
Quanto ao desempenho comercial, foi o primeiro disco da fase Frejat como vocalista a vender expressivamente. Nada de megahit à la “Pro Dia Nascer Feliz”, mas a banda enfim saiu do segundo escalão para voltar à superfície. “Pense e Dance” foi um hit nacional ao entrar para a trilha sonora da novela Vale Tudo, da TV Globo, como tema das cenas de Maria Fátima (Glória Pires), que arquitetava estratégias ardilosas para alcançar seus objetivos sem esforço.
“Não Me Acabo” virou favorita nas rádios rock, enquanto “Nunca Existiu Pecado” ocupou espaço nas FMs com sua balada pesada, quase psicodélica. As vendas ultrapassaram a marca de 100 mil cópias, superando os dois discos anteriores juntos — algo que o Barão não via desde os tempos de Cazuza. Para uma banda que havia sido dada como morta, aquilo era uma ressurreição.
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| "Pense e Dance" embalou as cenas das armações ardilosas da vilã Maria de Fátima, vivida por Glória Pires, na versão original da novela Vale Tudo, da TV Globo, em 1988. |
Mesmo com erros estratégicos da gravadora — como ter lançado a balada “Nunca Existiu Pecado” como segundo single, em vez da mais explosiva “Não Me Acabo” —, o álbum conseguiu recolocar o Barão na estrada, com casas cheias. E isso talvez tenha sido o maior triunfo: não o número de discos vendidos, mas o barulho do público cantando de novo as músicas de uma banda que se recusava a desaparecer.
O impacto do disco foi imediato. A turnê de Carnaval rendeu o primeiro álbum ao vivo da banda, Barão Ao Vivo, gravado na casa noturna Dama Xoc, em São Paulo. O disco mostrou a força, a crueza e o peso do Barão Vermelho no palco. O prestígio reconquistado levou a banda à segunda edição do festival Hollywood Rock, em janeiro de 1990, com etapas no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Mas nem tudo foram flores naquele momento de renascimento do Barão Vermelho. Internamente, o baixista Dé Palmeira mostrava-se insatisfeito por ter pouco espaço na banda como compositor — espaço esse majoritariamente dominado por Frejat e Guto. Em 1990, já no começo das gravações do álbum Na Calada da Noite, Dé decidiu deixar o Barão Vermelho. Em seu lugar, a banda convidou ninguém menos que Dadi Carvalho, ex-baixista dos Novos Baianos e da A Cor do Som. A ironia do destino é que Dadi era um dos ídolos de Dé Palmeira.
Com a saída de Dé, o Barão Vermelho passou por uma nova transformação. Além da chegada de Dadi, os músicos Fernando Guimarães e Peninha foram efetivados como integrantes oficiais do Barão Vermelho, o que levou a banda a voltar a ser um quinteto.
À distância do tempo, a conclusão que se chega é que Carnaval
foi muito além de um bom disco de rock. Foi a prova de que a banda
tinha uma identidade própria, resiliente e autêntica, capaz de resistir às
adversidades e se reinventar. Foi, sobretudo, um disco de superação. Se a saída
de Cazuza foi a tempestade, Carnaval foi o porto seguro que
ancorou o Barão Vermelho, garantindo sua sobrevivência e solidificando seu
lugar na história do rock brasileiro.
Faixas
Lado A
1-"Lente" (Roberto Frejat-Arnaldo Antunes)
2-"Pense e Dance" (Dé Palmeira-Frejat-Guto Goffi)
3-"Não Me Acabo" (Arnaldo Antunes-Paulo Miklos)
4-"O Que Você Faz à Noite" (Dé-Humerto Gessinger)
5-"Nunca Existiu Pecado" (Frejat-Guto Goffi)
Lado B
6-"Como um Furacão" (Frejat-Guto Goffi-Sérgio
Serra)
7-"Quem Me Escuta" (Frejat-Guto Goffi)
8-"Selvagem" (Frejat-Guto Goffi)
9-"Carnaval" (Paulo Pizziali-Frejat-Chacal-Raquel)
10-"Rock da Descerebração" (Frejat-Cazuza)
Barão Vermelho: Roberto Frejat (vocais, violão e guitarra), Dé Palmeira (baixo
e vocais de apoio) e Guto Goffi (bateria e vocais de apoio)
Músicos adicionais
Ronaldo Barcelos – vocais de fundo (2, 4, 6, 8)
Jordão Barreto – órgão em "O Que Você Faz à Noite",
piano (4, 6)
Iuri Cunha – teclados em "Pense e Dance"
Léo Gandelman – saxofone alto
Jurema e Jussara Lourenço, Zé Roberto – backing vocals (2, 6,
8)
Fernando Magalhães – guitarras
Peninha – percussão
Zé Carlos – saxofone tenor
Serginho – trombone
Bidinho, Don Harris – trompete
Referências:
Revista Bizz – edição 038, setembro/1988, Editora Azul, São Paulo,
Brasil.
Revista Bizz – edição 076, novembro/1991, Editora Azul, São Paulo,
Brasil.
Dias de Luta – o rock e o Brasil dos anos 80 – Ricardo Alexandre Luiz, 2013,
Arquipélago Editorial, Porto Alegre, Brasil
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