Stars (East West Records, 1991), Simply Red
O ano era 1976. Na cinzenta Manchester, coração industrial da Inglaterra, um garoto adolescente de cabelo flamejante e voz ardente chamado Mick Hucknall começou a testar o microfone contra a fúria do mundo. Nos tempos do punk, ele vivia o frenesi de guitarras ásperas nos Frantic Elevators — uma banda pequena, barulhenta e apaixonada. Em meio a fitas demo e lançamentos locais, os Elevators chegaram a um lampejo de reconhecimento com “Holding Back The Years”, mas isso só seria realmente algo transformador anos mais tarde. Algum tempo depois, quando o punk dava sinais de exaustão, Hucknall já sonhava com algo mais delicado, mais emotivo, emocional.
Em 1985, após o fim dos Elevators, Mick Hucknall fundou o Simply Red — nome inspirado no seu cabelo ruivo e no vermelho do Manchester United, seu time do coração. A essência era soul music, mas passada pelo filtro europeu de quem cresceu ouvindo Otis Redding e Billie Holiday e, ao mesmo tempo, ia a pubs e se deixava envolver pelo calor das canecas de cerveja tradicionais, enquanto Margareth Thatcher desmontava os sindicatos. A formação inicial – Mick e um punhado de músicos de Manchester – foi montada às pressas, mas logo, com “Money's Too Tight (To Mention)”, um cover dos Valentine Brothers, a banda ganhou o primeiro sucesso real. O mundo conheceu aquela voz: dócil, elástica, ferida. O primeiro álbum, Picture Book, de 1985, lançou uma semente pop-soul que germinaria rápido. Mas foi uma outra faixa do álbum, a regravação de “Holding Back The Years” — agora como soul melancólico e sofisticado — que explodiu nas paradas americanas, fazendo de Hucknall um astro internacional quase instantâneo.
Vieram então Men and Women (1987) e A New Flame (1989), este último contendo outro cover avassalador: “If You Don’t Know Me By Now”, recriação imaculada de Harold Melvin & the Blue Notes, que novamente levou o Simply Red ao topo das paradas. Mas algo inquietava Hucknall. Seus maiores hits eram reinterpretações. O mundo o via como um intérprete brilhante, mas ele queria ser reconhecido como compositor. Stars nasce dessa inquietação: provar que podia escrever canções memoráveis com sua própria caligrafia melódica, sem recorrer ao repertório alheio.
Em 1990, já mundialmente famoso, Hucknall começou a compor de maneira quase silenciosa, em quartos de hotel vazios, com um walkman e um violão. Estava exausto. Sentia o peso da fama e a solidão das turnês longas. Frequentava clubes como The Haçienda, em Manchester, onde a música eletrônica apontava novos caminhos sonoros. Queria que o novo álbum tivesse batidas mais modernas, mas sem perder a alma. O Simply Red partiu para Paris em agosto de 1990 para gravar o quarto disco. Mas a cidade vivia sob tensão: bombas, sirenes, noticiários sobre a Guerra do Golfo. O estúdio era um bunker, abafado, carregado de angústia. As gravações empacaram. Hucknall confessaria mais tarde: “parecia que estávamos vivendo num estado de guerra”. Decidiram abandonar tudo e partir para algo oposto: mudaram-se para uma vila do século XVI perto de Veneza, na Itália, no Condulmer Studios, cercada de jardins e luz mediterrânea. Lá, a energia renasceu.
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| Ian Kirkham, Gota Yashiki, Tim Kellett, Heitor T.P. e Fritz McIntyre. |
Quando o disco toca do início ao fim, é como se cada faixa fosse uma janela diferente dessa constelação afetiva. “Something Got Me Started” abre os trabalhos como um convite dançante, com teclado saltitante, baixo quente e um groove de sax que introduz a nova fase: é soul com perfume de pista, mas com coração. Em seguida, “Stars” desce como uma declaração noturna de desejo e escapismo – Hucknall canta em falsete como quem se rende ao próprio reflexo, enquanto guitarras limpas e piano criam a sensação de abraço em câmera lenta. “Thrill Me” desacelera o pulso e mergulha num jazz-funk mais úmido, onde um sax atrevido aparece como lampejo de luxúria; pode parecer menos estruturada, mas traduz bem a busca por sedução e fuga.
“Your Mirror” vem escura e orgulhosa, construída ao piano numa tensão quase como um sermão íntimo – é a faixa em que Hucknall mais usa a dureza de sua voz, falando de identidade e amor-próprio diante do espelho. Em contraste, “She’s Got It Bad” é solta, quase uma disco music em câmera lenta, cheia de espaço para os vocais respirarem, como se fosse gravada num salão vazio de noite com um globo espelhado a girar no teto. “For Your Babies” surge como momento de ternura pura: piano, violão e voz em tom de acolhimento – é a canção onde Hucknall deixa a armadura da estrela e canta como um pai que observa o filho brincar no tapete; delicada, melódica, quase uma canção de ninar adulta.
“Model” desacelera ainda mais e flerta com o reggae em clima suave, quase preguiçoso, marcado por um balanço jamaicano discreto, e deixa a música flutuar como quem foge do estresse da cidade grande. Já “How Could I Fall” abre com piano e sax, melancólica e resignada, com Hucknall lamentando ter se apaixonado por alguém superficial – parece jazz de fim de noite num bar semivazio. Em seguida, “Freedom” traz de volta o peso do baixo e do groove, evocando o soul-funk mais dançante, ainda que a letra tenha um ar de desabafo político, inspirada na Europa pós-Muro de Berlim. O álbum se encerra com “Wonderland”, que soma a voz do tecladista Fritz McIntyre (1958-2021) à de Hucknall, criando um dueto suave, quase espiritual, onde tudo volta a desacelerar: é uma despedida que olha para o alto, como quem aceita a vida com um suspiro leve antes de desligar o abajur.
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| Ian e Mick numa apresentação do Simply Red no programa Top Of The Pops, na TV britânica, em 1991. |
Mas o público abraçou o disco com fúria amorosa. O álbum foi uma avalanche comercial: cinco singles nas paradas (“Something Got Me Started”, “Stars”, “For Your Babies”, “Thrill Me” e “Your Mirror”), shows em estádios, mais de 1,5 milhão de pessoas na turnê. Stars foi o álbum mais vendido no Reino Unido em 1991 — e repetiu o feito em 1992, feito que não acontecia desde os tempos de Bridge Over Troubled Water de Simon & Garfunkel, no início dos anos 1970. O disco acumulou doze discos de platina só no Reino Unido, e vendeu mais de 9 milhões de cópias no mundo. Em 2019, ainda era o 14º álbum mais vendido da história da indústria fonográfica britânica.
Curiosamente, ao mesmo tempo em que vendia milhões, Stars continuava gerando opiniões contraditórias. Em 1998, leitores da revista Melody Maker votaram nele como o segundo pior álbum de todos os tempos — uma provocação talvez movida por puro cinismo indie. Mas o tempo dissolveu qualquer polêmica: Stars permanece como a obra que consolidou Hucknall não só como intérprete, mas como autor de melodias memoráveis, capaz de combinar jazz, reggae, soul, pop e dance com naturalidade.
Hucknall recebeu dois BRIT Awards, um World Music Award e um Ivor Novello de “Compositor do Ano”. A revista Rolling Stone chamou o álbum de “conjunto enxuto de originais, cantado de forma soberba, sem nostalgia artificial”. E a AllMusic, anos mais tarde, o definiria como o melhor disco deles desde a estreia: mais polido, mais pessoal, finalmente com uma assinatura própria.
Talvez o grande triunfo de Stars tenha sido esse: mostrar que o pop britânico poderia dialogar com o soul americano sem imitação servil, e sim com voz própria. Hucknall, com sua cabeleira vermelha e sua obsessão pelo estrelato e pelos efeitos que a fama tem sobre a alma, conseguiu transformar um disco de soul-pop em manifesto emocional europeu. Muito mais que um conjunto de canções bonitas e bem executadas, Stars é um documento de transição: de intérprete a autor, de banda a projeto artístico pessoal, de pop adulto a obra de relevância cultural. Há algo de astrológico no fato de tantas pessoas terem ouvido e se reconhecido no disco: era como se os dramas íntimos – amor, vaidade, cansaço, desejo – estivessem todos ali, embalados por um som moderno e elegante que dizia: “você também pode se perder nas estrelas”.
Após tanto
tempo desde o seu lançamento, ainda é fácil colocar Stars para
tocar e sentir aquele misto de reverência e conforto. O disco atravessou o
tempo com dignidade. Pode já não ser hype, mas continua vivo. E talvez aí
esteja o segredo da verdadeira grandeza pop: não no susto, mas no brilho
persistente. Stars escreveu o nome do Simply Red — e de Mick
Hucknall — no firmamento. E é provável que, enquanto houver alguém olhando para
o céu em busca de alguma resposta, esse disco continue ecoando como uma
constelação sonora pessoal: familiar, emotiva, eterna.
Faixas
Todas as
músicas foram escritas e compostas por Mick Hucknall, exceto onde está
indicado.
- "Something Got Me Started" (Hucknall, Fritz McIntyre)
- "Stars"
- "Thrill Me" (Hucknall, McIntyre)
- "Your Mirror"
- "She's Got It Bad"
- "For Your Babies"
- "Model"
- "How Could I Fall"
- "Freedom"
- "Wonderland"
Simply Red:
Mick Hucknall – vocal principal, vocal de apoio
Fritz McIntyre – teclado, vocais adicionais em "Freedom
e “Something Got Me Started” e "Wonderland"
Rowetta – vocal adicional em “Freedom”
Tim Kellett – teclados
Heitor TP – guitarras
Shaun Ward – baixo
Gota Yashiki – bateria, percussão, programação
Ian Kirkham – saxofones
Referências:
Revista Bizz – edição 78, janeiro/1992, Editora Azul, São Paulo, Brasil.
poprescue.com
simplyred.com
thisisdig.com
wikipedia.org



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