“No Jacket Required” (Virgin, 1985), Phil Collins
Por Sidney Falcão
Na primeira metade da década de 1980, Phil Collins já era uma figura proeminente no mundo da música. Depois de assumir os vocais do Genesis, uma das maiores bandas do rock progressivo dos anos 1970, e lançar dois álbuns solo de sucesso — Face Value (1981) e Hello, I Must Be Going! (1982) —, Collins estava em um ponto alto de sua carreira. Sua habilidade como baterista e cantor, junto com uma sensibilidade pop única, o tornaram uma força criativa tanto no Genesis quanto em sua carreira solo. No entanto, o lançamento de No Jacket Required em fevereiro de 1985 representou o momento definitivo em que Collins cruzou a linha entre estrela do rock e superastro pop mundial.
Mas a história de No Jacket Required começa a ser traçada no início de 1984, após o Genesis concluir a Mama Tour em janeiro daquele ano. A banda decidiu fazer uma pausa para que seus integrantes se dedicassem a seus projetos individuais. O baixista e guitarrista Mike Rutherford formou a banda Mike & The Mechanics; Tony Banks foi produzir o álbum Soundtracks, que reúne as trilhas sonoras dos filmes Quicksilver e Lorca and The Outlaws; já Phil Collins começou a pensar em seu próximo trabalho solo.
Para esse novo projeto, Collins decidiu que tomaria uma direção musical mais animada, dançante e acessível, embora em seu álbum anterior, Hello, I Must Be Going! (1982), ele já demonstrasse essa tendência com faixas como "I Cannot Believe It's True" e “It Don't Matter to Me”.
As gravações do terceiro álbum de Collins ocorreram entre maio e dezembro de 1984 nos estúdios The Townhouse, em Londres, e Old Croft, em Shalford, no condado de Surrey, ambos na Inglaterra. Phil Collins e Hugh Padgham lideraram a produção. Um dado curioso é que, além de contar com um time de músicos competentes, Collins teve ilustres convidados nos vocais de apoio: ninguém menos que seu ex-colega de Genesis, Peter Gabriel, e Sting, então vocalista do The Police.
Enquanto o processo de gravação do novo álbum de Collins acontecia, o cantor dominava as paradas em 1984 com a canção “Against All Odds (Take a Look at Me Now)”, composta e gravada por ele para o filme Against All Odds (no Brasil, Paixões Proibidas), que alcançou o 1° lugar na Billboard Hot 100, nos Estados Unidos. A canção conquistou o prêmio Grammy de “Melhor Performance Vocal Pop Masculina” em 1985. O sucesso de "Against All Odds (Take a Look at Me Now)” era só o início da “onipresença” de Phil Collins nas paradas mundiais.
No fim de 1984, o cantor e integrante do Earth, Wind &
Fire, Philip Bailey, lançou o single “Easy Lover”, onde faz um dueto com
Collins. A música alcançou sucesso mundial ao longo do ano seguinte. Liderou a
Billboard Hot 100 nos Estados Unidos e foi indicada ao Grammy na categoria de
“Melhor Performance Pop por Dueto”. O single vendeu mais de 1 milhão de cópias
nos Estados Unidos, tornando-se não apenas o maior sucesso da carreira solo de
Bailey, mas também um dos grandes êxitos de Collins.
![]() |
Phil Collins e Philip Bailey fizeram um dueto em "Easy Lover", megahit do álbum Chinese Wall (1984), de Bailey. |
Finalmente, em 18 de fevereiro, o aguardado No Jacket Required foi lançado. A origem do título do álbum, No Jacket Required (“Sem Paletó Obrigatório”), veio de um fato inusitado. Phil Collins e o ex-vocalista do Led Zeppelin, Robert Plant, foram ao renomado The Pump Room, um dos mais requintados restaurantes de Chicago, nos Estados Unidos. Ao entrar no estabelecimento, Collins foi barrado na entrada por causa da jaqueta de couro que vestia. O traje não estava de acordo com os rígidos códigos de vestimenta do restaurante, que exigia “paletó obrigatório” para o traje masculino. Desde então, o cantor passou a relatar o ocorrido em programas de TV. Com a repercussão, a gerência do restaurante chegou a enviar a Collins um paletó esporte de cortesia e uma carta com um pedido de desculpas, afirmando que ele poderia frequentar o restaurante vestindo o que quisesse. Desse incidente, Collins teve a ideia de nomear seu álbum No Jacket Required como uma forma de protesto, ou mesmo de deboche, ao rigoroso padrão exigido pelo restaurante.
A capa de No Jacket Required segue o conceito do close-up facial iniciado no primeiro disco, Face Value. O rosto de Phil Collins aparece iluminado por uma luz vermelho-alaranjada, que enfatiza a natureza “quente” e acelerada do álbum. Para acentuar o tom alaranjado no rosto de Collins, teria sido borrifada glicerina na testa do cantor britânico durante as sessões de fotos, resultando em uma ilusão de transpiração.
No Jacket Required possui uma sonoridade polida, devido à meticulosa produção do álbum. Há uma forte presença de instrumentos eletrônicos, como drum machines e sintetizadores, juntamente com a característica bateria de Collins, cheia de reverbs, e a entrega vocal emotiva do cantor.
Musicalmente, o álbum representa um afastamento do estilo mais sério e introspectivo dos trabalhos anteriores de Collins, abraçando, em vez disso, uma direção otimista e radiofônica. Faixas como "Sussudio" e "Don't Lose My Number" são emblemáticas do pop energético e baseado em sintetizadores, enquanto "One More Night" e "Take Me Home" destacam a habilidade de Collins em criar baladas pungentes. O álbum também apresenta uma fusão de elementos de rock, funk e R&B, particularmente em faixas como "Inside Out" e "Who Said I Would".
![]() |
Phil Collins em cena do videoclipe de "Sussudio". |
Na faixa seguinte, o pop rock "Only You Know and I Know", Collins toca bateria de forma vigorosa. Ele canta versos sobre a dificuldade de comunicação entre duas pessoas, mas que, ao mesmo tempo, reconhecem que há verdades essenciais que só eles sabem e precisam ser ditas para que o relacionamento flua bem.
"Long Long Way to Go" desacelera completamente o ritmo do disco, com um clima quase etéreo, criado por camadas “gélidas” de sintetizadores e batidas eletrônicas arrastadas e pulsantes. Toda essa sonoridade “fria” serve de pano de fundo para versos que refletem sobre a desconexão e apatia em relação à violência e à tragédia no mundo. Ao longo da música, o eu lírico expressa uma sensação de impotência diante de eventos dolorosos e a incapacidade de mudar a situação, como a morte de pessoas inocentes. A repetição de "ainda temos um longo caminho a percorrer" sugere que a humanidade ainda tem muito a evoluir para resolver essas questões.
"I Don't Wanna Know" é um pop rock sobre a rejeição ao retorno a uma antiga relação. O eu lírico descarta qualquer possibilidade de reatar, apesar das tentativas da outra pessoa de reconquistá-lo. Ele prefere seguir em frente e não quer mais saber dos sentimentos dela. Fechando o lado 1 de No Jacket Required, a linda balada "One More Night" é um apelo desesperado de um homem apaixonado por mais uma chance em um relacionamento à beira do fim. O eu lírico pede por mais tempo para reconquistar a pessoa amada, expressando sua incapacidade de seguir em frente sem ela.
Em "Don't Lose My Number", Phil Collins canta
desesperado sobre Billy, um homem em fuga. Ele está sendo procurado, mas
ninguém sabe ao certo o motivo ou o que ele fez. O eu lírico, amigo de Billy,
implora para que ele não perca contato enquanto continua correndo e se
escondendo, sugerindo uma situação de desespero e urgência. Destaque para as
guitarras de Daryl Stuermer.
![]() |
Capa do single de "One More Night". |
"Inside Out" traz mais uma performance vigorosa de Phil Collins na bateria. É um pop rock que expressa a luta de um indivíduo por autonomia em meio à pressão de seguir as regras impostas pelos outros, enquanto o narrador tenta encontrar sua própria direção: “Agora, todo mundo não para de me dizer como ser / Todo mundo me diz para fazer o que eles dizem / Eu vou me ajudar, só depende de mim e de mais ninguém”.
O álbum chega ao fim com “Take Me Home”, uma canção que teria sido inspirada no romance Um Estranho No Ninho, de Ken Kesey. "Take Me Home" reflete um sentimento de alienação e aprisionamento emocional, com o protagonista da letra ansiando por escapar de sua realidade monótona e encontrar paz. Ele clama para ser levado para casa, simbolizando um desejo de reconexão e liberdade. Nesta canção, Peter Gabriel e Sting fazem os vocais de apoio.
No Jacket Required alcançou o 1° lugar na parada britânica de álbuns durante cinco semanas consecutivas, e por sete semanas na Billboard 200, nos Estados Unidos. O álbum liderou as paradas de outros países como Canadá, Espanha, Alemanha, Noruega, Suécia, Suíça e Holanda.
Comercialmente, No Jacket Required é o álbum mais vendido da
discografia de Phil Collins. Somente nos Estados Unidos, o disco vendeu mais de
12 milhões de cópias. No Reino Unido, o terceiro álbum de Collins chegou à
marca de 1,9 milhão de cópias. Na Alemanha, vendeu 1,5 milhão de cópias,
enquanto no Canadá o disco atingiu a marca de 1,3 milhão de cópias vendidas.
![]() |
Phil Collins em apresentação no Madison Square Garden, em julho de 1985, na cidade de Nova York, na turnê promocional do álbum No Jacket Required. |
Poucas semanas depois, em 13 de julho de 1985, Collins participou do festival Live Aid, evento antológico idealizado por Bob Geldof, que reuniu as principais estrelas da música mundial com o objetivo de arrecadar fundos para combater a fome na África. O evento ocorreu simultaneamente no Estádio de Wembley, em Londres, e no Estádio JFK, na Filadélfia, nos Estados Unidos. Phil Collins foi o único artista a tocar nos dois estádios. Para isso, o cantor voou no Concorde, um dos aviões mais rápidos do mundo na época, depois de sua apresentação em Londres, para se apresentar na Filadélfia.
Com sucesso de público e crítica, No Jacket Required foi indicado a vários prêmios, e conquistou alguns deles, como o Brit Awards, em 1986, que rendeu a Phil Collins o prêmio de “Melhor Artista Masculino”. Ainda no mesmo ano, o álbum conquistou três prêmios Grammy: “Melhor Performance Vocal Masculina”, “Álbum do Ano” e “Produtor do Ano”.
No Jacket Required elevou Phil Collins ao estrelato pop,
mostrando sua habilidade de misturar rock, pop e uma produção pesada de
sintetizadores em um som que definiu meados dos anos 80. O enorme sucesso
comercial do álbum, ganhando três Grammys e vendendo mais de 12 milhões de
cópias nos EUA, solidificou sua carreira solo e ampliou seu público além dos
fãs do Genesis. Sua produção polida e sucessos contagiantes como
"Sussudio" influenciaram o som pop mainstream da década, enquanto os
vocais emotivos de Collins estabeleceram um novo padrão para baladas pop. O
impacto do álbum também destacou a crescente importância da MTV na formação do
cenário visual e comercial da música pop.
Faixas
Todas as canções foram escritas por Phill Collins, exceto as
indicadas e produzidas por Collins e Hugh Padgham.
Lado 1
1."Sussudio"
2."I Cannot Believe It's
True"" (Collins - Daryl Stuermer)
3."Long Way to Go"
4."I Don't Wanna Know" (Collins
- Stuermer)
5."One More Night"
Lado 2
6."Don't Lose My
Number"
7."Who Said I
Would"
8."Doesn't Anybody Stay
Together Anymore" ( Collins – Stuermer)
9."Inside Out"
10."Take Me Home"
Comentários
Postar um comentário