“The Game” (1980, EMI), Queen
Por Sidney Falcão
Com o álbum Jazz, de 1978, o Queen dava adeus à sua sonoridade glamurosa e grandiloquente dos anos 1970, e abria os braços para a nova década que estava chegando através do som mais acessível, “enxuto” e direto do álbum The Game, de 1980. The Game mostra um Queen renovado musicalmente e visualmente, conectado com as transformações pelas quais o rock e a música pop passavam na virada dos anos 1970 para os anos 1980. Em The Game, o Queen se mostra mais radiofônico, mais pop, flertando com a disco music e a new wave. A grande novidade mesmo foi o fato do Queen usar pela primeira vez um sintetizador, instrumento que a banda se orgulhava em informar nos créditos de seus discos anteriores que não utilizava. Se a inclinação do Queen para uma sonoridade mais pop, desagradou os antigos fãs, por outro lado, acabou atraindo uma nova geração de fãs.
Para escapar
dos altos tributos do Reino Unido, a banda decide se mudar para Munique, na
então Alemanha Ocidental, emendar gravação de disco com turnê, e só retornar
para terra natal para apresentações ou breves visitas. O esquema acabou
afetando positivamente nas finanças do quarteto inglês. The Game começou a ser
concebido em junho de 1979, quando a banda lançou o seu primeiro álbum gravado
ao vido, Live Killers, álbum duplo que registra a turnê do álbum Jazz.
A partir de
meados de 1979, o Queen entrou num ritmo inacreditável e intenso de trabalho
que se estenderia num espaço de dois anos. O quarteto se desdobrou em gravação
de disco, gravação de uma trilha sonora para um film e turnês, uma delas
bastante extensa, incluindo a América do Sul, lugar que a banda inglesa ainda
não havia se apresentado.
No final de 1979,
o Queen comprou o Mountain Studios, em Montreaux, na Suíça. Contudo, a banda só
passaria a gravar os seus discos naqueles estúdios só a partir do álbum Hot
Space, em 1982. The Game foi gravado no Musicland
Studios, em Munique, na Alemanha, em duas etapas: a primeira etapa, entre junho
e julho de 1979, e a segunda entre fevereiro e maio de 1980.
Paralelo às
gravações de The Game, o Queen gravava no mesmo período a trilha sonora para
o filme Flash Gordon, do diretor Mike
Hodges, que estreou nos cinemas em dezembro de 1980. Apesar da trilha sonora do
Queen, o filme é de uma cafonice terrível.
Em outubro
de 1979, foi lançado o single de “Crazy Little Thing Called Love”, primeiro
fruto da primeira etapa de gravações de The Game. Inspirada no rockabilly
dos anos 1950, a música ganhou um videoclipe em que os membros do Queen aparecem
vestido de jaqueta de couro e cabelos curtos, um visual que espantou os fãs acostumados
com a estética glam rock que a banda tinha. O single fez um enorme sucesso, que
diga-se de passagem, a banda nem esperava. Alcançou o 2º lugar no Reino Unido,
e o 1º lugar na Billboard 200, nos
Estados Unidos, no começo de 1980.
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Freddie Mercury, Brian May e Roger Taylor em cena do videoclipe de "Crazy Little Thing Called Love". |
Por causa do
sucesso do single, o Queen teve uma ideia um tanto quanto inusitada para o status que a banda havia chegado àquela
altura da carreira: fazer shows em pequenos espaços. Entre os meses de novembro
e dezembro de 1979, o Queen fez a Crazy
Tour, uma turnê que percorreu o Reino Unido fazendo 18 apresentações em
pequenos espaços, com capacidade para pouco mais de 1.500 pessoas. Acostumada a
tocar em grandes estádios e arenas lotadas após conquistar a fama, a banda
tinha como objetivo nessa turnê se aproximar mais do seu público. Como a ideia
parecia uma loucura para uma banda como o Queen, a turnê foi batizada de
“Crazy” (louco). Mas ao mesmo tempo, fazia alusão a “Crazy Little Thing Called
Love”, cujo single, só nos Estados Unidos, havia vendido pouco mais de 1 milhão
de cópias.
Em janeiro
de 1980, foi lançado o single de “Save Me”, 11º lugar na parada de singles no
Reino Unido. A segunda etapa de gravação de The Game prossegue entre fevereiro
e maio de 1980. O Queen lança em maio o single de “Play The Game”, o terceiro
single antecede o lançamento de The Game, que alcança o 14º lugar no
Reino Unido e 42º lugar na para da Billboard,
nos Estados Unidos.
Finalmente,
em 30 de junho de 1980, The Game foi lançado. Oitavo álbum de estúdio do Queen, The
Game foi melhor recebido pela imprensa musical do que Jazz,
que teve opiniões bastante divididas.
Um som de jato supersônico ou de alguma espécie de nave espacial, simulado por sintetizador (um Oberheim OB-X), anuncia início de “Play The Game”, faixa que abre o álbum The Game. É a confirmação da adesão do Queen ao instrumento eletrônico que por anos rejeitara. O som espacial logo dá lugar à voz de Freddie Mercury ao piano, seguido por baixo, guitarra e bateria. No meio da canção, o sintetizador retorna fazendo mais efeitos sonoros. Composta por Freddie Mercury, “Play The Game” é uma canção que fala sobre o jogo do amor, de se manter aberto a uma paixão e de não ter medo de se entregar a ela. O videoclipe de “Play The Game” mostra pela primeira vez Freddie Mercury usando de bigode, imagem que a partir de então se tornaria uma marca registrada do vocalista do Queen.
Um som de jato supersônico ou de alguma espécie de nave espacial, simulado por sintetizador (um Oberheim OB-X), anuncia início de “Play The Game”, faixa que abre o álbum The Game. É a confirmação da adesão do Queen ao instrumento eletrônico que por anos rejeitara. O som espacial logo dá lugar à voz de Freddie Mercury ao piano, seguido por baixo, guitarra e bateria. No meio da canção, o sintetizador retorna fazendo mais efeitos sonoros. Composta por Freddie Mercury, “Play The Game” é uma canção que fala sobre o jogo do amor, de se manter aberto a uma paixão e de não ter medo de se entregar a ela. O videoclipe de “Play The Game” mostra pela primeira vez Freddie Mercury usando de bigode, imagem que a partir de então se tornaria uma marca registrada do vocalista do Queen.
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Queen em estúdio na gravação do videoclipe de "Play The Game". |
“Dragon
Attack” é a faixa do álbum que mais lembra o Queen do passado. A diversidade
rítmica da música impressiona o ouvinte, e permite que cada membro da banda
mostre as suas habilidades nos seus respectivos instrumentos. John Deacon faz
uma linha de baixo que revela a influência da música negra americana na sua
formação musical. Roger Taylor faz solos pesados e incríveis na sua bateria.
Brian May criou camadas sobrepostas de guitarras que dão ao ouvinte a impressão
de que o Queen ter dois guitarristas.
A faixa
seguinte, “Another One Bites The Dust”, é um dos maiores sucessos da carreira
do Queen. Composta por John Deacon, a música possui uma linha de baixo
completamente inspirada na de “Good Times”, megahit do Chic. “Another One Bites
The Dust” gerou uma grande tensão entre Deacon e o baterista Roger Taylor, que
discordava da presença de uma canção disco music num álbum de rock. Deacon, um
admirador confesso de soul music e R&B, venceu o duelo e a música acabou
entrando no álbum. Quem primeiro percebeu o potencial de “Another One Bites The
Dust” foi ninguém menos que Michael Jackson, que ao visitar o camarim do Queen
num show da banda em Los Angeles, elogiou a música e sugeriu que fosse lançado um
single para ela. Para desespero de Taylor, “Another One Bites The Dust” fez um
enorme sucesso em escala mundial, não só em execuções em rádio como nas pistas
das discotecas. “Another One Bites The Dust” chegou a figurar entre as músicas
mais tocadas nas paradas de música negra nos Estados Unidos. O single de
“Another One Bites The Dust” foi lançado e confirmou o faro de sucesso de
Michael Jackson: o single alcançou o 1º lugar nos Estados Unidos, onde vendeu 3
milhões de cópias, e foi 7º lugar no Reino Unido.
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A linha de baixo de "Good Times", sucesso da band Chic (foto), serviu de referência para "Another One Bites The Dust". |
Uma
curiosidade que pouca gente sabe sobre “Another One Bites The Dust”, é que um
ator pediu ao Queen a permissão para usar a música como tema de uma sequência
de um filme que ele estava escrevendo o roteiro e iria estrelar. No entanto, o
Queen negou o pedido. O tal ator recorreu a uma banda até então pouco conhecida
para compor a música tema para o filme. O ator era Sylvester Stallone, o filme
em questão era Rocky 3, que estreou
nos cinemas em 1982, e a música composta para o filme foi "Eye Of The
Tiger", que elevou a banda Survivor do semianonimato para a fama
internacional.
“Need Your
Loving Tonight”, outra composição de John Deacon presente no álbum, é um típico
pop rock feito na medida certa para tocar no rádio. A letra refere-se a um rapaz
que foi abandonado pela garota que ama, mas que não consegue esquecê-la e sonha
um dia reconquistá-la.
Lançada em
formato single oito meses antes do álbum, “Crazy Little Thing Called Love” é um
rockabilly com um espírito bem anos 1950, em que o Queen presta uma homenagem a
Elvis Presley. Freddie Mercury canta completamente inspirado no “Rei do Rock”.
“Crazy Little Thing Called Love” foi a primeira música do Queen atingir o 1º
lugar nas paradas de sucesso dos Estados Unidos, no final de 1979, quando havia
sido recém lançada em single. Os versos da música fazem referência a um jovem
garotão que deseja viver a vida sem rumo, livre, pilotando a sua moto, sem se
prender ao amor. Na versão LP de The Game, “Crazy Little Thing Called
Love” é a faixa que encerra o lado A.
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Dica de "rei" para "rainha": foi Michael Jackson quem sugeriu ao Queen que lançasse um single de "Another One Bites The Dust". |
O lado B da
versão LP de The Game começa com “Rock It (Prime Jive)”, de autoria do
baterista Roger Taylor. A música começa como uma balada cantada por Freddie
Mercury declarando o seu amor ao rock’n’roll: “When I hear that rock and roll / It gets down to my soul / When it's
real rock and roll” (“Quando ouço
esse rock and roll / Ele fica na minha alma / Quando é verdadeiro rock and
roll”). Após os três primeiros versos, a música ganha ritmo através de um
rock básico e veloz, com clara influência da new wave. Dessa parte em diante,
quem canta é Roger Taylor. Há a presença do sintetizador, que é tocado pelo
produtor Reinhold Mack.
“Don’t Try
Suicide”, de Freddie Mercury, possui um riff
de guitarra na introdução que curiosamente lembra muito o riff de “Walking On The Moon”, do The Police. Ao mesmo tempo, a
linha de baixo remete ao jazz. Embora seja uma música com um ritmo
descontraído, a letra aborda um tema muito delicado que é o suicídio. A canção
trata sobre alguém que tenta convencer uma garota a desistir do suicídio. O
tema tão delicado, contrasta com o ritmo descontraído da canção, o que levou o
Queen a ser criticado na época por acreditarem que a banda estaria debochando
de um assunto tão sério.
A próxima faixa, a bela balada “Sail Away Sweet Sister (To The Sister I Never Had)”,
de Brian May, que também canta a canção. No entanto, Freddie Mercury canta em
um trecho da música, pouco depois da pausa instrumental: “Hot child, don't you know, you're Young / You've got your whole life
ahead of you / You can throw it away too soon / Way too soon” (“Ardente criança,
você não sabe, você é jovem / Você tem a vida toda à sua frente / Você pode
jogá-la fora muito cedo / Cedo demais”). O conteúdo da letra um é tanto
dúbio: parece se referir a uma irmã do guitarrista, mas pode também se referir
a alguma mulher por quem ele foi apaixonado.
Composta por
Roger Taylor, “Coming Soon” é um pop rock radiofônico, bem ao estilo da banda
Electric Light Orchestra, que por coincidência ou não, já havia trabalhado com
Reinhold Mack, produtor de The Game. Para alguns críticos
musicais, é a faixa mais fraca do álbum. Roger Taylor queria que a música fosse
lançada como single, mas os outros membros do Queen vetaram.
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Brian May no Mountain Studios: voz principal em "Sail Away Sweet Sister". |
Fechando o
álbum com chave de ouro, “Save Me”, canção que mostra que Brian May além de um
guitarrista talentosíssimo, tem uma grande capacidade em compor belas baladas.
“Save Me” teria sido composta por May depois que soube que um amigo seu havia
passado por um final de casamento difícil. A letra descreve a dor profunda de
um homem amargurado pelo final da vida conjugal com a mulher que tanto amava,
mas que apesar do amor que ainda sente por ela, procura se livrar desse
sentimento e dar um novo rumo à sua vida.
No mesmo dia
de lançamento de The Game, o Queen deu início a uma longa turnê mundial do álbum
de quase um ano e meio, que além da América do Norte, Europa e Ásia, incluiu no
seu roteiro uma novidade: a América do Sul. Pela primeira vez o Queen passaria
pela América do Sul, numa época em que pouquíssimas grandes estrelas da música
internacional costumavam excursionar por esse continente. Na etapa
sul-americana da turnê, o Queen tocou no Brasil, Argentina e Venezuela.
Quando
passou a turnê passou pelo Brasil, a
banda fez duas apresentações, 20 e 21 de março de 1981, no Estádio do Morumbi.
Haviam mais três shows da turnê agendados para o Brasil, mas que foram
cancelados: Porto Alegre, no Estádio Olímpico, dia 13 de março, e Rio de
Janeiro, no Estádio do Maracanã, 27 de março. Este último foi cancelado e
remarcado para 3 de outubro, no Maracanã, mas foi novamente cancelado.
Foi a partir
da turnê de The Game que Freddie Mercury se apresentou pela primeira vez shows
com o seu espesso bigode. Inicialmente, a reação do público não foi das mais
amistosas. Em alguns shows, os fãs chegaram a atirar ao palco aparelhos
descartáveis de barbear. Os escritórios do Queen passaram a receber vários
pacotes de lâminas de barbear enviados pelos fãs. Mas com passar do tempo, o
público se acostumou com o bigode de Freddie.
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Queen posando na arquibancada do estádio do Morumbi, em São Paulo, em março de 1981. |
Comercialmente,
The
Game teve um bom desempenho. O álbum chegou ao 1º lugar nas paradas de
álbuns dos Estados Unidos, onde vendeu 4 milhões de cópias. Na Alemanha e
Noruega, ficou em 2º lugar. Porém, na terral natal do Queen, o Reino Unido, The
Game ficou em 11º lugar na parada de álbuns.
O sucesso de
“Another One Bites The Dust”, motivou o Queen a direcionar a sua linha musical
para o pop, funk, disco music e R&B, bem como uma exploração ainda maior do
sintetizador. Essa nova orientação se refletiu no álbum seguinte, Hot
Space, de 1982. Porém, a inclinação da banda para o dance-pop gerou
críticas muito duras tanto por parte do público quanto da imprensa musical.
Provavelmente, o Queen talvez tivesse exagerado na dose do emprego dos
sintetizadores em detrimento da guitarra elétrica, o que só foi corrigido no
álbum The Works, de 1984, quando a banda conseguiu estabelecer o
equilíbrio entre a sonoridade eletrônica dos sintetizadores e o peso do hard
rock da guitarra, baixo e bateria.
Faixas
Lado A
- "Play The Game" (Freddie Mercury)
- "Dragon Attack" (Brian May)
- "Another One Bites The Dust" (John Deacon)
- "Need Your Loving Tonight" (John Deacon)
- "Crazy Little Thing Called Love" (Freddie Mercury)
Lado B
- "Rock It (Prime Jive)" (Roger Taylor)
- "Don't Try Suicide" (Freddie Mercury)
- "Sail Away Sweet Sister" (Brian May)
- "Coming Soon" (Roger Taylor)
- "Save Me" (Brian May)
Queen: Freddie Mercury (vocais,
piano, violão e sintetizador), Brian May vocais, guitarra, violão, piano e
sintetizador), John Deacon (baixo, guitarra, piano, violão e percussão) e Roger
Taylor (vocais, bateria, percussão, guitarra e sintetizador).
Referências:
A verdadeira história do Queen : os bastidores de uma das
maiores bandas de todos os tempos - Mark Blake, 2015, Editora Seoman
Queen - Classic Rock Speciale, nº 11 -
novembro-dezembro/2018, Sprea Editori, Italia
Wikipedia
Ouça o álbum The Game na íntegra
(incluindo as faixas bônus "Human Body",
"It's A Beautiful Day" e "Sandbox")
"Play The Game" (videoclipe oficial_
"Another One Bites The Dust"
(videoclipe oficial)
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