Bora Bora (EMI-Odeon, 1988), Os Paralamas do Sucesso


Por Sidney Falcão

Em 1988, Os Paralamas do Sucesso já não eram mais “aquela banda de Vital e Sua Moto”. Depois de Selvagem?, disco que expandiu seu som para muito além do rock carioca, Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone se viam no meio de uma encruzilhada criativa. Haviam experimentado ritmos afro-caribenhos, conquistado plateias na América Latina, tocado no Festival de Montreux, gravado ao vivo fora do país e começavam a despertar o interesse da matriz inglesa da EMI. Mas havia também algo mais íntimo moldando o que viria: o fim do relacionamento de Herbert com Paula Toller, vocalista do Kid Abelha. 

Foi nesse contexto de expansão geográfica e recolhimento emocional que nasceu Bora Bora, o quarto álbum de estúdio da banda — uma obra em que sol e sombra se dividem em lados quase antagônicos: de um lado, a vibração ensolarada e dançante dos metais; de outro, a introspecção dolorida e melancólica de quem escreve com o coração em ferida aberta. 

Gravado no estúdio da EMI-Odeon, no Rio, em fevereiro de 1988, e mixado no sofisticado Townhouse Studios, em Londres — onde, entre uma sessão e outra, os Paralamas cruzavam com Eric Clapton e ouviam ecos de Boy George nos corredores —, o álbum representou a primeira experiência de produção própria do trio, com o apoio do fiel escudeiro Carlos Savalla. Foi também a obra que cravou, definitivamente, os sopros na identidade sonora do grupo, com participações de Mattos Nascimento (trombone), Humberto Araújo (saxofone) e Don Harris (trompete), além dos convidados internacionais Peter Metro (toast jamaicano) e Charly García (piano). 

O título, tirado da faixa homônima, evocava exotismo tropical, mas também ironia: a imagem de um paraíso distante contrastava com letras sobre amores naufragados e desilusões políticas. Era, como Herbert definiria, “uma mistura de falência de sonhos e anúncios vagabundos de paraísos tropicais”. 

A capa, assinada por Ricardo Leite, era um choque cromático diante do preto e branco urbano de Selvagem?. Multicolorida, quase cartunesca, refletia a face caribenha do disco. O lado A, com seu sotaque afro-latino, era a festa na praia; o lado B, a ressaca na madrugada. 

Os Paralamas do Sucesso em Paris, em 1987, quando se apresentaram no Olympia.
A foto da banda na frente da casa de espetáculo parisiense serviu de capa
para o álbum D, gravado ao vivo no mesmo ano no Festival de Montreux, na Suíça.

Nos arranjos, o reggae seguia sendo o alicerce, mas com novas camadas: ska, dub, calipso, guitarrada, baião e até um pé na música congolesa. O baixo de Bi continuava a pulsar com firmeza; a bateria de Barone, mais solta e inventiva; e Herbert, além das guitarras, se aventurava como cronista romântico e político, sem separar muito uma coisa da outra. 

Mas Bora Bora não foi apenas uma questão de som. Nos bastidores, houve drama técnico: as fitas de 24 canais usadas na gravação, importadas da Alemanha, apresentaram defeitos e se deterioraram, soltando óxido. O problema só foi percebido na mixagem em Londres, e todo o material original se perdeu para sempre. A fabricante atribuiu à “umidade brasileira” a culpa e limitou-se a pedir desculpas. A ironia: um disco que falava de memória afetiva e perda começava sua vida já marcado pela ausência física de seu registro bruto. 

Na abertura, a faixa “O Beco” funciona como editorial do disco: metais agressivos, reggae político e um riff que poderia ter saído tanto das ruas de Kingston quanto de Salvador. Depois, “Bundalelê”, instrumental que mistura carimbó e charanga, abre alas para a parte mais dançante do LP: é o som do mercado popular invadindo o estúdio. A faixa-título, “Bora Bora”, traz a ironia ensolarada do disco — ritmo alegre, letra amarga, imagem de um paraíso contrastando com o abandono amoroso. Já “Sanfona” é um cruzamento improvável entre forró e Caribe: música de fronteira, global e nordestina ao mesmo tempo. 

Em “Um a Um”, os Paralamas recriam Jackson do Pandeiro (1919-1982) com espírito pop e arranjo de sopros vibrantes, reforçando o vínculo orgânico com a matriz brasileira. Na sequência, “Fingido” inaugura o clima introspectivo que se consolidará no lado B: uma balada contida, arranjo delicado, melancolia sem drama. “Don’t Give Me That” encerra o lado A com groove jamaicano e participação de Peter Metro, denunciando o uso de cocaína — reggae em estado puro, com cheiro de dub londrino. 

É no lado B que o disco revela sua dor. “Uns Dias” abre como um golpe seco: Herbert canta ressentimento com voz baixa, mas o impacto é grande. O teclado de João Fera dá maturidade à faixa. Em seguida, vem o ápice emocional: “Quase um Segundo”, com o piano de Charly García, é MPB no sentido mais nobre — vulnerável, sofisticada, visceral. “Dois Elefantes” mantém o clima de desilusão, com bateria forte e uma das melhores metáforas de perda do repertório da banda. Ganhou uma releitura de Marina Lima no ano seguinte, no disco Próxima Parada (1989). 

Gravada originalmente Jackson do Pandeiro, em 1954, "Um A Um" ganhou uma
releitura dos Paralamas do Sucesso para o álbum Bora Bora, em 1988.

“Três” serve como interlúdio breve e estranho, quase um suspiro. Já “Impressão” segue o tom reflexivo, como uma carta nunca enviada. “O Fundo do Coração” traz o sax de George Israel e uma brisa soul que devolve sensualidade à reta final. O disco fecha com “The Can”, crônica bem-humorada sobre o “verão da lata” de 1987, com Peter Metro de volta, oscilando entre rap e reggae — uma despedida debochada após tanta ferida exposta. 

Lançado em maio de 1988, Bora Bora vendeu cerca de 200 mil cópias, número expressivo para um disco que não se limitava a repetir a fórmula dos hits anteriores. A crítica reconheceu a ousadia, embora parte da imprensa apontasse a dualidade entre o lado A e o lado B como um sinal de “esquizofrenia musical” — algo que, para os fãs, era justamente seu charme. 

Na revista Bizz, edição de agosto de 1988, o crítico musical Hagamenon Brito destacou a habilidade da banda em transitar do afro-baiano ao romantismo cinematográfico. Já Jean-Yves de Neufville, na mesma edição, comparou a versatilidade dos Paralamas a um camaleão, adaptando-se ao ambiente sonoro sem perder identidade. Ricardo Alexandre, no livro Dias de Luta – o rock e o Brasil dos anos 80, interpretou o disco como a consolidação de um “projeto estético” que cruzava as fronteiras entre rock e MPB — algo raro e arriscado na época. 

Bora Bora foi um divisor de águas na trajetória dos Paralamas. Primeiro, porque consolidou o uso dos metais como elemento permanente no som da banda. Segundo, porque ampliou de vez a paleta rítmica, aproximando o trio do conceito de world music sem que isso soasse forçado. Terceiro, porque provou que era possível misturar festa e melancolia num mesmo álbum sem perder a coesão emocional. 

No cenário musical brasileiro, o disco também foi um gesto político-estético: mostrou que o rock nacional podia dialogar com a MPB, o samba-reggae, o forró e o ska sem pedir licença a puristas de nenhum lado. No exterior, foi a peça-chave para a banda se posicionar como “o Clash brasileiro” ou “o Gang of Four africano”, como alguns jornalistas os definiram. 

Passadas tantas décadas desde o seu lançamento, Bora Bora continua soando vivo. As faixas dançantes ainda incendiariam uma pista de baile; as baladas ainda cortam fundo. É um disco que guarda, em 48 minutos, o espírito de uma banda no auge criativo — pronta para conversar com o mundo, mas sem esquecer a rua da esquina.       

Faixas

Todas as faixas por Herbert Vianna, exceto as indicadas.

 

Lado A

1."O Beco" (Bi Ribeiro/Herbert Vianna)        

2."Bundalelê" (Bi Ribeiro/João Barone/Herbert Vianna)     

3."Bora-Bora"

4."Sanfona" (Bi Ribeiro/Herbert Vianna)

5."Um a Um" (Edgar Ferreira)

6."Fingido"

7."Don't Give Me That" (Bi Ribeiro/Peter Clarke/Herbert Vianna)

 

Lado B

8."Uns Dias"   

9."Quase Um Segundo"          

10."Dois Elefantes"    

11."Três"         

12."Impressão" (Bi Ribeiro/João Barone/Herbert Vianna) 

13."O Fundo do Coração"      

14."The Can" (Bi Ribeiro/Peter Clarke/Herbert Vianna)

 

Os Paralamas do Sucesso: Herbert Vianna (guitarra e voz), Bi Ribeiro (baixo) e João Barone (bateria e percussão).

 

Participações:

João Fera (teclados)

Mattos Nascimento (trombone)

Humberto Araújo (saxofone)

Don Harris (trompete)

George Israel (sax em "O Fundo do Coração")

Charly García (piano em "Quase um Segundo")

Peter Metro (toast em "Don't Give Me That" e "The Can")

 

Referências:

Revista Bizz – edição 034, maio/1988, Editora Azul, São Paulo, Brasil.

Revista Bizz – edição 037, agosto/1988, Editora Azul, São Paulo, Brasil.

Dias de Luta – o rock e o Brasil dos anos 80 – Ricardo Alexandre Luiz, 2013, Arquipélago Editorial, Porto Alegre, Brasil.)

culturaefutebol.wordpress.com

outradiscografia.tumblr.com 


“O Beco"

"Bundalelê" 

"Bora-Bora"

"Sanfona”

Um a Um"

"Fingido"

"Don't Give Me That”

"Uns Dias"
(videoclipe original, exibido no 
"Fantástico", TV Globo, maio de 1988)

"Quase Um Segundo"

"Dois Elefantes"

"Três"

“Impressão"

“O Fundo do Coração"

"The Can"

Comentários