Zé Ramalho (CBS,1978), Zé Ramalho
Simplesmente batizado de Zé Ramalho e lançado em 1978 pela Epic/CBS, o primeiro e homônimo disco solo do cantor e compositor paraibano surgiu quando o artista ainda era uma espécie de corpo estranho no mercado musical brasileiro. Tinha vindo da Paraíba, carregava na bagagem a tradição dos repentistas e violeiros, mas também o rock, Bob Dylan, Beatles, Jovem Guarda e a psicodelia. Trazia músicas que pareciam vindas de uma geografia própria — “Avôhai”, “Vila do Sossego”, “Chão de Giz” — e que, para muitos executivos de gravadoras, simplesmente não pareciam comercialmente viáveis.
O paradoxo é bonito: aquilo que inicialmente dificultava sua entrada no mercado seria justamente o que faria de Zé Ramalho uma figura singular. Quase tudo começa antes do disco.
José Ramalho Neto nasceu em Brejo do Cruz, no sertão da Paraíba, em 3 de outubro de 1949. A morte precoce do pai, afogado quando Zé tinha apenas três anos, fez com que ele fosse criado pelo avô paterno. Décadas depois, essa história familiar se transformaria em uma das canções mais misteriosas da música brasileira: “Avôhai”.
Mas o futuro compositor não cresceu dentro de uma única tradição. Em João Pessoa, durante a adolescência, descobriu a Jovem Guarda e o rock internacional. Ao mesmo tempo, antes de se tornar propriamente compositor, escrevia versos de cordel. A mistura estava em formação muito antes de chegar ao estúdio.
Nos primeiros anos da década de 1970, Zé participou de grupos, aproximou-se de Alceu Valença e mergulhou no universo dos cantadores nordestinos. Em 1975, gravou com Lula Côrtes o lendário Paêbirú, experiência fundamental para compreender o lado experimental de sua trajetória. Também participou da trilha do filme Nordeste: Cordel, Repente e Canção, de Tânia Quaresma.
Foi durante viagens pela Paraíba e por Pernambuco, entre 1975 e 1976, que nasceu boa parte do material que mais tarde formaria o álbum. Naquele momento, Zé ainda cursava Medicina na Universidade Federal da Paraíba. Abandonou a faculdade e partiu para o Rio de Janeiro com algumas fitas e a convicção de que precisava encontrar um lugar para aquela música.
O Rio, entretanto, não estava esperando por ele. Vieram as recusas. Phonogram, RCA, EMI-Odeon, Som Livre. Zé apresentava “Avôhai”, “Vila do Sossego” e “Chão de Giz”, e ouvia que aquele tipo de música não funcionaria. O próprio compositor lembraria, décadas depois, que muitos simplesmente torciam o rosto ao ouvir as canções.
Até que a porta se abriu na CBS. O diretor artístico Jairo Pires ouviu “Avôhai” e decidiu contratar o cantor no início de 1977. Era uma aposta numa música difícil de classificar justamente num período em que a indústria fonográfica brasileira ainda trabalhava com categorias bastante rígidas.
Zé tinha chegado ao Rio. Agora precisava provar que aquela estranha música sertaneja, urbana, psicodélica e mística podia sobreviver fora de seu território de origem.
![]() |
| Zé Ramalho e seu filho na companhia dos seus avós paternos que o criaram, Soledade Alves Ramalho e José Alves Ramalho, que inspirou a canção "Avôhai". |
Oito canais para inventar um
universo
A gravação aconteceu nos Estúdios
CBS, no Rio, entre novembro e dezembro de 1977. Foram apenas oito canais.
Carlos Alberto Sion assumiu a produção, Jairo Pires ficou responsável pela
direção artística e Zé participou dos arranjos de base.
A limitação técnica acabou favorecendo a personalidade do álbum. Em vez de uma produção pesada, as bases foram construídas com poucos músicos. O disco tem uma espinha quase acústica: voz, viola, violão, baixo e percussão. Sion procurou enfatizar as percussões regionais e as violas, enquanto deixava aparecer a veia country-rock do compositor.
E então acontece uma das
características mais fascinantes de Zé Ramalho: um disco essencialmente
nordestino se abre para músicos de mundos aparentemente distantes.
Dominguinhos, Paulo Moura, Altamiro Carrilho, Bezerra da Silva, Geraldo Azevedo, Sérgio Dias (dos Mutantes) e Patrick Moraz, tecladista suíço que havia passado pelo Yes.
Moraz aparece em “Avôhai”, dando à canção uma dimensão quase cósmica. O produtor Carlos Sion alugou um teclado de Lincoln Olivetti, e o músico estrangeiro, que estava no Rio gravando seu próprio trabalho, acabou seduzido pela proposta.
Sérgio Dias teria participação
ainda mais explosiva. Em “A Dança das Borboletas”, recebeu três dos oito canais
disponíveis para registrar seu solo de guitarra. A fita chegou ao fim sem que
ninguém percebesse, e o acidente acabou incorporado à história do disco: a
música encerra o primeiro lado de maneira abrupta, como se a própria gravação
tivesse sido interrompida por uma descarga elétrica.
É difícil imaginar uma metáfora melhor para aquele álbum.
Um artista como Zé Ramalho tentando encontrar espaço dentro da indústria, gravando com recursos limitados, cercado por músicos extraordinários, enquanto sua música parece escapar pelas frestas da própria tecnologia.
![]() |
| O álbum de estreia de Zé Ramalho contou com a participação de convidados ilustres como o ex-tecladista do Yes, Patrick Moraz, Dominguinhos e Sérgio Dias, dos Mutantes. |
Um disco sem estilo
Zé Ramalho tinha uma definição precisa para o que estava fazendo: “Há unidade no disco, mas não há estilo.” É talvez a melhor descrição de Zé Ramalho, o disco. O álbum não quer resolver suas contradições. Ele as acumula. Há rock, baião, música rural, choro, elementos urbanos, linguagem de violeiro, música instrumental e psicodelia.
Mas existe uma unidade subterrânea. Ela está na voz grave, na viola, nas imagens surrealistas, no misticismo, na memória nordestina e na maneira como Zé transforma experiências pessoais em mitologia.
É por isso que chamar o disco simplesmente de “rock nordestino” seria insuficiente. Há rock nele, mas há também algo anterior ao rock: a cantoria, o cordel, a oralidade, a métrica irregular dos repentistas e a lógica aparentemente desconexa de Zé Limeira e Otacílio Batista.
O resultado é uma música que parece familiar e estranha ao mesmo tempo. E talvez seja essa a melhor definição para o álbum.
![]() |
| Detalhe de imagem da contracapa do disco. |
Faixa a faixa: nove maneiras de
inventar Zé Ramalho
O primeiro som é um dedilhado de violão. Depois, o espaço se abre. “Avôhai” não começa como uma canção; começa como uma invocação. O avô que criou Zé depois da morte do pai transforma-se em figura ancestral, quase espiritual. O próprio título junta “avô” e “pai”. Mas a música vai além da biografia: mistura sertão, memória, transcendência e imagens cósmicas. Os teclados de Patrick Moraz fazem o sertão parecer subitamente infinito. É uma das imagens fundamentais do álbum: uma viola nordestina olhando para o céu e encontrando uma nave espacial.
Foi também a primeira música de Zé a chegar ao rádio. Ele contou que ouviu “Avôhai” num táxi, a caminho do Galeão, durante uma das intermináveis jornadas de divulgação do disco. A viagem tinha finalmente produzido um destino.
Se “Avôhai” olha para os ancestrais, “Vila do Sossego”, a faixa seguinte, olha para a juventude. A canção nasceu de uma casa em João Pessoa que se transformou em ponto de encontro de artistas, intelectuais e cantadores. Era um espaço de experimentação e liberdade num Brasil ainda mergulhado na ditadura. O arranjo parece refletir esse estado de espírito. As vozes femininas — entre elas, Elba Ramalho — surgem como aparições de ninfas celestiais. O coro não apenas acompanha Zé: cria uma atmosfera suspensa, quase mitológica. É uma canção de refúgio. Mas também de inquietação.
Então o disco se aproxima do coração. “Chão de Giz” é provavelmente a mais imediatamente humana das grandes canções do álbum. Por trás de suas imagens fragmentadas existe uma história de amor proibido, envolvendo uma mulher mais velha e casada com um homem poderoso de João Pessoa. A canção não explica a história. Ela a deixa espalhada em fotografias, jornais, lembranças e objetos. O coro feminino retorna, assim como as cordas e o piano, criando uma delicadeza que contrasta com a voz áspera do cantor. É uma canção sobre aquilo que sobra quando uma relação termina: não a narrativa completa, mas os vestígios.
O quarto movimento mergulha no pesadelo. “A Noite Preta” é uma das faces mais psicodélicas do álbum, com imagens opressivas e um ambiente de delírio. Mas a instrumentação não abandona o Nordeste: a sanfona de Dominguinhos, o triângulo de Cátia de França e a zabumba de Bezerra da Silva (sim, ele mesmo) ajudam a construir um cenário em que o surrealismo parece nascer de uma feira, de uma estrada ou de uma noite sertaneja. A música é uma pequena demonstração da tese do disco: não é preciso escolher entre psicodelia e tradição. As duas coisas podem habitar a mesma noite.
Se existe uma faixa em que o álbum ameaça perder o chão é “A Dança das Borboletas”. Parceria com Alceu Valença, esta canção transforma o voo em metáfora de liberdade e metamorfose. E então Sérgio Dias entra com sua guitarra. O ex-Mutante parece rasgar a canção por dentro. Seu solo é hipnótico, elétrico, quase agressivo. A guitarra representa aquilo que o título promete: movimento, transformação, ruptura. E o acaso da fita acabando completa a cena. A borboleta voa até desaparecer.
Depois do excesso e da inquietude da faixa anterior, a instrumental “Bicho de 7 Cabeças” abandona a palavra e entrega o protagonismo às cordas. Viola de dez cordas, violão Ovation e violão de sete cordas constroem um diálogo que mostra uma outra dimensão do compositor. É importante porque lembra que a música de Zé não depende apenas da estranheza de suas letras. Existe um músico por trás do poeta.
O samba-canção “Adeus Segunda-Feira Cinzenta” é talvez a grande surpresa do disco. Zé abandona momentaneamente o estereótipo do violeiro nordestino e mergulha num universo mais urbano e melancólico. A música fala de ruptura, solidão e desejo de escapar da rotina. É outra pequena provocação.
“Meninas de Albarã” recupera o imaginário fantástico do interior. A música parece uma história contada à beira da estrada: delicada, estranha, cheia de saudade e ameaça. O baixo ganha presença, os violões conversam com a guitarra e Paulo Moura acrescenta o refinamento do sax soprano. É uma das faixas em que melhor se percebe a capacidade de Zé de transformar paisagem em personagem.
O disco termina voando. “Voa, Voa” é um baião e, ao mesmo tempo, uma síntese. Depois da ancestralidade, do amor impossível, da psicodelia, do pesadelo, das guitarras, dos instrumentais e da melancolia, resta o movimento. Voar é escapar. É abandonar aquilo que sufoca. É transformar a experiência em caminho. E, de certa maneira, é também o destino daquele disco.
Quando o álbum Zé Ramalho chegou ao mercado, o Brasil atravessava uma transformação. O regime militar começava a abandonar alguns de seus mecanismos mais duros, e a música popular brasileira vivia uma intensa circulação de artistas nordestinos.
Zé, entretanto, não chegava como mais um representante de uma música regional. A própria imprensa da época percebia a multiplicidade. Uma reportagem da Revista Pop destacava influências que iam de Bob Dylan e Beatles aos repentistas, enquanto ressaltava a presença de músicos como Dominguinhos, Paulo Moura, Sérgio Dias e Patrick Moraz no álbum.
A recepção, porém, não foi completamente uniforme. Há relatos posteriores de críticas negativas e da percepção de Zé de que sua origem nordestina pesou contra ele. Por outro lado, uma matéria da Folha de S.Paulo de 1980 registrava que os críticos haviam recebido o disco com bons olhos e que alguns chegaram a compará-lo a Bob Dylan. O próprio Zé ironizou a comparação: segundo ele, talvez os críticos simplesmente não conhecessem o repentista Otacílio Batista. É uma resposta reveladora. O problema não era apenas ser comparado a Bob Dylan. Era o fato de que, ao ouvir Zé Ramalho, muita gente procurava uma referência estrangeira para explicar algo que tinha raízes profundas na cultura nordestina.
Enquanto a crítica tentava
encontrar uma etiqueta, o público começava a reconhecer uma voz. “Avôhai”
chegou ao rádio. “Vila do Sossego” veio depois. “Chão de Giz” permaneceria por
décadas como uma das grandes canções de sua carreira.
A CBS chegou a hospedar Zé no Hotel Plaza de Copacabana para facilitar o trabalho de divulgação. Nos shows, ele distribuía seu livreto de cordel Apocalypse. Em meados de 1978, recebeu o primeiro dinheiro referente à execução pública de suas músicas e percebeu que aquela coisa, enfim, estava começando a acontecer. O disco havia encontrado seu público.
![]() |
| Otacílio Batista, cantador e repentista pernambucano que foi uma das influência na formação musicala de Zé Ramalho. |
O primeiro voo
É tentador olhar hoje para Zé Ramalho como se seu sucesso fosse inevitável. Não era. O álbum nasceu depois de recusas, incertezas e dificuldades. O próprio Zé lembraria que chegou ao Rio com três canções que ninguém parecia saber onde colocar. E talvez seja justamente isso que torne sua estreia tão importante.
O disco não apenas apresentou um novo cantor. Apresentou uma possibilidade.de que a tradição nordestina pudesse conversar com o rock sem perder sua identidade. De que a viola pudesse dialogar com sintetizadores. De que um repentista pudesse ser psicodélico. De que uma canção sobre um avô pudesse soar cósmica. De que uma letra surrealista pudesse carregar, simultaneamente, memória, política, amor, sexo, sertão e misticismo.
Décadas depois, o álbum continuava
sendo tratado como uma espécie de identidade artística de Zé Ramalho. Não por
acaso, “Avôhai”, “Vila do Sossego” e “Chão de Giz” permanecem indissociáveis de
seu nome. O disco estabeleceu uma linguagem que seria aprofundada nos trabalhos
seguintes. Seu legado vai além da carreira individual.
Zé Ramalho ajudou a
ampliar a própria ideia do que poderia ser a música nordestina dentro da MPB.
Não uma música congelada no folclore, mas uma música em trânsito: capaz de
atravessar o sertão, o rock, a psicodelia, a poesia, o rádio e a cidade.
É por isso que o álbum permanece tão estranho. E é por isso que permanece tão atual.
Zé Ramalho queria chegar ao povo. Na época, dizia que não sabia se conseguiria alcançar a massa com um disco tão “interior”, tão ligado ao seu espírito. Conseguiu. Mas talvez tenha conseguido de uma maneira diferente daquela que imaginava. Não porque simplificou sua música para ser compreendido. Conseguiu porque fez da própria estranheza uma forma de comunicação.
Em 1978, aquele homem que chegara da Paraíba com uma viola, alguns versos e uma coleção de canções que as gravadoras não entendiam finalmente colocou sua voz num disco. O resultado não parecia pertencer inteiramente ao Nordeste, nem ao rock, nem à MPB, nem à psicodelia. Pertencia a Zé Ramalho.
E talvez seja essa a razão mais
profunda de sua permanência. Como ele próprio resumiu na apresentação da
reedição de 2003: era o “disco da chegada”. Mas havia algo além da chegada. Havia
o início de uma viagem. Tudo começa com “Avôhai”.
Faixas
Todas as músicas escritas por Zé
Ramalho, exceto onde indicado.
Lado A
1."Avôhai"
2."Vila do Sossego"
3."Chão de Giz"
4."A Noite Preta" (Alceu
Valença, Lula Côrtes, Zé Ramalho)
Lado B
5."A Dança das
Borboletas" (Alceu Valença, Zé Ramalho)
6."Bicho de 7 Cabeças"
7."Adeus Segunda-Feira
Cinzenta"
8."Meninas de Albarã"
9."Voa, Voa"
Referências:
Revista Pop – abril de 1978
– Editora Abril, São Paulo, Brasil.
Revista Pop – maio de 1978
– Editora Abril, São Paulo, Brasil.
revistaartebrasileira.com.br
rollingstone.com.br
wikipedia.org
zeramalho.com.br






Comentários
Postar um comentário