Além Paraíso (EMI-Odeon, 1982), 14 Bis
Por Sidney Falcão
No início dos anos 1980, o 14 Bis já não era apenas uma
banda promissora de Minas Gerais. Era um nome consolidado, dono de três discos
de enorme repercussão — 14 Bis (1979), 14 Bis II
(1980) e Espelho das Águas (1981) — que haviam garantido à banda
mineira um espaço sólido no cenário do pop rock brasileiro naquele começo de década.
Amparados pela sombra generosa do Clube da Esquina e especialmente pela figura
de Milton Nascimento, os músicos do 14 Bis conseguiram algo raro: unir o
lirismo mineiro, a harmonia vocal sofisticada e o espírito coletivo do rock progressivo
a um frescor pop capaz de ecoar nas rádios.
Mas 1982 trazia novos ventos. A década estava se moldando
sob a estética da new wave, dos sintetizadores e das produções mais limpas,
voltadas para a objetividade pop. Depois de uma viagem aos Estados Unidos, onde
adquiriu equipamentos de ponta, o grupo decidiu colocar essa modernidade a
serviço de seu próximo passo. Nascia Além Paraíso, quarto álbum
de estúdio do 14 Bis — um disco que soa como retrato de um tempo em transição:
entre a herança setentista e a urgência radiofônica dos anos 1980; entre o
lirismo bucólico das montanhas mineiras e a sedução cosmopolita das grandes
cidades.
O 14 Bis nunca se prendeu a um único molde. A cada trabalho,
expandia os limites entre rock progressivo, MPB e folk, trazendo harmonizações
vocais que dialogavam diretamente com o DNA do Clube da Esquina. Em Além
Paraíso, essa fórmula não desaparece, mas ganha uma moldura diferente:
há mais sintetizadores, arranjos mais enxutos, uma produção que busca clareza e
impacto imediato.
O resultado é um disco híbrido. Ao mesmo tempo em que mantém
a poesia delicada e o refinamento melódico, flerta com o pop radiofônico. Essa
tensão percorre toda a obra, criando uma ambiguidade fascinante: seria este o
início de uma rendição ao mercado ou apenas a prova da versatilidade do grupo?
Talvez as duas coisas.
“Linda Juventude” abre o álbum com ares de hino. A canção
começa com um riff marcante de violão e se ergue como celebração da
ancestralidade, da simplicidade e da força transformadora da juventude. É uma
música solar, impregnada de imagens poéticas, metáforas luminosas e um espírito
de comunhão.
Em seguida, “Passeio Pelo Interior” nos leva para outra
paisagem: sintetizadores suaves desenham a moldura de uma balada progressiva,
onde a vida rural e o contato com a natureza são exaltados como instantes de
paz e espiritualidade. “Pequenas Coisas” reforça a estética bucólica mineira da
banda. Violão e cantos de pássaros abrem espaço para harmonias vocais
delicadas. A letra valoriza os detalhes do cotidiano, transformando o efêmero
em poesia.
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| 14 Bis no começo dos anos 1980. Acima: Hely Rodrigues e Cláudio Venturini. Abaixo: Sérgio Magrão, Flávio Venturini e Vermelho. |
“Retrato na Praça” surge como crônica poética da convivência
entre gerações. A canção alterna ritmos, oscilando entre passagens mais
aceleradas e momentos de calmaria, revelando a veia progressiva do quinteto.
“Querer Bem (Birmingham)” começa como canção suave e intimista, marcada por
violões e teclados, até que a bateria de Hely Rodrigues a transforma num balada
rock. A letra celebra o amor e a simplicidade, transmitindo esperança e
serenidade.
No meio do disco, o clima se desloca com “Uma Velha Canção
Rock ’n’ Roll”. Aqui o 14 Bis presta homenagem direta ao gênero que moldou sua
juventude. A música é nostálgica e vibrante, celebrando a amizade, a liberdade
e a comunhão. Tornou-se outro grande sucesso radiofônico, reafirmando que o
grupo sabia dialogar com públicos diferentes sem perder sua identidade.
Solos de gaita simulando ruído de trem fazem a introdução de
“Pele de Verão”, um folk rock leve que fala do calor do verão e das paixões
efêmeras, transformando a estação numa metáfora para a vida: intensa,
passageira e cheia de surpresas. O pop rock “Beijo Sideral” trata sobre um amor
descrito como encontro etéreo, comparado ao brilho do sol e ao movimento dos
astros. A leveza da melodia faz dela uma canção agradável, sem o peso das
reflexões existenciais, mas com um charme de escapismo romântico.
Já “Você Não Tá Com Essa Bola” talvez seja o ponto mais
frágil do álbum. Tentativa de soar moderno, sintonizado com a estética pop/new
wave que dominava rádios internacionais, acabou soando artificial. A letra, que
trata de uma despedida irônica e libertadora, não consegue sustentar a ambição
estética.
O disco chega ao fim com “Romance de Amor”, um fecho lírico
e delicado. A canção celebra a paixão simples, cotidiana, feita de encontros
breves, saudade e ternura. Uma despedida suave, que resgata a essência poética
do 14 Bis e fecha o álbum em tom contemplativo.
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| O encarte de Além Paraíso vinha com um poster de uma lado e as letras das canções do outro. |
No entanto, o público recebeu bem o álbum Além Paraíso. As
faixas “Linda Juventude” e “Uma Velha Canção Rock ’n’ Roll” se tornaram hits
incontestáveis nas paradas de rádio. Mas outras faixas também alcançaram
popularidade como “Pele de Verão” e a faixa-título.
A verdade é que Além Paraíso dividiu opiniões
justamente porque expunha uma tensão inevitável: a de uma banda que vinha do
progressivo dos anos 1970, mas precisava dialogar com um novo momento da cena
pop rock brasileira.
Passadas mais de quatro décadas, o álbum permanece como
documento essencial da trajetória do 14 Bis. Ele registra o momento em que o
grupo, já consolidado, ousou experimentar novos caminhos sem abrir mão de suas
raízes. Se algumas escolhas soaram frágeis, outras renderam canções que
alcançaram sucesso radiofônico.
Além Paraíso é, em última instância, um álbum
de transição. Resume o dilema de tantas bandas no início dos anos 1980: como
manter a identidade sem ignorar a modernidade? O 14 Bis não ofereceu uma
resposta definitiva, mas deixou um disco onde convivem a delicadeza mineira, a
ousadia progressiva e o desejo de falar ao grande público. E talvez seja
justamente essa ambiguidade que o torna tão instigante até .
Faixas:
Lado A
01. “Linda Juventude” (Flávio
Venturini - Márcio Borges)
02. “Passeio Pelo Interior” (Flávio
Venturini - Murilo Antunes)
03. “Pequenas Coisas” (Cezar De
Mercês - Sérgio Magrão)
04. “Além Paraíso” (Flávio
Venturini - Márcio Borges)
05. “Retrato Na Praça” (Fernando
Brant)
06. “Querer Bem (Birmingham)” (Hely
Rodrigues - Tavinho Moura)
Lado B
07. “Uma Velha Canção Rock 'N'
Roll” (Flávio Venturini - Murilo Antunes)
08. “Pele De Verão” (Flávio
Venturini -Luiz Carlos Sá)
09. “Beijo Sideral” (Suzana Nunes)
10. “Você Não Tá Com Essa Bola” (Flávio
Venturini – Mariozinho Rocha)
11. “Romance De Amor” (Flávio
Venturini - Suzana Nunes)
14-Bis: Flávio Venturini (vocal e teclados), Cláudio Venturini (vocais e guitarra), Sérgio Magrão (vocais e baixo), Vermelho (vocais e teclados) e Hely Rodrigues (bateria).



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